
Fred Góes conta tudo sobre a carreira em São Paulo e Parintins. Na foto-montagem, ele parece de bigode e cavanhaque tocando charango no “Raíces de América”e depois puxando cuíca no Garantido. Fotos: Arquivo Fred Góes
Frederico Daniel Paulo Rolim de Góes, 72, o Fred Góes, tem muita história para contar. Fizemos essa entrevista pelo telefone. Foram duas horas e meia de conversa e 16 páginas no Word. É contra os padrões da Internet? Sim. Mas quem ler terá um rico painel da música parintinense, brasileira e internacional, passando por Chico da Silva e Venâncio. Saberá, por exemplo, a história de “Cantiga de Parintins” por um de seus autores, Fred, parceiro de Chico. Entenderá a chegada do charango e outros instrumentos ao boi bumbá. Viajará na trajetória do “Raíces de América“, que Fred integrou.
Jornalista, dono de um Prêmio Esso nacional, por ter integrado a equipe que cobriu o incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo, Fred trocou uma próspera carreira de músico e jornalista pela volta a Parintins. E aí começa o folclore. Será que ele, vendo o Festival, ficou tão encantado que jogou os documentos no rio Amazonas? O reencontro dele com Chico da Silva, os dois já em São Paulo, é hilário. “Não nos reconhecemos”, diz Fred. Tempos depois, entrando num elevador da TV Gazeta, deu de cara com Venâncio e Chico. “O Chico perguntou: ‘Tu não é filho do seo Raul?’ Aí me deu um estalo: ‘Tu não é filho do Tamborete?’. Passamos uma semana bebendo.
Você sabia que Hermeto Pascoal participou da gravação do primeiro compacto duplo de Chico da Silva, tocando caixinha? Essas e outras histórias, deliciosas, estão nessa entrevista de Fred Góes.
Antes de começar, porém, não esqueça: neste sábado (28/11), às 16h, Fred é o grande homenageado na live “A força da amizade”. Falará sobre os 40 anos da carreira dele, com David Assayag, Zezinho do Carrapicho, Márcia Siqueira, Edilson Santana e muitos outros. Daniel Paulo no nome de Fred? “Um amigo traduziu esse ‘Daniel Paulo’ como ‘Senhor da Justiça e da paz’. Tomara”, brinca.
Ah, Fred, Raul e Vander Góes são sobrinhos de Lindolfo Monteverde. É só ver aí que você vai entender.
Leia, a seguir, a íntegra da entrevista, exclusiva:
Fred Góes – Eu cheguei em 1985, de retorno a Parintins. Raciocinei mais em cima do meu envolvimento com o folclore, desde que cheguei em São Paulo. Cheguei em 1965 e em 1970 já estava na lida. Mas desde os cinco anos me envolvi com boi. Minha mãe me levava pro São José. Lindolfo era irmão da minha mãe, por parte de pai. Minha mãe tinha uma relação muito próxima com ele porque onde é o Planeta Boi era do meu avô, Marcelo Rolim de Goes. Raimundinho Dutra, num livro, é que me apresentou meu avô e eu fiquei sabendo que ele era munduruku e fazia cura popular.
Fred Góes – Meu tio Zé Rolim foi outra vertente, também de cura, que ficou famoso por causa disso. Eram 12 irmãos e todos tinham relação com cura popular. Minha mãe, dona Siloca, era curadora popular. Rezava responso. Foi grande tiradora de espinha na cidade. Não havia como fazer isso, no sistema de saúde, e era tudo com ela. Ela embebia algodão em azeite doce e cutucava a garganta da pessoa, até tirar, com uma reza em cima. Era famoso, quando a gente morava na João Melo, o mingau da caridade, o caribé, que ela fazia. Ela sempre me levava pra lá (pra Baixa) para assistir os ensaios. Aquela área do Planeta Boi, todinha, moravam os meus tios. Era uma tribo.
Fred Góes – A gente sempre tratou Lindolfo como tio. Mais perto é que foi se perdendo isso. Tem a família Monteverde e ninguém queria ficar falando “sou sobrinho do Lindolfo”. Ele foi um grande produtor cultural, numa época em que havia o sentido negativo da coisa. O grande mérito de tudo que Parintins usufrui, não só por causa dele, mas de Luiz Gonzaga – falo mais do Luiz Gonzaga porque, tenho 72 anos, e foi ele quem eu vi fazendo o Caprichoso. Eu vi o velho Lindolfo fazendo o boi, no curralzinho do Garantido. Minha mãe me levava também para o curral do Caprichoso, no seo Luiz Gonzaga. Minha mãe sempre dizia que nós éramos todos parentes.
