20/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Acadêmico Aristóteles Alencar

Publicado em 21 de abril, 2017

Felix Valois

Era eu adolescente, mas o meu pai me levou umas duas vezes para assistir a sessões da Academia Amazonense de Letras, da qual ele fazia parte. Impressionava-me o lugar, talvez pela austeridade do ambiente, em nada compatível com a mente juvenil, mais voltada para o trivial. Eram longos os discursos e deles era-me impossível entender qualquer coisa. No fundo, porém, gostava de ver aqueles homens (mulher, nessa época, nem pensar) sérios, sentados em poltronas de alto espaldar, com uma solenidade que, algo me dizia, só podia ser produto de verdadeira convicção na realidade do que faziam. O engraçado é que, mesmo para o jovem que eu era, dava para perceber a ausência de ostentação. Nenhum luxo. Só a circunspecção.

Nesta semana, recebi convite para assistir à solenidade de posse do doutor Aristóteles Comte de Alencar Filho, como titular da cadeira número 39, da qual é patrono Alfredo da Mata. Não fui. O novo acadêmico, mais do que ninguém e generoso como sempre, há de aceitar minhas escusas, compreendendo o problema. É que, sendo meu cardiologista e já me tendo conferido inúmeros ralhos pela minha recalcitrância na dependência do tabaco, o doutor Aristóteles pode perfeitamente entender o suplício inquisitorial em que se transforma a permanência prolongada em um ambiente absolutamente vedado aos fumantes. Torquemada não imaginaria melhor diversão.

A minha ausência, contudo, não significa que não me tenha eu rejubilado pelo acontecimento. Sendo certo que o conceito de uma entidade é assim como a soma das qualidades dos que a integram, a Academia cresceu com a posse do novo imortal. Fui aluno de seu pai na velha escola Sólon de Lucena. Era a imagem perfeita da competência e da fidalguia. Incapaz de uma indelicadeza, foi eficiente a ponto de me fazer entender (logo eu, que nunca tive pendores para isso) os meandros e as dificuldades da matemática comercial. Acho, por isso, inteiramente apropriado que, como regozijo pelo recente acontecimento, transcreva eu aqui, o belíssimo texto em que o novel acadêmico reporta a morte de seu ilustre genitor. É uma lição de sensibilidade e sabedoria. Ei-la:

“Papai não foi meu paciente e nem poderia ter sido. Torna-se impossível consultar uma pessoa tão importante em sua vida. É como se você estivesse trabalhando em você mesmo. Por condescendência, não se aceita o ruim. Sendo assim, melhor que outro colega o cuidasse.

Pessoa de extrema importância em minha vida, em quem sempre procurei me espelhar, com muito esforço chegando a ser apenas um pálido reflexo. Personalidade marcante e despojado das vaidades humanas. Intelectual por opção e inadaptado ao seu tempo. Apaixonado pela Matemática, ciência que o acompanhou até a última noite de sua existência. Morreu em uma madrugada de sábado para domingo, deixando a mesa cheia de livros, apontamentos e exercícios para uma aluna na segunda-feira.

A morte do Papai foi equivalente um choque de alta-voltagem para todos nós. Restou uma sensação de vazio não preenchido até hoje. No ideário infantil, o Pai é um ser imortal. Refiro-me, aqui, ao verdadeiro Pai. Temos a pretensão de vê-lo muito idoso e partir como um pequeno pássaro, rodeado de todos os filhos e netos, conseguindo, com a morte, o descanso eterno. A despedida abrupta complica a situação de quem fica.                  Vítima de infarto fulminante do miocárdio, Papai morreu, por ironia do destino, em minhas mãos. Inúmeras vezes, já havia me deparado com situações idênticas. Aquela seria apenas mais uma e pelo fato de ser meu pai, seria mais fácil ainda. Iria dar tudo certo. Comecei a pensar diferente no instante em que cheguei em sua casa do sítio, tão querido por ele: a visão de sua morte iminente encheu-me de pavor. Naquele momento, estava sendo submetido à mais terrível prova de minha vida. Superei o pânico e iniciei as manobras básicas de reanimação cardiopulmonar….

Continuei administrando choques e nada acontecia. A linha brilhante do monitor continuava indiferente… Era, enfim, o registro da morte, o mesmo que já havia visto outras vezes. Lá fora, minha Mãe e minhas irmãs aguardavam uma resposta. Aceitei, involuntariamente, o veredicto e comecei a pensar como iria transmitir a péssima notícia. Sensação desesperadora que não desejo a ninguém. Morri um pouco nessa madrugada”.

Já se vê que a Academia Amazonense de Letras fez apenas justiça ao conferir o galardão a tão insigne conterrâneo. Parabéns.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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