Por Jorge Henrique de Freitas Pinho*
Introdução: Um Encontro com o Conhecimento e a Gratidão
Ao longo da jornada da vida, cruzamos caminhos com almas que nos transformam de maneira silenciosa, como estrelas que iluminam sem exigir reconhecimento. Algumas dessas almas são mestres ocultos, que sem alarde plantam sementes de um saber ancestral, destinado a florescer no tempo certo.
Entre essas figuras que marcaram meu percurso, Israel Segal Cuperstein, meu querido Suli, ocupa um lugar especial. Durante as incontáveis travessias entre o Rio de Janeiro e Manaus, enquanto minha existência oscilava entre deveres profissionais e os anseios do coração, Suli foi mais que um amigo: foi um mestre, um farol em meio à névoa.
Foi dele que ouvi, pela primeira vez, sobre a Cabala Judaica. Mas não apenas ouvi — senti. Cada ensinamento ressoava em mim como o eco de um conhecimento adormecido, uma verdade que sempre estivera presente, apenas esperando o instante certo para despertar.
Entretanto, entre tantas lições que Suli compartilhou, uma em particular mudou irrevogavelmente minha forma de enxergar a vida: o conceito de Ézer Kenegdo, a essência do feminino na existência do homem. Não foi um aprendizado apenas intelectual; foi uma revelação que me atravessou como um raio, acendendo memórias adormecidas e costurando o passado ao presente com fios de significado.
De repente, durante uma maravilhosa conversa num desses voos noturnos, um filme se desenrolou em minha mente, trazendo de volta uma cena perdida no tempo: a primeira vez que vi Tricia. Eu era um jovem de dezoito anos quando fui apresentado a uma menina de apenas dez, ainda criança, pela madrinha dela, Vania Sabbá. Lembro-me de ter sentido, por um instante fugaz, um pensamento que não era meu sussurrar: “Tu vais te casar com essa menina.” Imediatamente, refutei a ideia, argumentando internamente: “Mas é apenas uma criança!”
E assim segui minha vida, afastando-me daquele, até então, insensato presságio e só reencontrando Tricia quase oito anos depois. Ela se lembrava de mim. Eu, no entanto, não a reconheci de imediato. As transformações da infância para a juventude, haviam dado lugar a uma jovem mulher de beleza radiante, apagando os traços daquela lembrança remota de uma criança, mas, no instante em que nossas histórias se entrelaçaram novamente, algo despertou dentro de mim.
Iniciamos um namoro que, como um rio que encontra seu curso, desaguou naturalmente no noivado e, enfim, na esplêndida aventura da vida em comum. Juntos, seguimos trilhando os caminhos do amor, enfrentando não apenas as alegrias que tornam a jornada luminosa, mas também as sombras inevitáveis do existir. Atravessamos os desafios cotidianos, os aprendizados que moldam a alma e a dor inominável da perda de nossa primeira filha, ainda no ventre materno — um luto silencioso que marcou nossa busca por nossas flechas, Beatriz e Luiz Eduardo.
Mas o amor, quando verdadeiro, não se dobra à adversidade; ele se fortalece. Como nos versos dos Salmos, “Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que Ele dá. Como flechas nas mãos do guerreiro são os filhos da juventude.” E com isso, ergui meu arco ao lado de Tricia, não apenas como pais, mas como guardiões de um legado, lançando ao mundo nossas flechas — guiadas pelo vento da sabedoria, forjadas na fornalha da perseverança e impulsionadas pela força inquebrantável do amor.
Na interseção entre destino e escolha, compreendi que há amores que não são encontrados, mas sim lembrados. Pois Tricia sempre esteve ali, esperando que eu me recordasse do que minha alma já sabia desde o primeiro instante.
A tradição cabalística nos ensina que o homem não se basta. Sua energia é incompleta, e seu caminho, tortuoso, se não houver um elemento refinador e elevador que o impulsione além de sua natureza instintiva e terrena.
No Gênesis, quando Deus decide criar a mulher, o faz de uma forma simbólica que muitos traduziram erroneamente ao longo dos séculos. Na narrativa bíblica, está escrito:
“Não é bom que o homem esteja só; farei para ele uma ézer kenegdo.” (Gênesis 2:18)
A tradição ocidental traduziu essa passagem de forma errônea, muitas vezes reduzindo o papel da mulher a algo submisso ou secundário. Durante séculos, as traduções cristãs mais difundidas verteram essa expressão como “ajudadora idônea” ou “auxiliadora”, o que gerou uma interpretação equivocada.