Fred Góes – Tem um pouco a ver porque o gueto da Baixa da Xanda, aquele centro de origem negra da cidade, tinha muita relação com os negros do Esconde. Sempre digo que o Caprichoso tem uma origem no Esconde, que eram aqueles becos onde moravam negros. Havia essa relação entre os dois guetos. Um no Leste e outro no Oeste de Parintins. Essa relação sempre foi muito clara pra mim. Eu fui embora em 1965 e em 1971 entrei na faculdade e acabei conhecendo Venâncio Cavalcante de Albuquerque, que na verdade se chama Marcos Cavalcante. Ele era da primeira dupla sertaneja do Brasil, Venâncio e Corumba. Eles abriram, no 20º andar no prédio Martinelli, o primeiro prédio de São Paulo, uma produtora de espetáculos, A Venba.
Fred Góes – Ele mesmo. Lançaram Jair Rodrigues. Venba reúne Venâncio e Corumba. Lançaram Benito di Paula, uma turma. Venâncio era um grande poeta. Esse cara foi “o cara” pro Chico. Eu já contei isso lá no Ifam (Instituto Federal do Amazonas), antiga Escola Técnica, onde nós estudamos. Para mim foram duas pessoas que foram esteio do Chico em São Paulo: Venâncio, grande poeta, e doutor Raul Medina, grande médico, dono de clínica enorme, no bairro da Mooca, que tinha, no fundo, tipo uma boate, com grande coleção de bebida. Esse cara adorava o Chico. Todos nós, muito novos, no auge da coisa. É a partir daí que tenho essa visão. Pra ter uma ideia, violeiros e repentistas não tinham categoria musical, não eram considerados músicos. O Venâncio brigou e colocou os caras no mesmo pé de igualdade que os demais. Criou a Associação dos Repentistas, Poetas e Folcloristas do Brasil (Arpofob).
Fred Góes – Eles tinham um bar-restaurante, com uma mesona comprida, com dois cantores na cabeceira. Funcionava o dia inteiro. Você colocava o nome e faziam improvisos do que você colocava no papel, profissão etc. Virei amigo dele (Venâncio). E ele já estava com idade. A gente montou o Grupo Chaski, que em quíchua (ou quéchua), a língua Inca, significa “correio”. Os tukano, no rio Negro, ainda têm esse correio, feito através da floresta.
Fred Góes – Como eu cantava muito forró e carimbó, ele era louco que eu gravasse um disco de forró. Mas nunca me interessou. Ele pegou o Chico e disse que um dia ia visitar Parintins. A Gazeta era jornal, rádio e TV laboratório da Casper Líbero. A gente ia fazer um documentário sobre o cangaço. Fui lá no Venâncio, pedir ajuda, e me apresentou o “Chico Samba”. Nós não nos reconhecemos. O Chico aceitou participar. Venâncio me disse: “Dá uma chance pro Chico. Ele canta na noite e está cantando bem”. O programa era de forró e queriam que ele cantasse samba (risos).
Fred Góes – Não. Quando terminou um dos nossos programas disseram que tinha um cara da minha terra e cantando uma música chamada “O índio”. Esse programa era na hora do almoço. Terminava com todo mundo doido pra comer (risos). Saio correndo pra pegar o elevador e dei de cara com os dois, Chico e Venâncio, lá dentro. O Chico me olhou e disse: “Tu não é o filho do seo Raul?”. Me deu um estalo e respondi: “E tu não é o filho do Tamborete?”. A gente ficou uma semana bebendo por conta do reencontro (risos).
Fred Góes – A gente criou um point, no Centro. Ele me esperava num bar, Mutamba, na Major Quedinho, em frente ao jornal, no começo da Augusta. Daí a gente ia pro Taco de Ouro, nosso point, salão tradicionalíssimo, no famoso Buraco do Adhemar (de Barros). Do outro lado está o Correio. É na São João com o Vale do Anhangabaú. Eu já trabalhava no Jornal da Tarde e Estadão. Entrava 10h e saía 22h e a gente ia pra lá. Ficávamos até tarde e acabavam os trens. Eu dava o dinheiro do táxi e ele ia pra Diadema, onde morava. A partir do encontro no elevador, todo dia o Chico me aguardava. Eu morava com o Raimundo, irmão por parte da minha mãe, que ainda está vivo e mora em São Paulo. Foi mecânico-aviador da FAB e morava no Cambuci/ Aclimação. Se aposentou como oficial da Aeronáutica. Vai fazer 96 anos. Ano passado, comemorou 95 em Parintins. Ele me dava tudo e o dinheiro que eu ganhava era para gastar.
