21/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Diálogo moderno

Publicado em 20 de abril, 2018

– Seu nome, por favor.

– Eleutério dos Anzóis Pereira Lula.

– Nomes dos seus pais.

– Pascácio dos Anzóis Pereira Bolsonaro e Fredegunda dos Anzóis Pereira Marina.

– Desculpe, mas por que essa diferença entre nomes dentro de uma só família?

– O senhor sabe como é. Os doutores agora disseram que a gente pode homenagear os nossos heróis de uma nova maneira. Vai daí que eu estou até hoje chorando por causa da prisão do meu ídolo e resolvi acrescentar o nome dele ao meu, como forma de provar que eu acredito piamente na sua inocência. Meu pai é um brutamontes reconhecido. Para o senhor ter uma ideia, só nessa tal de lei Maria da Penha ele já tem uns três processos. Quem é que o senhor queria que ele homenageasse? Minha mãe, coitada, é uma lambisgoia subnutrida e acho que dá para o senhor entender o sentido da escolha.

– Muito bem. Filhos? O senhor tem e de que idade?

– Dois. Um menino, de doze, e uma menina, de treze.

– Essas crianças estudam?

– Olhe, eles estão matriculados na escola, mas desde que souberam que o Ministério da Educação proibiu que os alunos sejam reprovados, a coisa desandou. O curumim se benze quando vê um livro, não quer saber de ler de jeito nenhum. Quando eu pergunto o que ele pretende ser na vida, a resposta vem na maior cara de pau: presidente da República. Diz que, se não der, ele se contenta com o Senado. A cunhatã até que é melhorzinha, apesar de não largar o celular, mexendo nesse tal de zapzap e ouvindo dupla sertaneja. Mas é caprichosa a bichinha. Ela ouviu a dona Dilma dizer que se a gente conseguir estocar vento, o futuro do Brasil está garantido. Pois olhe só: essa menina recolheu tudo quanto foi caixa de sapato da vizinhança. Fechou cada uma muito bem fechada e em cada uma fez um furinho. Ela liga o ventilador e, depois de colocar o furo bem na frente, ela veda o buraco e vai depositar a caixa num canto da casa que ela chama “vento para o bem do Brasil”. Dá gosto de ver.

– Vamos em frente. Profissão?

– Usuário do programa Bolsa Família.

– Como o senhor não exerce nenhum ofício?

– Eu até que sou bom no que sei fazer. Acontece, meu senhor, que toda vez que eu procuro exercer essas habilidades, querem assinar essa tal de carteira do trabalho. Ora, o senhor me entende. Se assinarem minha carteira, eu perco o direito de receber esse dinheiro fácil da bolsa e eu posso ser tudo, menos leso. Onde já se viu? Deixar de ganhar sem trabalhar, só pela vaidade de exibir uma carteira assinada. Grande coisa. Mas eu faço minhas virações e com isso vou levando a vida.

– E quanto ao patrimônio? O senhor possui casa própria?

– Sim, senhor. Ela fica na etapa quarenta e cinco do programa Minha Casa, Minha Vida e eu tirei essa casa já faz uns dois anos.

– Quanto pessoas residem nesse imóvel?

– Como é que eu vou saber, meu senhor? Eu não moro lá, não.

– Mas como isso é possível? Se o senhor recebeu a casa do programa é porque não tem outro imóvel e há de precisar dela para residir.

– É bem capaz. Já lhe disse que não sou abestado. Eu alugo a casa e vou dar meu jeito numa invasão. Aqui é a sopa no mel. Eu demarco meu lote, monto lá um barraco de tábua, zinco e papelão. Depois que está tudo normal, já passaram o asfalto, com água e luz ligadas, eu passo adiante aquela propriedade e vou navegar em outras águas, porque, o senhor sabe, invasão é como coceira em macaco: não acaba nem fica pouca.

– Outro aspecto: o senhor tem plano de saúde?

– Não sei para que? O senhor já viu que quando alguém está doente de verdade e vai atrás do plano, obtém sempre a mesma desculpa: essa doença não está dentro da cobertura. Ora, para ser enganado assim, eu prefiro ficar com o SUS que é a mesma porcaria, mas, pelo menos, é de graça. Aliás, deixe eu lhe perguntar uma coisa: o senhor já percebeu que, agora, tudo quanto é doença passou a se chamar “virose”? Outro dia eu estava com uma febre desgraçada, uma tosse de tuberculoso e uma canseira dos infernos. Fui ao Pronto Socorro e o diagnóstico veio na hora: é virose. E a receita: calma, caldo de galinha e vitamina C.

– Estamos chegando ao fim. Com que importância o senhor pretende abrir sua conta neste banco?

– Duzentos mil reais.

– O quê? O senhor me desculpe, mas com esse histórico que o senhor relatou, onde é que foi possível encontrar essa verdadeira fortuna?

– Eu apliquei em bit coin. Além disso (o senhor não está gravando esta conversa, não?), durante algum tempo eu fui diretor da Petrobrás e de alguns fundos de pensão.

Pano rápido.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.