08/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Universidade na miséria

Publicado em 07 de fevereiro, 2022

Por Felix Valois

Nos meus textos tem sido recorrente a afirmativa de que o Brasil carece de um programa de Estado no que diz respeito à educação. A ausência desse instrumento é, indiscutivelmente, a causa da derrocada que, há décadas, vem sofrendo o ensino nos seus mais diversos níveis. Comprovação óbvia disso são os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio, o famoso ENEM, em que as respostas chegam ao ponto do surreal, inspirando humoristas e sátiros.

Se esse é o quadro geral, há que se esperar do governo (de qualquer governo) que pelo menos não aja para piorar a situação estabelecida, dificultando o funcionamento dos entes incumbidos do ensino e da pesquisa. Infelizmente, não é o que acontece no país em que vivemos neste momento. Bolsonaro tem sido um carrasco inclemente quanto a tudo o que diz respeito à cultura de modo geral, agindo abertamente para boicotar o avanço de qualquer iniciativa válida no setor.

Não é em razão, portanto, que o jornal A Crítica, em sua edição de 28 de janeiro deste ano, estampou esta manchete: “Ensino superior – Cortes do governo Bolsonaro – Orçamento da UFAM caiu 41,6% desde 2019 – Em meio a novos cortes no setor, universidade viu seu caixa sair de R$ 730 mi para R$ 490 mi”. É angustiante ler uma coisa dessas. O quê, a não ser a mais absoluta irracionalidade, pode levar um mandatário público a sufocar de tal forma uma instituição de ensino e pesquisa?

A Universidade Federal do Amazonas foi uma conquista de nosso povo, consolidada há pouco mais de cinquenta anos, depois de luta ferrenha. De lá a esta data tem vivido um processo de evolução, estendendo-se para o interior do Estado e desenvolvendo intensa atividade de pesquisa nos mais diversos campos, principalmente nos que estão vinculados à realidade do nosso meio ambiente.

Mas é impossível avançar em tal atividade sem dinheiro, ou mesmo com orçamento limitado. Ao cortar, quase pela metade, o orçamento da UFAM, o governo federal desfecha golpe que atinge, por via indireta, o próprio povo, principal destinatário do produto gerado pela instituição. O professor Luiz Antônio Nascimento, na mesma matéria jornalística citada, toca no cerne da questão e proclama: “Por vontade, Bolsonaro teria decretado o fechamento das universidades. Quando ele reclama que a Constituição não o deixa trabalhar é por conta disso. Ele tentou interferir nas universidades, por exemplo, nomeando reitores que não foram eleitos pela comunidade. Ele agora tenta minar a universidade cortando o financiamento”. E mais adiante perora em tom de revolta: “Qualquer patriota, em qualquer país de beira de barranco, de qualquer lugar do mundo, defenderia suas instituições de educação, de pesquisa e de ensino. Aqui não; ele ataca, ele condena, ele desdenha e ele corta recursos fundamentais para a manutenção”.

Já o primeiro vice-presidente da Associação dos Docentes, professor Aldair Andrade, mostra outra faceta maligna do comportamento do governo federal, ponderando: “Hoje a universidade tem um problema de caixa efetivamente. O principal impacto para a comunidade acadêmica é a manutenção de programas e auxílio dos estudantes. O apoio direto a bolsas, a restaurantes universitários, auxílios moradia e todos os outros. Um segundo impacto direto para o atendimento à comunidade de modo geral é o parque da infraestrutura”.

Fica a pergunta: o que fizemos para merecer isso? Enquanto dilacera a educação como um todo, o presidente não tem limites para os gastos com o cartão corporativo, superando de muito todos os seus antecessores. Por outro lado, a Amazônia queima diante dos olhares complacentes do governo. É demais. É insuportável. Resta esperar que esteja próxima do fim essa era retrógrada e de negacionismo. O Brasil, a “pátria amada”, merece coisa melhor.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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