Fred Góes – O Chico cantava na noite. Eu nunca assisti. A gente vivia junto. Meu círculo era todo de jornalista. A gente cantava e sempre acabava em boi. O “Cantiga de Parintins” nasceu naturalmente e ficou famosa, em São Paulo, antes mesmo de ser gravada.
Fred Góes – Depois. Venâncio foi contratado como produtor musical de uma gravadora chamada Crazy. Chamou o Chico e disse: “Você vai gravar um compacto simples (uma música de cada lado)”. O Chico estava empolgado com o carimbó porque andou pelo Pará. Ele andou também pelo Rio Grande do Sul. Como ele sempre ia me buscar no jornal, a gente vivia bebendo junto. Ele escolheu duas músicas. “Não esquenta a cabeça” ficou e a outra ele não gravou. A gente estava no Martinelli. Aí o Venâncio pediu pra gente cantar toada. “Vocês falam muito disso. Canta aí”. A gente entrou pela madrugada cantando. A gente estava preocupado que o boi parecia ameaçado de desaparecer. Ele disse: “Vocês precisam gravar música de boi. Vai ser um incentivo para o pessoal de lá”. No outro dia cantamos de novo. Aí ele escolheu “Chegou boi Garantido, todo bonito, cercado de lanças”.
Fred Góes – Tem mais história. Você vai cair pra trás. As músicas foram gravadas no Bexiga, bairro tradicional da noite, no estúdio Publisol. Adivinha quem fez a caixinha? Hermeto Paschoal!!! A flauta foi Hector Cochita, um argentino, músico, maestro de mão cheia, que mora há muito tempo e é respeitadíssimo em São Paulo. Foi diretor musical do maior estúdio da América Latina. Como não tinha baixo, o Venâncio preferiu fazer numa tuba, trazendo um músico da Orquestra Sinfônica de São Paulo. O Hermeto fez outras coisas, que não lembro. É muito interessante porque todos já eram profissionais, embora ainda surgindo. Ele gravou “Não esquenta a cabeça” e “Chegou boi Garantido”, que acabou saindo na autoria como Ambrósio, criando um problema porque a música é do Vavazinho.
Fred Góes – Encontrei o Ambrósio, durante um jogo na Colina, e perguntei se a música era do Vavazinho. Ele me respondeu: “Verdade, mas eu não tive culpa”. Foi a primeira vez que vi o Chico como compositor, por causa do (cantarola) “Garantido é boi de raça/ mais famoso do País/ vai cantar na tua praça/ pra fazer você feliz/ depois volta pra manada/ e ninguém vai segurar/ não existe neste mundo/ vaqueiro pra lhe pegar”. Mandamos caixas de discos para Parintins, uma caixa só para a rádio Alvorada. E acabou acontecendo.
Fred Góes – Um dia eu estava na redação do Jornal da Tarde, trabalhando. Era um negócio enorme. Entre manhã, tarde e noite tinha uns 200 repórteres. Eu chegava 10h e a pauta já estava pronta. Nesse dia, a pauta só foi sair lá pras 16h. O Chico tinha me dito: “Às vezes quero lembrar de Parintins e não me lembro de muita coisa”. Era 1973. Já tinham morrido meu pai e minha mãe. Fiz um poema, uma elegia. A lauda estava na máquina e, em duas folhas, me veio todas as lembranças de coisas, como o miri-miri, o mari-mari… A única coisa que lembro do poema é a parte final. À noite, o Chico chegou e fomos pro Taco de Ouro. Mostrei pra ele, que gostou muito e pediu para levar. Meio-dia, dia seguinte, o Chico me liga. “Ouve aí. Começou a cantar, no violão”. Ele começou “Na Ilha Tupinambarana/ nasceu Parintins que vou decantar/ No carimbó tu dança pra lá/ e eu danço pra cá / No carimbó tu dança pra lá/ e eu danço pra cá e pra lá”. Às 22h, fomos pro Taco de Ouro e começamos a cantar. Aí, muitas noites depois, eu lembrei do meu poema. Virei pro Chico e perguntei: “Cadê o meu poema?”. Ele respondeu: “Eu perdi”. Nós brigamos. Esculhambei com ele (risos).
