11/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Mortos em trincheira e luta com inimigo invisível

Publicado em 27 de abril, 2020

Não pela utilização de caixões, ou pela limitação da quantidade de mortos, Manaus foi palco de um cenário de guerra. Isso ocorreu na terça-feira (21/04) e vem ocorrendo nos dias subsequentes. Corpos enfileirados são colocados em valas no maior cemitério da capital.

As imagens, comumente vistas durante conflitos, guerras mundiais, ficaram evidentes ao mundo em minutos. Vídeos, fotos compartilhadas em redes sociais, bem como imagens de jornalistas correspondentes locais foram destaques de jornais de circulação nacional, como Estadão, Folha e Exame. Internacionalmente, Times Daily, The New York Time, entre outros, também deram destaque.

A guerra existe, no entanto, o inimigo é invisível e até o momento vem ganhando todas as batalhas. Do lado de cá da trincheira, ainda não existe uma arma capaz de vencê-lo. O que nos resta é nos organizarmos estruturalmente, com prevenção e cuidados, para não sermos atingidos por esse míssil – perdão, quis dizer vírus.

Em guerras comuns, combatentes mortos eram enterrados nas próprias trincheiras, que outrora eram usadas como barreiras de proteção. No cenário atual, as trincheiras são nossas casas e elas são a proteção dessa batalha moderna.

Em outras guerras, o mundo se dividia em dois lados. Agora é diferente. O inimigo é desconhecido e todos lutam do mesmo lado. Há também aqueles soldados mais audaciosos, que se arriscam a sair do campo de proteção, por necessidade ou por pura ignorância. E pagam o preço da ousadia.

Esses estão mais suscetíveis a serem atingidos e, outro dado curioso!, têm mais chances de atingir guerreiros do mesmo lado de combate.

O inimigo é invisível, altamente contagioso e voraz.  Prova disso é o aumento expressivo de pessoas contaminadas e mortas todos os dias.

Uma cena do filme “A Lista de Schindler” mostra o momento em que o personagem principal, Oskar Schindler (Ben Kingsley), se comove ao ver judeus enterrando judeus, durante o holocausto cometido por Hittler.

Como dito, não pelos caixões ou até mesmo pela quantidade de mortos, mas sim pelo modelo, em valas. O Amazonas tem vivido cenas parecidas.

Não diferente do filme, em que a cena do enterro coletivo comoveu Schindler, a imagem do enterro, vista na capital amazonense, também comoveu o mundo. Outra semelhança é ver conterrâneos enterrando conterrâneos aos montes.

O alemão Schindler, entretanto, usou de sua influência para salvar cerca de 1,2 mil judeus, empregando-os em sua fábrica.

Até este domingo (26/04), em todo o mundo, o coronavírus matou mais de 200 mil pessoas, em 193 países. É mais que os habitantes de Itacoatiara e Manacapuru. Infelizmente, nesse momento, somente Deus pode se compadecer de nós.

O fato é que o vírus tem desestruturado as civilizações, de forma global, em todas as esferas, sendo elas no âmbito cultural, político, religioso ou social.

Perdemos o senso do cotidiano. As pessoas ganharam momentos de instabilidade e incertezas. É impossível planejar um futuro quando esse é incerto.

É nesse triste contexto que Manaus vira destaque, mundo a fora. Deixamos de ser pacatos, quando viramos notícia sobre o alto número de contaminados pela Covid-19, quando o sistema de saúde entra em colapso, quando conterrâneos são mortos por esta ou outras doenças comuns da nossa região. Essas coisas, associadas ao novo vírus, só aumentam a contagem e deixam a sensação de desolação, dia após dia.

O inimigo dessa vez não escolheu raça, cor, gênero, status ou país. Do mesmo modo, não seriamos também nossos próprios inimigos? Será que o fato de rompermos o isolamento social não nos torna os atuais Hittler´s?

Havia os que, por esperança ou não, acreditaram na temperatura local. Achavam que o clima quente fosse combater o vírus e que ele perderia força na região. Até momento, a ameaça chegou com uma mutação mais potente, dizem. O certo é que desiludiu até os mais céticos.

A máxima do ditado popular, de que o manauara é preguiçoso e aproveitaria o momento para desfrutar da rede, tem sido um grande desafio. Seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), principalmente a de #ficaremcasa, tem sido um dos grandes desafios da população baré.

Talvez não somente por questões financeiras, como também pelo viés cultural.

Esse povo desmistifica o lado “preguiçoso” e mostra o lado andante e impaciente da população agitada, como visto nas antigas gravuras registradas no auge da borracha.

Óbvio que essas características não favorecem o cenário atual. Mas, como modificar comportamentos antigos? É um desafio e tanto. Só nos resta tempo, contudo, esperar pelo amanhã.

Uma última analogia ao filme de “Steven Zaillian”. Não deveríamos ter semelhança de Hittler e sim do empresário Oskar Schindler. Afinal, “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro.”

Deixaremos de ser líquidos, como estávamos nos tornando, e reaprenderemos a valorizar beijos, abraços e apertos de mãos? Os sons das sirenes de ambulâncias e carros funerários serão substituídos pela melodia da natureza, agora melhor observada? Tomara.

Assim como no fim de guerras, a experiência adquirida e o arsenal usado nos deixarão mais fortes no futuro. Isso é inexorável. O cenário serve para nos mostrar, mais uma vez, que não somos donos de nenhuma verdade.

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Autor
David Batista

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