Sexta-feira, 20 de julho de 2018

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Saiba como identificar o Transtorno Bipolar e como tratá-lo

O transtorno bipolar é caracterizado por alterações marcantes do humor, energia e níveis de atividade que afetam a habilidade da pessoa de lidar com as tarefas do dia a dia. Todo mundo pode sentir mudanças de humor, mas elas não são duradouras e nem associadas a mudanças do nível de energia ou do comportamento.

Para esclarecer mais sobre o assunto, confira a entrevista sobre o transtorno bipolar com a psiquiatra Doris Moreno, do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

O que é o transtorno bipolar?

Doris Moreno: O transtorno bipolar (TB) é uma doença do cérebro, geneticamente determinada, que se inicia na infância/adolescência ou no adulto jovem e evolui em crises de depressão, ansiedade/mistas e de hipo/mania (expansividade/irritabilidade e aumento de energia) ao longo da vida.

 

Como posso identificar o transtorno bipolar?

DM: O transtorno bipolar é identificado pelas fases de hipomania e de mania. A mania é caracterizada por irritabilidade/agressividade/pavio-curto, expansividade do humor e aumento da energia. Estes pacientes chamam a atenção porque interagem muito mais e com impaciência e pressa. Existe uma sensação de aceleração de pensamentos e a pessoa pode ficar mais falante (pessoalmente, ao celular, no Facebook etc), dificuldade de concentração, e os pensamentos são enviesados para o positivo. Por exemplo, grandiosidade, megalomania, achar-se sempre na razão, melhor que os outros, ficar mais irônico, arrogante ou cínico. Como consequência a pessoa pode ter planos insensatos e grandiosos, muitas ideias e dar o passo maior que a perna nos negócios, nos esportes, no trabalho, na direção veicular arriscada etc. Os impulsos podem aumentar: mais uso de álcool/drogas, mais gastos/presentes e dívidas, maior libido – aumento da atividade sexual, das paixões, mais sedutor, consumo de pornografia etc, mais piercings/tatuagens e visual mais chamativo ou bizarro. Bastam 7 dias neste estado para se fazer o diagnóstico. A mania caracteriza como transtorno bipolar de tipo I, a forma clássica da doença. Uma característica grave é a perda da autocrítica e assim o paciente pode arruinar finanças, reputação, saúde, relacionamentos interpessoais, etc.

A hipomania é a mania leve, muito comum e pouco diagnosticada, que pode durar poucos dias, com os mesmos sintomas, mas sem a mesma gravidade. Ela traz consequências nos relacionamentos por causa da irritabilidade e impaciência com os outros, principalmente os mais próximos. O paciente se sente melhor que o habitual, ou os outros percebem que ela mudou. Em geral o paciente fica obstinado por alguma coisa: ele faz, pensa ou quer exageradamente ou obstinadamente alguma coisa e o foco da vida fica centrado nisso – em alguma pessoa, projeto, compra, viagem, programa etc. Pode até varar noites na atividade. No transtorno bipolar de tipo II o paciente nunca teve mania, somente crises de hipomania de pelo menos 4 dias de duração durante a vida.

Em ambos os casos (mania e hipomania), há episódios de depressão, mas isso também acontece nas pessoas que não são bipolares. Existe a depressão unipolar e a bipolar, que faz parte das crises do transtorno bipolar. Na depressão aparecem humor deprimido ou perda de interesse, perda da capacidade de sentir prazer nas coisas da vida, dificuldade de raciocínio, cansaço, apatia, falta de energia/ânimo, negativismo e pessimismo, entre outros pensamentos negativos, inclusive de desesperança e morte em casos mais graves.

A insônia é frequente na depressão e na mania a necessidade de dormir diminui. O TB é a doença de maior risco de suicídio e está associada a taxas maiores de doenças cardiovasculares e enxaquecas.

 

 

Pessoas tendo episódios de mania podem:

Sentir muito “para cima”, “alto” ou exultante; Ter muita energia

Aumentar os níveis de atividade; Sentir-se “nervoso” ou “tenso”

Ter problemas para dormir; Tornar-se mais ativo do que o normal; Falar muito rápido de coisas diferentes; Sentir-se agitado, irritado ou “sensível”; Sentir-se como se seus pensamentos estivessem indo muito rápido; Pensar que eles podem fazer um monte de coisas ao mesmo tempo;

Fazer coisas arriscadas, como gastar muito dinheiro ou ter sexo imprudente.

 

Pessoas tendo episódio depressivo podem:

Sentir-se muito triste, deprimido, vazio ou sem esperança; Ter pouquíssima energia; Diminuiu os níveis de atividade; Tem problemas para dormir, eles podem dormir muito pouco ou muito;

Sentir como se não pudessem desfrutar de nada; Sentir-se preocupado e vazio; Ter dificuldade para se concentrar;

Esquecer as coisas; Comer muito ou pouco; Sentir-se cansado ou “desacelerado”; Pensar em morte ou suicídio

 

Qual a importância do apoio familiar no transtorno bipolar?

DM: A família é quem costuma alertar o paciente de que não está bem e precisa buscar auxílio, principalmente se a depressão for grave. Na mania, às vezes, o paciente não aceita que precisa de tratamento e também é a família que precisa intervir.
É a família que auxilia na correta tomada da medicação, apoia o paciente durante as crises e leva ao médico. Quando melhora, continua ajudando no cuidado do dia a dia. Por outro lado, a família e o paciente necessitam de apoio e psicoeducação para entender o transtorno bipolar e conseguir atenuar as novas crises, inclusive preveni-las cada vez melhor.

 

Qual o tratamento disponível no SUS e como conseguir os medicamentos?

DM: O tratamento é com medicamentos estabilizadores do humor, que se obtém nos postos de saúde – lítio, ácido valproico e carbamazepina, e outros utilizados em casos de não resposta, que fazem parte da lista de alto custo do SUS: olanzapina, quetiapina, risperidona, lamotrigina.

 

O que fazer em caso de uma crise? Como agir para ajudar outra pessoa em caso de crise?

DM: É preciso levar ao médico para tratamento medicamentoso. Em casos de depressão grave com risco de vida, deve-se levar ao pronto socorro. Na mania e na hipomania é preciso convencer o paciente a tomar remédios. Se ele se recusar e correr riscos pessoais, ele precisa da proteção de uma internação, como se indica em quaisquer quadros médicos graves. Infelizmente, com frequência não há acesso a tratamento adequado, por falta de vagas e de acesso a médicos e medicamentos.

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