Fred Góes – Desapareceu. Eu lembro: “A ti ainda verei/ mas a eles nunca mais” – em relação a Parintins, que eu queria voltar, e aos meus pais, que tinham morrido. Daí ele pegou e mexeu em tudo, na mesma noite em que ele recebeu. Começamos a cantar e grudou feito chiclete. É assim com as músicas. “Dança das cores”, eu passei uma noite cantando e no outro dia todo mundo sabia. Deixa te contar como surgiu a mudança na “Cantiga de Parintins”….
Fred Góes – O Venâncio me encontrou numa boate famosa, no Lago do Arouche. Eu ensaiava com um pessoal, no 20º andar de um prédio. Ele me disse: “O Chico vai gravar na Phillips Polydor”. Ele estava saindo dessa boate e foi encontrar um empresário. Tinham dois cantores na mesma linha, Martinho da Vila, da RCA Victor, e o Jorginho do Império, da Publisol, mas o Jorginho brigou com a empresa. Aí o cara estava procurando alguém e o Venâncio disse “tenho o Chico Samba”. Mudaram para Chico da Silva, nome original dele, e por conta do sucesso do filme Chica da Silva. Ficou melhor.
Fred Góes – Sim. O Chico foi morar no Meyer. Estive lá com ele.
Fred Góes – Venâncio chamou o filho dele, Clóvis, e mandou ele sentar na máquina. Aí pediu: “Me conta essa história de Parintins”. Passei um tempão falando. Aí ele escreveu: “Na Ilha Tupinambarana/ nasceu Parintins, que eu vou decantar/ Parintins dos Parintins, que é o nome da tribo deste lugar”. Se a gente for avaliar mesmo, foi a primeira toada que a gente fez. É boi. O arranjo é o do grupo Chaski. Gravaram mais para canção, mas o ritmo é toada.
Fred Góes – A estrutura dela é de toada. Os arranjadores deram um banho no Chico, estruturando tudo. A gente cantava na noite, improvisando instrumentos. Com os arranjos, a música ficou muito boa.
Fred Góes – Sim. Depois do Chaski a gente criou o Machitun, que significa “reunião de bruxos”, palavra que entre os índios não tem nada de pejorativo e significa “elevação espiritual”. Tanto no Chaski quanto no Machitun, a gente fazia os 20 minutos finais cantando toadas, do Garantido e Caprichoso. O pessoal levantava para dançar. A gente encerrava com “Balanceou”, do Caprichoso, com rabeca e outros instrumentos. Do Garantido era “Mestre Chico tira a língua, faz a tua obrigação”.
Fred Góes – “Balanceou”, se eu te contar, você não acredita. A Léa (esposa de Fred) cantava numa banda de forró e eu fiz uma música pra ela cantar. “Eu quero ver Maria Rita/ balanceando num salão/ eu quero ver moça bonita/ balanceando até o dia clarear. Oi balanceou/ balanceou/ balanceou/ oi balanceou eu quero ver balancear a a a”. Naquela época, a gente botava o gravador, gravava, ia pra rádio e todo mundo cantava. Eu estava bebendo com o Dicoloi (jogador de futebol) e disse que tinha feito “Vou levantar meu canto/ pro meu boi bumbá/ vou levantar meu canto/ pro meu boi bumbá/ Mae Caritina…”. Ele me disse: “Na casa do Zezinho já estão gravando a fita. Bora pra lá”. Eu estava muito “bacana” (risos) e gravei o ‘Mãe Catirina’. No outro dia me tiraram da cama Val Batuel, Edilson, Chicão Ianuzzi, meu querido e saudoso amigo, e a turma toda. O pessoal estava reunido na praça e todo mundo só queria saber dessa toada. Tocou o dia inteiro. Foi passando a ressaca e eu percebi que inclui o refrão automaticamente. Não me lembro como. Mas virou o hit do ano (risos).