O problema dessa tradução está em reduzir a mulher a uma simples ajudante, quando, na verdade, a raiz hebraica da expressão Ézer Kenegdo traz um significado muito mais profundo e transformador.
Ézer (עֵזֶר) significa “ajuda”, mas não no sentido de subordinação. A mesma palavra é usada na Bíblia para descrever a própria ajuda de Deus à humanidade.
Kenegdo (כְּנֶגְדּוֹ) significa “contra ele” ou “diante dele”, denotando uma contraposição, uma força que o desafia, que o equilibra.
O verdadeiro significado de Ézer Kenegdo não é “ajudadora” no sentido de servidão, mas sim “uma força que o equilibra e o desafia”. A mulher não foi criada para ser inferior ao homem, mas para estar diante dele, como um espelho, uma contraparte que o leva a se tornar mais do que ele seria sozinho.
A Cabala explica que essa dinâmica reflete um princípio espiritual essencial: o masculino tende à dispersão, à ação bruta e à busca de conquista; o feminino, por sua vez, direciona, molda e eleva essa energia para algo superior.
Se o homem fosse deixado apenas à própria sorte, ele caminharia em círculos, repetindo os mesmos erros, prisioneiro de sua própria natureza. A mulher é quem o obriga a enxergar além, a transcender a si mesmo.
Essa contraposição não é resistência gratuita, mas um convite ao crescimento. A mulher, ao desafiar o homem, força-o a sair da sua zona de conforto, a reavaliar suas convicções e a expandir sua compreensão da vida.
A Cabala ensina que esse equilíbrio entre forças opostas é o que gera evolução e crescimento. Assim como uma árvore cresce porque encontra resistência no solo, o homem cresce porque encontra na mulher um espelho que reflete suas imperfeições e suas potencialidades.
Na Árvore da Vida da Cabala, o princípio do feminino está associado a Biná (compreensão). Enquanto o homem se alinha à força de Chochmá (sabedoria, ação bruta), a mulher é quem transforma a sabedoria em algo aplicável e vivo.
A mulher não apenas recebe, mas transmuta. Se o homem é o fogo, a mulher é o forno que transforma a matéria bruta em luz e calor. Se o homem é a semente, a mulher é o solo fértil que a transforma em vida.
Essa não é uma função passiva. É um papel de ação consciente e refinamento contínuo, pois a mulher não apenas molda o homem, mas também o conduz ao seu propósito maior.
A jornada espiritual de um casal, segundo a Cabala, não é unilateral. Se a mulher desafia e refina o homem, o homem, por sua vez, deve sustentar e proteger essa energia transformadora.
Essa troca mútua é o que permite a evolução do casal como unidade espiritual. O crescimento de um depende do crescimento do outro.
Diz a Cabala que um homem que não respeita, valoriza e escuta sua mulher está condenando sua própria evolução espiritual. O inverso também é verdadeiro: uma mulher que não reconhece a grandeza de seu papel perde a conexão com sua essência mais elevada.
Ao longo da minha vida, tive o privilégio de testemunhar essa força transformadora da mulher de maneira concreta. Minha esposa Tricia e minha filha Beatriz são a expressão viva desse ensinamento.
Tricia, com sua sabedoria, paciência e amor incondicional, sempre esteve ao meu lado, guiando-me nos momentos mais desafiadores.
Beatriz, com sua inteligência e sensibilidade, ilumina meu coração e me faz acreditar que o mundo pode ser um lugar melhor quando guiado pelo amor e pelo conhecimento.
E Luiz Eduardo, que cresce cercado por essas mulheres extraordinárias, absorvendo os valores que elas transmitem com naturalidade e amor.
Este artigo é uma homenagem a todas as mulheres que, com sua presença e sabedoria, elevam e transformam o mundo ao seu redor. Se hoje sou um homem melhor, é porque fui lapidado por elas.
Que possamos sempre reconhecer, valorizar e aprender com essa força essencial que a mulher representa – não como sombra, mas como luz; não como complemento, mas como fundamento; não como parte, mas como essência.
(*) O autor é advogado e Procurador do Estado aposentado.