04/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

EXCLUSIVO Sequenciamento genético do coronavírus no AM chega a dezembro e pesquisa tem herói da pandemia

Publicado em 11 de janeiro, 2021

EXCLUSIVO Sequenciamento genético do coronavírus

EXCLUSIVO Sequenciamento genético do coronavírus tem em Felipe Naveca, na foto-montagem em dois momentos em laboratório, uma esperança na busca de explicações para a virulência da nova fase da pandemia

Um dos maiores nomes do sequenciamento genético no Brasil, Felipe Gomes Naveca, 43 anos, trabalha incansavelmente para acompanhar as mutações do novo coronavírus no Amazonas. Em março do ano passado, o pesquisador se tornou pioneiro em decodificar o genoma do vírus no Norte. Agora enfrenta o desafio de encontrar a mutação que tornou a pandemia mais agressiva. Cientistas japoneses descobriram a cepa da África do Sul em passageiros que retornaram ao Japão, dia 02/01, e teriam contraído a Covid-19 no Amazonas.

O surpreendente é que o especialista viu características genéticas, nas amostras do Japão, semelhantes à de amostras identificadas no Amazonas, entre 3 de maio e 12 de novembro. “Isso sugere uma origem no Amazonas”, disse.

O pesquisador afirma que o Brasil tem 30 linhagens do coronavírus e identificou 11 no Amazonas. Com amostras de 25 Municípios amazonenses, ele descobriu uma das portas de entrada da pandemia no Estado, a tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru. Uma das linhagens amazonenses foi identificada apenas em Tabatinga.

 

Entre os dez mais

Naveca, bacharel, mestre e doutor em Ciências do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), foi considerado pelo Tilt, o site de tecnologia do UOL, um dos 10 cientistas brasileiros mais importantes na pandemia. Filho, neto e pai de amazonenses, o pesquisador “por acaso”, brinca, nasceu no Rio de Janeiro.

O cientista passou 45 dias afastado dos familiares, para não infectá-los, mas mesmo assim perdeu o pai para o coronavírus. Ainda hoje, ele se emociona quando revela que coletou o exame do pai e 20 dias depois o perdeu. Mas voltou ao trabalho em dois dias. “É um dever com a memória de todos que se foram”, disse.

 

O trabalho dos japoneses

Naveca analisou o trabalho de cientistas japoneses, que sequenciaram o genoma encontrado nos quatro viajantes que retornaram do Amazonas, dia 02/01. “Eles (Japão) têm menor número de infectados e investimento em ciência muito maior que o nosso”, explica.

A equipe do Dr. Naveca vai recebendo amostras, coletadas em infectados no Amazonas, e fazendo o sequenciamento genético. Eles concluíram o mês de novembro e entram agora em dezembro e janeiro. Nenhuma amostra pode ficar para trás, sob pena de perder alguma informação importante. “Só aí poderemos comparar se esta variante já estava presente aqui”, explica.

Os japoneses se concentraram nos quatro casos dos viajantes oriundos do Amazonas. “Sequenciar um evento assim é mais fácil. O primeiro genoma feito no Amazonas, em março do ano passado, foi o primeiro da Região Norte. Foi feito em poucos dias, após a identificação do caso. E olha que era um caso assintomático”, disse

 

Características semelhantes

“As amostras identificadas no Japão possuem muitas mutações na proteína spike, responsável pela ligação às células. Esse grande número de mutações nessa região não foi identificado até o final de novembro de 2020 nas amostras do Amazonas. Uma mutação importante, todavia, E484K, já havia sido encontrada em uma única amostra”, disse.

“Cabe destacar que a variante descrita no Japão pertence à linhagem B.1.1.28, que circula no Brasil desde março. Os dados dos pesquisadores japoneses reforçam a importância da vigilância genômica em tempo real de patógenos virais. E a necessidade, urgente, de aumentar o investimento em pesquisa nessa área”, disse.

 

Sequenciamento genético

O especialista explica, da forma mais simples possível, como é feito o sequenciamento genético. “Nós pegamos a amostra do paciente, extraímos o material genético do vírus (no caso do coronavírus é o RNA – sigla em inglês do Ácido Ribonucleico) e fazemos um processo que copia o material genético várias vezes. Depois disso, esse material, que nessa etapa chamamos de biblioteca, entra em um aparelho (sequenciador), que lê cada base do genoma do vírus”.

“Com o auxílio de programas de computador nós montamos de volta esse genoma, revisamos para não ter erros e temos a sequência do genoma completo do vírus. Com base nessas informações, nós podemos comparar amostras, identificar linhagens, mutações etc.”, acrescenta.

 

Alerta epidemiológico

O cientista concordou com o Alerta Epidemiológico emitido pelo Ministério da Saúde do Brasil, após o resultado do exame feito no Japão. “Está correto. Tem que ser investigado mesmo. O texto do alerta é muito coerente”, analisou.

 

Infraestrutura

Felipe Naveca explica que a Fiocruz tem a infraestrutura para o sequenciamento genético. “O investimento em insumos e pessoal, porém, é que define quantos genomas é possível fazer por dia. São reagentes importados e, além dos custos, tem a questão da logística”, diz.

Cada sequenciamento genético custa entre R$ 350 e R$ 450, em se tratando de um genoma viral de alta qualidade. O Amazonas chegou a 213.961 casos informados, até o domingo (10/01).

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