Quarta-feira, 18 de julho de 2018

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Mr. Catra alega, em depoimento, que não conhece facção criminosa FDN. Ele fez vídeo exaltando “traficas” e PCC chegou a ameaçar cantor

Acusado de fazer apologia ao crime e à terceira maior facção criminosa do País, a Família do Norte, em funk gravado e publicado no YouTube, Mr. Catra prestou depoimento hoje em Manaus e alegou não conhecer FDN. Foto: Reprodução

Com shows cancelados por fazer apologia ao crime, ao uso e tráfico de drogas, prostituição infantil e incentivar a violência, o cantor carioca Mr. Catra, 48, nome de nascimento Wagner Domingues Costa, prestou depoimento nesta segunda-feira (23), em Manaus, sobre o procedimento policial instaurado após gravar um funk exaltando a terceira maior facção criminosa do País, a Família do Norte.

O funk foi gravado e postado no YouTube, colocando o cantor sob investigação do Departamento de Repreensão ao Crime Organizado (DRCO) da Polícia Civil do Amazonas. Hoje, os delegados Guilherme Torres e Paulo Benelli, diretor e diretor-adjunto, respectivamente, do DRCO, ouviram Mr. Catra.

Ele foi ouvido na base da Delegacia Especializada em Crimes contra o Turista (DECCT), situada nas dependências do aeroporto internacional Eduardo Gomes, no bairro Tarumã, zona Oeste, logo após desembarcar em Manaus, onde fará uma apresentação nesta noite.

Segundo Guilherme Torres, Catra disse em depoimento que fez o funk a pedido de fãs e que ele não conhece a facção criminosa, as pessoas citadas e nem o bairro mencionado na música. O cantor alegou que ele não tinha ciência de que a letra seria tratada como apologia à facção criminosa, apesar de fazer menção a traficantes (“trafica”).

Funk de improviso

O artista alegou, ainda, que no dia em que o vídeo foi gravado alguns fãs entregaram um papel para fazer um funk de improviso. O vídeo foi gravado em um aparelho celular e acabou viralizando nas redes sociais, repercutindo tanto em Manaus quanto em outras cidades do País, especialmente no Rio de Janeiro.

E é no Rio que fica o centro do Comando Vermelho, facção aliada à FDN. Ambas são rivais da paulista Primeiro Comando da Capital (PCC).

Os delegados receberam a informação de que o cantor estaria hoje na cidade para um show e foram até o aeroporto aguardar sua chegada.

“Após o desembarque, efetuamos a notificação e o convidamos para prestar esclarecimentos na base da DECCT. Ele afirmou que não sabia que se tratava de uma organização criminosa, mesmo a letra enaltecendo a facção e incentivando o relacionamento de mulheres com membros da organização”, contou Torres.

No depoimento, o cantor argumentou que apenas fez rimas de acordo com os papeis que passavam pra ele, com nomes anotados. O delegado Paulo Benelli destacou que os procedimentos em torno do caso serão remetidos à Justiça, que irá avaliar a conduta do artista.

FDN

Apontada como a terceira maior facção do país, atrás apenas do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho, a Família do Norte está envolvida na maior chacina do Amazonas e uma das maiores do Brasil, onde foram mortos 56 detentos do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), no primeiro dia do ano.

Os mortos eram ligados à facção paulista PCC e foram assassinados com requintes de crueldade. Muitos foram degolados no massacre. A FDN é aliada do CV, e atua no tráfico de drogas doméstico e internacional, em especial de cocaína, por meio da rota do rio Solimões, responsável por escoar droga produzida no Peru e Colômbia.

A facção amazonense foi alvo da operação La Muralla da Polícia Federal em 2015, e seus principais líderes, como o narcotraficante João Pinto Carioca, o “João Branco”, estão atrás das grades, em presídios federais.

Primeiro Comando

Em junho, o PCC teria emitido comunicado ameaçando retaliar qualquer casa noturna ou empresa que contratasse Catra em São Paulo, em razão da homenagem à facção rival. Ele foi ameaçado de morte e gravou um vídeo se retratando. O vídeo de um canal de uma comunidade da favela, com o aviso do PCC, tem mais de 1 milhão de visualizações.

O artista disse, na época, que apenas mandou um “alô” para os “trafica da Compensa”, durante evento comandado por um deles, do qual participou, e falou que pede “liberdade pra todo mundo mesmo, porque a gente vive numa sociedade injusta”.

O vídeo

No vídeo, disponível no YouTube, Catra exalta traficantes da Compensa, um dos bairros de Manaus com intensa ligação com o tráfico de drogas. No início da música, o funkeiro cita nomes de “Ronny” e “Coquinho”, presos pela polícia amazonense com armas, que são acusados de serem pistoleiros da FDN.

Em um trecho do funk, o carioca incentiva meninas a se relacionarem com traficantes da Família do Norte: “Gatinha, se tu tem sorte, vai ganhar moral com a Família do Norte. Ela é responsa. Ela é presença. Senta devagar com os ‘trafica’ da Compensa (sic)”.

Ainda no vídeo, Catra avisa “Isso é Compensa, malandro, tu não se mete” e cita os apelidos dos traficantes, segundo a polícia.

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