Fred Góes – Não sou autor de muitas toadas. Não dá para produzir em série. Não adianta fazer encomenda. A maior parte das minhas obras musicais são coisas minhas. Tem toada que não passou. Eu era da comissão de artes, mas não passou. Sempre tem ajeitamento da diretoria, no interesse do boi. Em 20, umas quatro. “Coração amazônico” não passou. Estive com uma índia, que não fala Kuarup e sim Kuruápi, e fiz essa composição. Não passou. “Visão de tupã”, com o Sidney Rezende, não passou porque era 6 x 8, diferente do 2 x 2 da toada. A gente tem “Ameríndia”, que é totalmente 6 x 8. Hoje, essa variação é usada para demonstrar qualidade da Batucada e Marujada.
Fred Góes – Fui num debate, na Ufam, com a Odineia representando o Caprichoso, e colocaram a gente numa berlinda, dizendo que a gente estava acabando com a tradição. Dei um exemplo: “Quando eu era curumim, a gente colocava o couro da jiboia na água, esquentava na fogueira e botava numa caixa. Era o tambor. Depois vieram outros momentos da tradição. No grupo escolar, quando chegaram os tambores com pele só de um lado e chave para afinar foi um sucesso. O aperfeiçoamento do tambor é natural. Nunca fui de questionar muito, debater etc. A gente vai se aperfeiçoando. A gente vai chegando às conclusões e vai aprendendo. Não dá é para escusar o aperfeiçoamento. Não só da alma humana, mas do fazer humano. “Ah não, antigamente era melhor”. Era o momento. O universo do compositor da época do Lindolfo era um e no nosso tempo é outro.
Fred Góes – Os meninos estão compondo no nosso tempo. A estrutura musical depende de cada um. A harmonia mudou, vindo pelo Sidney Rezende, um cara de contribuição enorme para o boi. Antes, elas eram muito simples. A batida que ele imprimiu para marcar a toada parece muito com o samba, mas não é samba. São coisas que vieram sendo agregadas. É o que pretendo falar, na live. Quando comecei a produzir, ainda toquei com Neto Ferreira, no grupo “Vento em proa”, de música folclórica, e no “Regional Vermelho e Branco”. Fui me distanciando. Nunca toquei charango nesses grupos, acredita (risos)? Gravei, em 1994, e tiraram porque “agredia a tradição”. Aí o Caprichoso levou pra arena primeiro. Em 1995, produzi o primeiro disco. O Alex Mendes era do Caprichoso e parece que nasceu com o charango na mão. Chamei ele para gravar e foi ele que gravou para o Garantido, mesmo sendo do Caprichoso. Hoje o cara é o Clevison Brandão. A mão direita dele não fica a dever a nenhum peruano ou boliviano, a gente tem que reconhecer. Ninguém pode dizer, aliás, que alguém em Parintins não contribuiu para os bumbás.
Fred Góes – Eu trouxe a experiência de teatro. No Chaski, a gente fazia nossos arranjos, roupas, espetáculo, som, luz e música. Fui dirigido pelo Flávio Rangel, o maior diretor de teatro do Brasil. Trouxe tudo para o boi. Não posso aperfeiçoar? Claro que sim. Todo mundo adora o som do tambor de couro, mas de noite, no sereno, o couro desafina. O cara criou a pele hidráulica, com uma espécie de água entre as duas camadas. É a pele que os grandes músicos usam até hoje. Nada ficou para trás. Tudo caminha com a gente. Ano passado, os meninos não fizeram “O melhor boi do mundo”? Uma música com linguagem antiga. É o universo mudando e usando elementos tradicionais.
Fred Góes – Sempre tive a sorte de muitas oportunidades. O “Raíces” foi incrível. A gente tinha saído do Chaski. Tinha o Vicente Guilhermo Noriega Moreno, equatoriano, Guillo (pronuncia-se Guijo), que ainda está vivo e acho que é professor da Unicamp. É arquiteto e dava aula de Ergonomia. Associou o folclore às aulas dele. Foi ele quem me colocou no trilho da música. Eu tocava, fazia alguns acordes, tocava Jovem Guarda, Roberto Carlos… Até que toquei numa praia, com dois jornalistas, Fernando Barros e Zé Luís Teixeira de Carvalho, que estudaram comigo na Casper Líbero e eram muito ligados a mim. A gente acampava na praia do Perequê, no Guarujá. Acordei com um som diferente, que eu tinha ouvido no Masp. “Tu perdeste. O pessoal do Peru e da Bolívia ouviu a gente tocando e veio te ouvir, umas 4h. Eu já estava bodado (risos). Tinha um movimento grande, latino-americano, rolando no Masp. Voltamos a tocar e eles voltaram pra perto da gente, com tambores e flautas. Amanhecemos tocando.
