
Estudante confere de perto a curiosidade da geladeira que virou biblioteca e foi parar na calçada. Fotos: Islânia Lima/ Free lancer
Islânia Lima – Especial para o pms.am
Criatividade, cultura, desprendimento e desafio à honestidade coletiva estão presentes, em plena avenida Rodrigo Otávio, nas proximidades do Campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), dentro de uma geladeira. Isso mesmo. O eletrodoméstico armazena livros de autores como Machado de Assis e foi rebatizado como “Gelateca”, termo que resulta da inusitada mistura geladeira-biblioteca.
Quem caminha pelo calçadão da Rodrigo Otávio encontra a geladeira, com pinturas nas portas e o convite: “Pegue, leia e devolva – Do Gelateca”. A reportagem procurou os autores da ideia, mas ninguém soube dizer quem a teve. Professor da Ufam? Pesquisador do Inpa? Aluno? Empresário? Ou simplesmente um amante da cultura? Ela está localizada ao lado de uma das principais paradas que dão acesso à Ufam, Distrito Industrial e outros bairros da zona Centro-Sul da cidade.
O leitor encontra, além dos clássicos da literatura, livros didáticos e até gibis. É para encher a imaginação de quem passa rumo à parada de ônibus e pode preencher a espera com boa leitura.
O estudante João de Barros, 19, recém-chegado à Ufam, conta que quando viu a Gelateca achou que fosse apenas um eletrodoméstico abandonado. “Me surpreendi com os dizeres na porta e por curiosidade fui abrir. Achei alguns livros bons e a atitude generosa”, destaca. “Vai ajudar muitos que passam horas na parada, sem que precisem mexer no celular e atrair os assaltantes”, lembra.
Sem roubo, sem vandalismo
Para a também estudante Naiara Figueiredo, 22, a iniciativa é plausível, porém falta conscientização por parte da população em usar e devolver os livros ao eletrodoméstico, para que outras pessoas tenham a mesma oportunidade de leitura.
A estudante acredita que a leitura deve ser compartilhada, com mais doações de livros. “Espero que ninguém cometa vandalismo, já que a geladeira ficará na calçada. Não sei quem teve a ideia, mas com certeza deve ter dado trabalho. Que todos possam valorizar a iniciativa”, destacou.

A geladeira na calçada espera por leitores, doações e devoluções
Antecedentes
Estudantes são unânimes em afirmar que a ideia pode também ser realizada em outras paradas de transporte público e logradouros da capital. Na parada localizada na avenida Mário Ypiranga, antiga Recife, no bairro Adrianópolis, existia um cantinho da leitura, mas ele foi extinto há pouco mais de um ano.
Lá era possível encontrar, em uma pequena estante, livros dos mais diversos autores. O projeto sumiu, porém, sem qualquer explicação.
A ideia também já foi executada em paradas de ônibus do Centro de Manaus. Foram colocadas estantes de plástico, com livros expostos como sapatos, pendurados, para que leitores daquela área pudessem parar um pouco a correria diária e dedicar um tempinho à leitura.
A iniciativa de leitura ao ar livre, com doação de livros, é uma forma colaborativa de ensinar ao próximo e explorar um mundo que está além da tecnologia dos celulares, tabletes e notebooks. É dividir cultura. E vem a calhar para aqueles que colecionaram livros ao longo da vida e hoje estão cada vez mais apertados no espaço da biblioteca pessoal. Ou são como o falecido professor Narciso Lobo, decano do curso de Comunicação da Ufam, que jamais teve biblioteca: lia e repassava os livros, com um pequeno texto de recomendação, aos alunos e amigos.
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