Triste realidade

Por Felix Valois

A inflação brasileira atingiu os dois dígitos, enquanto o ministro Paulo Guedes brinca com os números e tenta iludir a população. A dona de casa, que vai ao supermercado, sabe muito bem que as conversas técnicas sobre fatores inflacionários não têm o condão de afastar a dura realidade: os preços dos gêneros alimentícios estão a cada dia mais elevados e, como os salários não crescem na mesma proporção, sobreviver está sendo uma tarefa difícil.

O governo, tendo em conta a presença do ano eleitoral, já ensaiou a divulgação de vários “pacotes de bondades”, por via dos quais expressa sua intenção de mascarar o quadro verdadeiro, distribuindo benesses pontuais para a massa de baixa renda. Isso, porém, se tem efeito midiático e eleitoreiro, não altera o cerne da questão, deixando intocada a evidência de que é indiscutível o fracasso da política econômica posta em prática a partir de 2019.

Convenhamos em que não poderia ser de outra forma. Bolsonaro chegou à presidência sem um plano de governo, até porque nem ele mesmo acreditava que o povo cometeria a insensatez de elegê-lo. Assim, fruto da insatisfação popular com as besteiras de Dilma, o capitão vai para o Palácio do Planalto cercado pelo deslumbramento do menino que recebe um inesperado presente. E, como todo deslumbramento não se coaduna com a realidade, pôs-se a fazer o que lhe vinha à cabeça, sem qualquer limitação ditada pelo bom senso.

Nomeou um ministro da Educação estrangeiro para, logo em seguida, substituí-lo por outro que não tinha noções elementares de língua portuguesa. Agora, recentemente, sofreu o desgosto de ver duramente atingida sua falácia da ausência de corrupção no governo, quando dois evangélicos, infiltrados no âmago do ministério, se danaram a cobrar propinas para a liberação de verbas para as prefeituras.

No ministério da Saúde o estrago foi bem maior porque comprometeu vidas humanas. Turrão, arrogante, Bolsonaro minimizava o potencial danoso da pandemia e, irresponsavelmente, clamava aos quatro ventos contra a vacinação em massa, além de condenar as medidas de isolamento social. Por conta dessa caturrice, dois ministros foram defenestrados, até que um general subserviente se prestou ao papel de endossar as tolices de seu chefe, tendo a pantomima resultado na morte de mais de seiscentos mil brasileiros. Isso tudo ocorrendo dentro de um cenário em que a imagem do Brasil sofria desgaste irreversível no plano internacional, por força das tolices encenadas pelo presidente.

Agora vem à tona a compra de Viagra para as Forças Armadas. Era só o que faltava. Ninguém pode ter nada contra o fato de coronéis e generais quererem se beneficiar dos efeitos que o medicamento proporciona. Apenas um senão: comprem-no com seus salários que, aliás, nunca estiveram tão altos como neste governo militar. O que não é tolerável é que o contribuinte, já tungado por todos os lados, ainda tenha que bancar a luxúria dos homens da caserna. Assim não vale.

Por tudo isso, fico imaginando o que conduz ao resultado de algumas pesquisas de opinião que indicam a subida de Bolsonaro. Ou loucura ou insensatez. Dou outra alternativa de lambuja: alienação pura e simples, capaz de ofuscar a evidência de que esse governo é uma ameaça muito séria ao estado democrático de direito. Rejeitá-lo é um dever de cidadania.

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Felix Valois

Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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