Fred Góes – Sim. Um dia, no jornal, apareceu um equatoriano querendo falar comigo. Era pra me convidar para fazer parte do “Raíces”. Eu disse que passava as músicas para ele, mas ele não aceitou. Passei a ser percussionista da banda. Tocava bumbo leguebe, que a gente chama no Brasil de alfaia. Um bumbo escavado na madeira e feito com pele de animal, com pelo e tudo. Dá um som bem grave. Aí aprendi charango, com o Guilhermo Guillo. Depois entrou Fernando Enzo Merenho, de Santiago do Chile, que era amigo do Vandré, que acabou dirigindo um espetáculo nosso, “Barquito de Totora” – aquele junco que tem no lago Titicaca. E veio o Oscar Cegovia, o Chaquiro, para ser percussionista. Eu passei pro charango.
Fred Góes – É. Acabou. Nós tínhamos material para dois discos e, na gravadora Independente, Marcos Vinícius, o diretor, queria só um disco. Guilhermo não quis e a gente rompeu. Fizemos o Machitun, eu e os dois chilenos. Enzo faleceu há cinco anos. Ele foi marido da Tânia Alves. Acompanhamos ela na noite, num bar gay, na Major Sertório, o “266 West Bar”. Tânia cantava bolerões e a gente tocava com ela. Fizemos várias coisas. Enzo foi um grande incentivador do meu trabalho. No Machitun, um produtor chamado Sidney Morais, que cantou com o Santo Morales, vindo de um trio fantástico, ouviu a gente. A estreia do Machitun foi no dia 5/07/1979. Eu estava no intervalo do show e alguém me ligou avisando que Lindolfo tinha morrido. Como a gente fazia uma parte de boi, aproveitei para fazer homenagem.
Fred Góes – No Machitun fomos apresentados a Henrique Bergueveldi. Ele tinha uma indústria no Brooklin. Queria um disco para, depois, montar banda. Queria um show. Em outubro de 1979, começamos a ensaiar. O empresário pagava os ensaios. Eu trabalhava, mas os chilenos estavam urrando. A Simone tinha terminado um mês de sucesso no Canecão, dirigida pelo Flávio Rangel. Até rimos, pensando que era gozação, quando disseram que o Flávio estava vindo nos ver. Foi o empresário que deu a ideia de mudar o nome para “Raíces de América”.
Fred Góes – Em novembro 1979, a gente ensaiava numa casa quarto-cozinha, onde moravam os chilenos, com duas famílias. Aí entrou o empresário, com o Flávio Rangel. A gente parou e ele pediu pra continuar. Tocamos umas oito músicas. Depois pediu para parar. Levantou e disse: “Acabei de sair de uma temporada da Simone e não tinha interesse de fazer nada. Tô cansado. O Henrique é que insistiu tanto e eu resolvi vir. Eu não dirijo o que não gosto. (Todo mundo se encolheu e pensou que ele ia recusar). Nunca vi ninguém tocar da forma como vocês tocam. Esquece o disco, Henrique. Vamos fazer o show. Investe todo o dinheiro nisso. Depois aparece a gravadora.” Eles alugaram o Teatro do Conjunto Residencial Ilha do Sul, para 500 pessoas, onde nos tinham visto cantar. Eles alugaram pra gente ensaiar!!!
Fred Góes – Tem mais! Início de fevereiro fomos para o Teatro Procópio Ferreira, onde tinha terminado a temporada de “Os saltimbancos”. A gente ensaiou um mês e meio, no palco onde a gente ia tocar. Estreamos dia 18 de março de 1980. É o teatro onde faziam o “Sai de baixo”. Era para passar duas semanas e passamos dois meses. Saímos de lá e fomos contratados por Marcos Lázaro, empresário da Elis, para o Palácio das Convenções, no Anhembi, para 5 mil pessoas. A gente tocou para umas 300 mil pessoas.
Fred Góes – O Chico Anísio estava no Carnegie Hall. A gente foi contratado, tirou passaporte, estava com tudo pronto para sucedê-lo e houve um problema: o gerente do espetáculo sumiu com a grana da temporada do Chico. Pra não perder o embalo, a gente fez 40 shows no Brasil inteiro. Ia encerrar em Manaus. Em Fortaleza, no Teatro José de Alencar, o Celsinho, o mais maluco da turma, foi preso na praia, por estar tomando banho nu (risos). Saí correndo e avisei, mas acabamos sendo presos os dois. Era sábado. Domingo era o último espetáculo. Fizemos o show, mas excluíram Belém e Manaus da turnê.
