22/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Fiocruz identifica 11 linhagens e afirma que crise da Covid-19 resultou de relaxamento e falhas

Publicado em 26 de janeiro, 2021
Fiocruz identifica 11 linhagens e afirma que crise da Covid-19 resultou de relaxamento e falhas

Fiocruz identifica 11 linhagens e afirma que crise da Covid-19 resultou de relaxamento e falhas. Foto: Divulgação

Até dezembro de 2020 no Amazonas foram sequenciados 165 genomas da Covid-19, provenientes de 25 Municípios, com a identificação de 11 linhagens, além de um caso detectado de reinfecção. Os dados fazem parte da quarta Nota Técnica sobre o comportamento da pandemia no Estado, com enfoque nas macrorregiões e regionais de saúde. O documento se baseia nos casos notificados de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) correlacionados ao Sars-CoV-2 até a segunda semana epidemiológica de 2021.

O Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) e o Observatório Covid-19 Fiocruz divulgaram ontem a nota. Conforme o documento, Manaus segue com duas curvas de crescimento, a primeira curva exponencial e contínua da taxa de incidência de casos, com posterior decréscimo em ritmos variáveis, e uma nova curva em processo exponencial de crescimento. Esse padrão pode indicar que a epidemia seguiu seu curso natural, com baixa interferência das medidas de contenção adotadas, mas que sofreu recrudescimento pela não efetividade das ações de controle.

Fiocruz

A identificação de ao menos 11 linhagens do SARS-CoV-2 em menos de 9 meses após o primeiro caso confirmado no Amazonas, ressalta a intensidade com que a pandemia chegou na região. Dados recentes sobre uma nova variante viral encontrada no Reino Unido, possivelmente mais transmissível, mostra a necessidade do contínuo monitoramento da diversidade genética viral em diferentes regiões do mundo.

O relaxamento das medidas de contenção no processo de evolução da epidemia determinada pelo SARS-CoV-2 é condição importante para o recrudescimento dos níveis epidêmicos e, portanto, deve ser monitorado, de forma a ser planejado de maneira criteriosa. Além da imunização da população e ampliação da vigilância laboratorial para suporte à adequação dos serviços de saúde e à atenção aos pacientes com SRAG, políticas públicas que propiciem maior adesão da população às medidas de contenção como a prática do distanciamento social, isolamento de sintomáticos, investigação e monitoramento de contatos, uso de máscaras, higienização das mãos e de possíveis fômites, devem ser implementadas em tempo oportuno e avaliadas de maneira contínua.

Aumento exponencial

O aumento exponencial do número de casos e óbitos por Covid no Amazonas representa a crise do sistema de saúde diante das desigualdades sociais e das necessidades de saúde da população. Na capital, foi observado o aumento do número de casos da população residente em bairros socio-economicamente favorecidos, seguido da disseminação dos casos nas áreas periféricas de Manaus, o que permite sugerir que a introdução da doença na capital chegou via aérea de passageiros oriundos de outros países da Europa e a China. Um terceiro movimento foi o espalhamento do número de casos pelos rios amazônicos em direção ao interior, sem deixar de destacar outros vetores de introdução do vírus via tríplice fronteira e municípios fronteiriços com os estados do Pará, Rondônia, Roraima e Acre,simultaneamente.

Em comparação com as análises realizadas na Nota Técnica 3 (Fiocruz 2020), a partir das últimas semanas epidemiológicas, vivencia-se uma tendência de crescimento do número de casos e de internações hospitalares, que reforçam a necessidade de continuar com as medidas adotadas para impedir contatos efetivos, mas, principalmente, fortalecer a vigilância de casos e de óbitos, aumentar a testagem, monitorar e reforçar a assistência em diferentes níveis da atenção. São preocupantes as tendências de crescimento nas regiões de saúde da Macrorregião Oeste, especialmente nos povos indígenas, sendo o território com maior população indígena do país, além das diferentes situações de vulnerabilidade que acometem esse grupo.

Leitos de UTI

A expansão do número de leitos de UTI ocorreu de modo desproporcional ao aumento do número de casos confirmados. Os leitos exclusivos da rede privada e pública voltaram a 95% de ocupação em dezembro de 2020, assim como em abril de 2020. Não houve um preparo adequado da rede assistencial de urgência e emergência para o enfrentamento ao desafio pandêmico. À medida em que houvesse a provisão oportuna de serviços assistenciais, o sistema de saúde teria capacidade de se reorganizar, mediante lições aprendidas com a doença).

Houve a abertura e posterior fechamento de dois hospitais de campanha (um de gestão municipal e outro estadual) com a provisão de 170 leitos clínicos para casos moderados, sendo 53 destes exclusivos para populações indígenas.

Além disso, as limitações na produção e abastecimento de oxigênio no Estado, contribuíram para o colapso do sistema de saúde. Atualmente Tabatinga, Maués e São Gabriel da Cachoeira possuem mini-usinas para produção de oxigênio hospitalar, e estão sendo adquiridas pelo Estado ou doadas para equipar hospitais da rede pública do Amazonas nos municípios de Coari, Autazes, Tefé, Eirunepé, Lábrea e Carauari, por programas como “Unidos contra a Covid-19”da Fiocruz, Hospital Sírio-Libanês, Todos pela Saúde, entre outros. A produção de mini-usinas independentes para produção de oxigênio agiliza o tratamento dos pacientes e brinda a assistência necessária à rede pública.

A Nota Técnica foi elaborada por pesquisadores da Fiocruz Amazônia e do Observatório Covid-19 Fiocruz. São eles: Bernardino Albuquerque, Carlos Machado de Freitas, Christovam Barcellos, Daniel Antunes Maciel Villela, Felipe Gomes Naveca, Fernando Herkrath, José Joaquín Carvajal Cortés, Leonardo Soares Bastos, Marcelo Ferreira da Costa Gomes, Margareth Crisóstomo Portela, Rodrigo Tobias de Sousa Lima, Sérgio Luiz Bessa Luz e Valcler Rangel Fernandes.

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