
Imagem mostra ministro da Saúde, Nelson Teich, em visita ao hospital de campanha municipal, na zona Norte de Manaus. Foto: Alex Pazuello/Semcom
Cayo Oliveira Franco, gerente de geografia do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), afirmou, nesta quinta-feira (7/5), que dados confirmam fragilidades no sistema de saúde de algumas regiões no Norte e Nordeste do país. No caso do Amazonas, por exemplo, ele acredita que as informações podem levar à conclusão de que outras cidades do Estado poderiam ter seus próprios hospitais de campanha, o que reduziria o peso que há sobre o sistema de saúde de Manaus.
Franco fez as ponderações ao analisar dados do IBGE e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que identificaram oito regiões no Nordeste do Brasil que somavam mais de 200 mil habitantes e não possuíam nenhum leito de unidade de terapia intensiva (UTI) em dezembro de 2019. Os dados incluem as redes pública e privada e foram divulgados, nesta quinta (7) pelo instituto.
IBGE e Fiocruz usaram como base do levantamento o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde 2019 (DataSUS), que não inclui novas compras de equipamentos, como respiradores, que possam ter sido efetuadas neste ano e no contexto da pandemia.
Os dados do DataSUS foram cruzados com as regiões agrupadas pelo IBGE a partir dos deslocamentos de moradores em busca de serviços de saúde de média e baixa complexidade, o que pode, inclusive, englobar cidades de diferentes unidades da federação.
Com a colaboração do MonitoraCovid-19, da Fiocruz, o IBGE constatou que as oito regiões que não possuíam UTIs em dezembro de 2019 tinham como centro os municípios cearenses de Canindé, Itapipoca, Limoeiro do Norte e Russas, além das cidades baianas de Senhor do Bonfim e Valença, e os municípios de Vitória de Santo Antão, em Pernambuco, e Itabaiana, em Sergipe.
Os leitos de UTI são necessários para a internação de pacientes em estado grave com Covid-19, doença que avança no país com tendência de interiorização, segundo nota técnica publicada nesta semana pela Fiocruz.
Algumas dessas cidades sem UTI aparecem também na lista das que têm menos de quatro respiradores para cada 100 mil habitantes. É o caso das regiões cearenses de Canindé, Russas, Itapipoca e Limoeiro do Norte, e das cidades de Valença (BA) e Itabaiana (SE). Também estão nessa situação as regiões de Bacabal, Chapadinha e Pinheiro, no Maranhão, Arcoverde, em Pernambuco, e Picos, no Piauí, cuja região engloba cidades no Ceará e Piauí. Em Bacabal, há apenas 1,62 respirador para cada 100 mil habitantes.
O levantamento aponta ainda grandes desigualdades quando analisadas as regiões mais populosas e as unidades da federação. A região de Manaus, por exemplo, em dezembro de 2019 tinha 9,6 leitos de UTI e 27 respiradores para cada 100 mil habitantes, enquanto a de Recife tinha a proporção de 29,5 leitos e 51 respiradores por 100 mil pessoas, os números mais elevados do país.
Entre as unidades da federação, a diferença na oferta de UTIs é ainda maior. A cada 100 mil habitantes, Roraima tem quatro leitos, Amapá e Acre têm cinco, e Amazonas e Piauí, sete. Na outra ponta da tabela, O Distrito Federal tem 30; o Rio de Janeiro, 25; e o Espírito Santo, 20.
Distrito Federal e Rio de Janeiro tinham também, em dezembro de 2019, as maiores quantidades de respiradores por 100 mil habitantes, com 63 e 42, respectivamente. No Amapá, essa proporção cai para 10 respiradores por 100 mil pessoas, enquanto Piauí e Maranhão tinham 14.
Para Franco, todas essas informações podem subsidiar a resposta das autoridades. “É importante que a gente tenha clareza de quais são essas regiões, pela dinâmica de interiorização do coronavírus”, disse.
Segundo o especialista, os dados devem ser utilizados não apenas pelos prefeitos dessas cidades, mas por gestores públicos de toda a região e de esferas superiores. “É muito importante que a gente dê luz para mostrar os lugares que devem ser priorizados, obviamente observando a tendência de espraiamento do coronavírus no território”, afirmou.
No caso da Região Norte, Franco acrescentou que os grandes deslocamentos em direção a Manaus, muitas vezes em embarcações, são um fator que deve ser observado nesse planejamento.
“Manaus polariza uma grande quantidade de municípios, e tem uma disponibilidade não muito alta, pelo ponto de vista da população, de equipamentos e recursos humanos”, disse.
Na avaliação dele, outras cidades poderiam abrigar unidades equipadas para pacientes com Covid-19, a fim de desafogar o sistema na capital. “Polos regionais, como Parintins ou Tefé, poderiam servir de apoio para o estabelecimento de hospitais de campanha, para diminuir o peso sobre o sistema público de saúde de Manaus”, destacou.
Fonte: Agência Brasil
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