Fred Góes – Saí do grupo em 1984. Havia muita briga interna. Estava ficando desgastante. A gente era underground. Quem faz sucesso precisa de muita disciplina. Não é que a gente fosse indisciplinado, mas continuávamos sendo mortais. Fizemos um show no Canecão. Aí explodiu. Foi um sucesso. Cada um tinha um apartamento, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Eu estava lá com minha ex-mulher, Erani Rodrigues, e meu filho Marcelo, que mora em Bruxelas, Bélgica. O Canecão, que era restaurante, às 22h parava de servir comida, mas 20h estava marcado um jantar, com a presença do Jô Soares. A gente comia numa pensão e adorava a comida da mulher. Comemos lá e quando deu 19h fomos para o Canecão. Era perto. Só que não conseguimos chegar antes de 21h, por causa do engarrafamento. Eu, Celsinho e o Enzo. Nunca que íamos pensar que aquele trânsito era por causa do nosso show. Só estava o Jô esperando. Lembro que a Nazaré Leitão, parintinense, foi nesse dia ver a gente. A gente tocava muito doido (risos). Saindo, fomos para outro jantar, no Leme, com Edu Lobo e outros amigos. Era sempre assim.
Fred Góes – Sim. Depois da temporada no Canecão fomos para São Paulo e depois voltamos para gravar o Fantástico, em Tiradentes (MG). Naquela pedra, gravamos o Fantástico, até 19h. O cara que produziu, Paulo José, veio ao Bumbódromo. O Raul, meu irmão (falecido ex-presidente do Garantido), encontrou com ele. O Paulo José pediu para me encontrar e conversamos. Ele me perguntou: “Você tem as imagens daquela apresentação no “Fantástico”? Eu disse que não. Naquele tempo ninguém tinha. O Paulo pediu meu endereço e me mandou a gravação. Acho que só eu tenho, num CD.
Fred Góes – Depois disso eu saí do grupo, em 1984, e me separei da minha ex-esposa em 2004. Aí o Zeca Bahia, do “Porto Solidão”, foi morar comigo. Fizemos um show, no Teatro Getúlio Vargas. A maioria dos músicos era do “Raíces”. Quem falava os poemas era Isabel Ribeiro, atriz, falecida, que fez o filme “São Bernardo”. Eu, do Amazonas, Celsinho Ribeiro (SP), Enzo e Oscar Segóvia (chilenos), Júlio César Peralta (argentino, violonista clássico), Willy Verdarguer (maestro argentino) e Tony Hosanah. Os dois eram de um grupo de rock (“Luvas negras”). O Willy era contrabaixista do “Secos e Molhados” e, com o Tony, virou músico do Raul Seixas. Tinha ainda a Mariana Vena, cantora, que fecha o pessoal do “Raíces”. A gente tocava tudo. De acordeon à percussão. O Willy e o Tony fizeram um grupo chamado de The Beach Boys. Eles acompanharam Caetano Veloso, em “Alegria, Alegria” e “É proibido proibir”. Tem um vídeo, em que o Gilberto Gil conta a história, no qual eles aparecem. A gente estava acompanhado dos grandes músicos da época.
Fred Góes – É uma história que tem um pouco de fundamento. Você sabe que o parintinense é fantástico em mixar (risos). Não sei por qual cargas d’água e meus documentos sumiram. Para fazer o jornal “O Parintins” tive que tirar carteira de identidade etc. Depois de muitos anos descobri que tinha colocado tudo em cima da geladeira e os documentos caíram atrás. Levaram a breca. Devo ter brincado sobre isso, não lembro. Mas a história real é essa.
Fred Góes – (Risos) Foi o Ozeas Carvalho que inventou essa história de “maior hebdomadário do Amazonas”. Mas se só tinha ele, com circulação semanal (risos)!!!. Você sabe que minha formação jornalística foi muito séria, focada em fundamentos éticos. Nunca coloquei que alguém era “bandido”, por exemplo. Mantive o jornal por dez anos. Trabalhei só um ano “no Caprichoso”, no azul. O resto foi tudo no vermelho (risos). Virei correspondente de A Crítica, dirigi a TV, até me envolver com o boi.
