18/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Rota das Missões

Publicado em 04 de julho, 2020

Por Augusto Bernardo Cecílio

Quando tudo voltar ao normal, vale conhecer a Rota das Missões, no Rio Grande do Sul, algo muito especial e importante para quem quer descortinar as raízes da formação da América. São mais de dois mil anos da presença dos Guarani e quatrocentos anos da entrada dos jesuítas, que vieram da Europa rumo ao desconhecido para levar a fé cristã aos nativos daquelas terras, a chamada conquista espiritual.

Mergulhar no mundo missioneiro é poder andar por três países, Brasil, Argentina e Paraguai, nas fronteiras do Mercosul, visitando entre outros, sete Patrimônios Culturais da Humanidade.

A Região das Missões é fundamental para compreender as raízes do sul do Brasil e da América Latina, se transformando numa verdadeira viagem no tempo. É conhecer uma região cheia de elementos singulares, que devem ser vivenciados em toda sua simplicidade e intensidade, passando pelos sabores e aromas, além da arte e do artesanato que valorizam a história.

E um dos principais triunfos da humanidade ocorreu entre os anos 1609 e 1768, quando foram criadas as Missões Jesuíticas Guaranis. Esta república modelo foi exaltada na Europa por Voltaire e Montesquieu, filósofos do Iluminismo, como a realização da utopia do Cristianismo – A Terra sem Males.

Tendo a religião como a razão para a fundação das chamadas reduções e com a intenção de catequizar os índios, os jesuítas ofereceram ensinamentos diversos voltados à cristianização e sobrevivência – como plantação, manejo de animais e muito mais – criaram uma comunidade que conheceu a organização, o sentimento de união, o compromisso de aperfeiçoamento, a ideia de coletividade que tornava tudo comum e abundante, chegando mesmo a conquistar excedentes que eram vendidos em outras regiões da América e na Europa.

Pelo Tratado de Tordesilhas, de 1494, todas as terras da então chamada Província Jesuítica pertenciam à coroa espanhola. Lá conviveram 30 povos, por 160 anos, chegando a agrupar até 100 mil indígenas em torno de uma sociedade altamente desenvolvida – uma experiência única no mundo até então e, provavelmente até hoje.

Em 1750, porém, com o Tratado de Madri, para a fixação da fronteira entre as terras de Portugal e Espanha, fica decidida a troca do território dos sete Povos das Missões pela Colônia de Sacramento, passando a pertencer a Portugal, devendo os índios aldeados abandonar as reduções. Esse fato desencadeou a Guerra Guaranítica, e pela imensa diferença de armamento, os índios foram derrotados.

O golpe final que levou o projeto ao extermínio foi a expulsão dos jesuítas das terras de domínio espanhol, em 1768, passando os povos a serem governados pela administração colonial espanhola e, a partir de 1801, pela administração portuguesa, iniciando-se a decadência dos aldeamentos.

Hoje, o povo missioneiro é representado por uma mistura de raças, permitindo uma riqueza de aspectos em todas as manifestações culturais e, na cidade de São Miguel, ainda resiste diariamente, ao entardecer, o imperdível espetáculo Som e Luz, contando a saga dos padres jesuítas e índios Guarani, onde se pode entender o nascimento, o desenvolvimento e a destruição de um povo – mais que isso, de um sonho.

 

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Augusto Bernardo Cecílio

* Auditor fiscal da Sefaz, coordena o Programa de Educação Fiscal no Amazonas.

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.