Sexta-feira, 22 de junho de 2018

Professora Ylsa Honório

Felix Valois

Felix Valois

A professora Ylsa Vieira Honório foi um ícone do ensino fundamental, que deixou marca indelével em sucessivas gerações de amazonenses. Faleceu na última sexta-feira, aos noventa e nove anos, e se, no plano geral, o fato causou inegável consternação, no âmbito familiar o impacto foi formidável. É que, sendo este modesto escriba casado com sua filha única, somos, minha companheira e eu, responsáveis pelos quatro netos e os oito bisnetos que lhe fizeram as alegrias da velhice. E que por ela tinham aquele venerando respeito que só a idade avançada sabe conquistar e impor, sutil e inapelavelmente. A partida da velhinha, portanto, só podia mesmo deixar saudades e lágrimas, que foram derramadas por olhos sinceros e enternecidos.

Era uma professora da velha guarda. “Menino vai à aula para aprender”, parece ter sido a máxima que orientava superiormente sua atividade no magistério. Seguiam-se-lhe os corolários, entre os quais avulta a obrigação do mestre de usar de todos os recursos para corrigir as condutas desviantes dos moleques que, por preguiça ou malandragem, se mostrem infensos aos ensinamentos. E vinha a palmatória como instrumento importante nesse processo corretivo, numa época em que não se ouvia falar nessa frescura de “bullying”, mas, em compensação, nenhum aluno ia armado para a escola nem dava soco na cara do professor.

Velhos tempos. Acho que não exageraria, nem resvalaria para o sentimentalismo, se disse também “bons tempos”. A escola pública era padrão e o ensino particular mera possibilidade para os que, dispondo de meios, se podiam dar a esse luxo. Os “grupos escolares” funcionavam a contento e, com eficiência, preparavam a criança para enfrentar o estágio seguinte, naquela época conhecido como “ginasial”. Foi nesses grupos, todos eles integrantes da rede pública, que dona Ylsa exerceu suas atividades, chegando a dirigir pelo menos dois deles, o “Euclides da Cunha” e o “Princesa Isabel”. Aposentada, não conseguiu fugir ao chamado irresistível da vocação e persistiu no magistério, montando escolinha no quintal de sua própria residência, aonde mães, já então angustiadas com a decadência do ensino público, levavam suas crias na busca de suprir as manifestas deficiências.

Era ela, a minha sogra, de uma família de professoras. Quando morreu sua irmã, dona Maria Lúcia Vieira da Rocha, há seis anos, escrevi o seguinte: “Como suas irmãs Ylsa, Ana Rosa, Alda, Nilda e Dalva, atuou numa época em que o ensino público era respeitado e buscado principalmente pela excelência das aulas ministradas. Ensinava-se com amor e dedicação e as crianças encontravam um ambiente escolar acolhedor, onde, entre outras coisas, aprendia-se a cantar o Hino Nacional, hoje relegado a segundo plano, talvez em favor das melodias harmoniosas entoadas pelas duplas sertanejas.

Da minha parte, não tive o privilégio de ser aluno de nenhuma delas. Conheço-lhes, entretanto, a reputação e posso ter como parâmetro o próprio Grupo Escolar “Princesa Isabel”, onde fiz o curso àquela época chamado de primário. Lá, dona Olga Rocha e dona Neusa Lemos eram da mesma cepa. Conseguiam nos desemburrar sem alarde, sem violência e sem sofisticação. As sabatinas, é claro, tinham o ingrediente da régua com que o autor da resposta correta mimoseava as mãos dos que tinham negligenciado o estudo. “Quem descobriu a América?” – A pergunta era formulada ao primeiro à direita no semicírculo que se formava em frente ao estrado, de onde a professora comandava a tarefa. Sem resposta, a indagação ia sucessivamente adiante, até que um sabido mostrasse o mínimo do conhecimento necessário e, então, a régua era chamada à responsabilidade”.

Rendo, com isto, o último tributo a uma mulher que passou pela vida com a sublime missão de permitir que crianças brasileiras pudessem ter acesso ao conhecimento. Isso seria suficiente para lhe enaltecer a grande figura. Mas acho que nenhum epitáfio lhe poderá fazer maior justiça do que aquele que traçou sua bisneta, a Heleninha, na doce inocência de seus quatro anos. Disse-me ela: “Vovô, eu estou muito triste porque a bisa morreu”. Estamos todos.

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída pelo Senado Federal para elaborar a proposta de reforma do Código de Processo Penal.

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