Fred Góes – Minha formação é de esquerda, mas não me prendo a nada. A gente participou, e muito!, da fundação do PT. Fui próximo do PCB e PCdoB, mas nunca quis me filiar. A música é universal. Sou católico, mas, para mim, a religião principal do ser humano é o humanismo.
Fred Góes – É isso. Mas vou contar a história. Abri o jornal. Camaleão era amigo do meu sobrinho, Cláudio. Parintins não tinha emprego. A gente não tinha bala para contratar gente. Tínhamos os entregadores e o Camaleão entregava as assinaturas. Eu ficava na redação com o charango e tocava nas horas vagas. Depois, o Camaleão passou a tomar conta da redação. Ensinei uns acordes para ele. A mão direita é muito importante. É instrumento rítmico e se encaixou no boi por causa disso. Foi em 1985. Veio aquela história da Bagatelli, “O 5 a 1 vai virar 6”. Chamei o Camaleão e ele gravou comigo. Eu fiz o violão e ele fez o charango. Foi aí que ele pegou o gosto e virou charanguista. Começou a tocar, fez carreira e hoje está na Inglaterra, muito bem, graças a Deus. Quero te colocar uma coisa…
Fred Góes – O charango não entra no boi em Parintins, mas lá em São Paulo. Nós tocávamos com os chilenos e eles gostavam muito das músicas de boi. Eles pediram pra eu passar a estrutura. Eles pegaram um trabalho na Febem e montaram um boi lá dentro. O local, de vez em quando, pegava fogo, literalmente (risos). Nós passamos a incluir músicas de boi no Chaski. Eu já tocava com o charango e o violino. Willy tocava um baixo com braço sem traste, flat, em inglês. Então o charango já estava incorporado. E, em Parintins, depois do Camaleão veio o Mailzon, que trocou a corda do cavaquinho e transformou em charango. E eu não trouxe só o charango.
Fred Góes – Eu trouxe também o cuatro venezuelano e o tiple, instrumento de 12 cordas, com grupos de três cordas, que tem o som do cravo. Não lembro o que aconteceu com ele. Trouxe o tillador, um violãozinho, parecido com o charango, que parece uma viola caipira, com corda de aço. O cuatro dei pro Emerson Maia. Um dia, ele botou em cima do carro, conversando comigo, e o cuatro se abriu todo, quebrou. Era um instrumento muito delicado. Trouxe a sanka, o toyo e um rondador, uma flauta pan, do Equador. O nome é porque você roda a boca e toca uma música equatoriana chamada “San Juanito”. Trouxe maracas venezuelanas. Trouxe a laquita. O Tony (Medeiros) ganhou um Festival da Canção com um arranjo que a gente fez no Refuge (usando esses instrumentos). O primeiro instrumento a entrar no boi, literalmente, no ensaio, foi o cuatro.
Fred Góes – Quem tocava era o Paulinho Du Sagrado. A gente estava nos tucumanzeiros, perto do palco do Curralzinho, com o Paulinho, fazendo um som. Ia começar o ensaio. O João Batista sentou com a gente e dei corda pra gente usar o cuatro. Subimos no palco e o Paulinho tocou e o João cantou.
Fred Góes – Eu, praticamente, parei de tocar. Toco no quintal de casa. Virei produtor. Não tenho mais tempo de ensaiar. Até nem queria fazer a live. Aí o João Melo (compositor) insistiu e eu aceitei. Ele quer homenagear todos os que ajudaram o boi. E eu seria o primeiro. Pedi pra ele convidar quem quisesse. Não quis participar, para não cometer injustiça. Vou contar minha história, cantar, contar. Vou falar sobre São Paulo e o desenrolar do Festival. É uma homenagem a quem contribuiu, tanto do Garantido quanto do Caprichoso. Não tenho essa história de “o Caprichoso é um bicho-papão”. Quero contar como ouvi a sonoridade do Caprichoso e Garantido. Nós somos grandes na cultura popular do Brasil pela soma. O que aparentemente nos divide é que nos torna maior, que é a rivalidade. No respeito e no crescimento.
Fred Góes – Tá na Internet o pessoal que vai participar – David Assayag, Zezinho do Carrapicho, Edilson Santana, Mailzon Mendes, Márcia Siqueira. É muita gente. E até os amigos que chegarem. Vai ser na Toca do Murilo, na Ponta Negra. Não penso num mega-espetáculo, mas quero oferecer conhecimento. Vou cantar também algumas músicas inéditas.
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