Uma história de médico

Tendo um irmão, um filho, dois sobrinhos e vários amigos médicos, é natural que eu já tenha ouvido diversas histórias ligadas ao exercício da profissão. Algumas cômicas, outras, trágicas, como, de resto, acontece em todas as facetas da vida, se me permitem essa reflexão muito pouco original. Ponto de consenso no assunto é o absoluto descaso com a saúde pública, problema que vem de tempos imemoriais. Se o SUS é uma tentativa de socialização, está muito longe de atingir um grau pelo menos tolerável de eficiência. Na verdade, nem sei porque toco nisso. Falta-me talento. Seria necessário possuir uma pena de ouro para descrever as agruras do infeliz que necessita de atendimento na rede pública. E o resultado ombrearia com as mais impactantes tragédias gregas, passando por alguns episódios do inferno dantesco.

Mas não foi nenhum médico que me contou a história objeto deste texto. Se não me trai a já desgastada memória, eu a ouvi originalmente de Arlindo Porto. Esse mesmo Arlindo Augusto dos Santos Porto, glória do jornalismo amazonense e político de honestidade a toda prova, como hoje raramente se vê. Conta o drama vivido pelo doutor Rosivaldo, obstetra que por aqui labutava. Era homem na casa dos trinta, oriundo do que os sociólogos chamam de classe média baixa e que, num esforço sobre-humano, logrou concluir a faculdade respectiva.

Pois muito que bem. Num belo dia, a tarde começava a cair, foi o doutor Rosivaldo chamado à sala da direção do hospital onde prestava serviços. Lá encontrou quatro colegas seus que, sisudos todos eles, o receberam com ares de poucos amigos. Convidaram-no a sentar e o chefe maior assim se expressou: “Doutor Rosivaldo, lamento informá-lo de que esta diretoria resolveu que o senhor não pode continuar a trabalhar aqui. O senhor ofendeu a Irmã Rita e isso é imperdoável”,

Tomado de espanto, o nosso bom doutor, já imaginando o que aquilo representaria no seu orçamento, pediu humildemente que lhe permitissem explicar o imbróglio. Trocados os devidos olhares, foi concedida permissão para a defesa. Mas, antes de ouvirmos como se houve o acusado, é indispensável que demos uma pincelada sobre quem era a Irmã Rita, pivô do episódio.

Era uma freira beirando os oitenta anos de idade. Jovem ainda concluíra seus estudos de enfermagem e, desde então, se dedicou a esse mister, trabalhando sempre no mesmo hospital. Todos gostavam dela. Era eficiente, afável e prestativa. Os mais irônicos diziam que ela já se encontrava arrolada no inventário de móveis e utensílios do nosocômio. Além de querida, era respeitada, não só pelas qualidades enunciadas, mas também pela idade provecta, o que, já se vê, tudo contribuiu para a drástica decisão dos diretores, zelosos do bom nome de seu estabelecimento.

Isto posto, vejamos como se saiu o nosso “indiciado”. Por esta forma, ele se manifestou: “Sabem os senhores que eu, como a maioria dos colegas, não trabalho apenas neste hospital. No dia dos fatos em questão, tinha eu que entrar de serviço aqui às oito da manhã. Saí de um outro plantão às cinco da madrugada e fui até minha casa, tomar um banho e trocar de roupa. Em lá chegando, encontrei sobre a mesa um bilhete da minha mulher, informando que estava indo embora. Foi um choque. Ela não era lá essas coisas, tanto que vivia cantando “eu não presto, mas eu te amo”, porém, de qualquer forma estávamos juntos há tempo suficiente para eu sentir o impacto”.

E prosseguiu: “Fui em frente. Cheguei à rua e não encontrei o meu carro. Um popular me informou que havia sido guinchado, pois, na pressa, eu estacionara em local proibido. Consegui um táxi; um fusca 62, em que o assento do passageiro exibia simpáticos segmentos de molas. Enfrentamos um engarrafamento de mais de uma hora e quando, por fim, conseguimos chegar o destino, o motorista não tinha troco. Com muito custo e depois de algumas xingações, o problema foi resolvido”.

“Entrei, afinal, no meu consultório – seguiu no relato. O aparelho de ar refrigerado não funcionou e tive que atender a três pacientes no calor que todos conhecemos. Desci, então, ao fito de me preparar para uma cesariana marcada para as treze. Fiz todo o processo de assepsia, calcei a primeira luva e, ao enfiar a segunda, ela estava furada. Foi nesse momento, que a Irmã Rita enfiou seu simpático rosto pela porta e me disse: “Doutor, sua paciente do 413 morreu. O que eu faço com este supositório que o senhor tinha receitado para ela?”

Os diretores absolveram o doutor Rosivaldo, considerando que a resposta dada por ele se enquadrava na hipótese de inexigibilidade de conduta diversa. Quanto à Irmã Rita, faleceu uns dez anos depois. Conta-se, em louvor de suas virtudes, que, tão logo expirou, sua alma partiu com impressionante velocidade para as paragens celestiais, a ponto de obrigar São Pedro a uma piedosa advertência: “Irmãzinha, diga ao menos “merda”, se não a senhora entre em órbita”.

Felix Valois

Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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