A Copa do voto é aqui

Mais uma bola fora. O selecionado brasileiro volta para casa mais cedo da Copa do Mundo, na Rússia, com os mesmos desacertos e frustrações na bagagem, já experimentados em copas passadas. Logo, vê-se que os mandatários do futebol canarinho não aprenderam com as frequentes noções de excessiva resistência às mudanças, erros evidentes e teimosias impagáveis, onde os personagens olimpianos se sobrepuseram ao decadente futebol apresentado. Pelo menos, a eliminação nos poupa de excessos de bêbados que, atrás de um volante, insistem em não ter limites para comemorar.

Ou seja, entre a exposição aos holofotes mundiais e fazer a bola rolar com verdadeira maestria, nossa seleção, com raras exceções, preferiu o título midiático. Não, não vamos culpá-los por mais esse fracasso, são apenas peças de um país socialmente incapaz de ter dado a muitos atletas a oportunidade de fazê-los homens, antes de serem jogadores profissionais. Vários deles são oriundos de espaços completamente desprovidas da presença do Estado, e que viram no futebol uma porta para superar as agruras da vida, sem se importarem com a construção do ser orgânico.

Acabou, estão sepultando, ano após ano, aquele futebol valente, aguerrido, onde era explícito o “amor à pátria” e dava gosto assistir. Cada vez mais os jogadores são protagonistas nas praças e pauta nos noticiários esportivos, coisa que não se via na construção do apogeu do futebol brasileiro, onde era fácil encontrar exemplos de jogadores investidos de um papel instintivamente pragmático na tentativa de promover a alegria coletiva.

A mídia e o mercado da bola são responsáveis por produzir verdadeiros astros que logo se acostumam com fabulosas somas em dinheiro, grandiosas festas, e concentração recheada de oba oba, redes sociais e um outro tanto de agentes supérfluos para o seu satisfatório desempenho dentro de campo. Hoje jogam e se apresentam diante de um roteiro previamente estabelecido: se der pra ganhar, tudo bem, se não der, paciência. “É pouco, é falta de compromisso com a pátria”, brada um torcedor frustrado com a última derrota, sem se dar conta que os países europeus aproveitam muito bem o intercâmbio através dos jogadores brasileiros, enquanto estamos fazendo o papel inverso. Estamos abandonando o nosso futebol “raiz” para imitar os gringos.

Que aprendamos com os erros, nos mais amplos sentidos. Na Copa e no Voto há mais do que um simples compromisso de agenda. Enquanto um evento pode ser utilizado para tirar o foco do outro, milhões de pessoas dependem direta e indiretamente dos rumos apresentados antes, durante e depois de um certame. Tanto num quanto no outro, vale a pena pesquisar de quem se trata, qual a sua origem, qual sua capacidade de promover resultados coletivos para, finalmente, fazer sua escalação de uma equipe onde não haja estrelismo, onde um jogue em parceria com o outro e todos joguem pela equipe.

Estamos à porta de outra competição, doméstica dessa vez, mas imensamente importante para a nação brasileira. Vamos escolher quem vai nos representar politicamente nas tratativas que envolvem os destinos de nosso estado e de nosso país. Vamos levar em conta os milhares de moleques que jogam futebol numa rua de barro, limitada por monturos de lixo e um fétido igarapé passando atrás da escola. É hora de pensar no Brasil.

 

*Auditor fiscal e professor.

 

 

Augusto Bernardo Cecílio

Augusto Bernardo Cecílio

* Auditor fiscal da Sefaz, coordena o Programa de Educação Fiscal no Amazonas.

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