20/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Os filhos do Jaburu

Publicado em 11 de dezembro, 2016

Enquanto o mundo inteiro chora a tragédia da Chapecoense, a perda de dezenas de vidas, motivadas pela ganância e irresponsabilidade, o ex-ministro Geddel Viera Lima, o “suíno” como era tratado, chora a perda de mais de R$ 30 mil reais que ganhava na Casa Civil, e a perda do “Minha Casa, Minha Vista”, ao custo de R$ 2,4 mi, na capital soteropolitana, numa região tombada pelo Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional.

Aproveitando o momento de comoção popular, os membros da República do Jaburu – palácio que leva este nome e onde residia, até pouco tempo, o vice-presidente Temer – colocaram em prática uma verdadeira insurgência contra os reais interesses do povo brasileiro. É de se lamentar a qualidade desse Congresso, com raras exceções. Estamos presenciando muito oportunismo e grande vontade de empurrar coisa ruim goela abaixo do brasileiro.

Enquanto o juiz Sérgio Moro comandava a Lava Jato, os filhotes de jaburu foram ganhando força, se amontoando até darem o bote fatal para, finalmente, trocarem de palácio e, ao mesmo tempo a caixa de pandora vai deixando sair toda a sua podridão.

Em seis meses de mandato, seis ministros caíram, a economia não decola e os principais aliados ou estão caindo em desgraça ou se queimando por besteira. Renan, por exemplo, caiu, foi repescado pelo STF contra o desejo dos milhares de brasileiros que participaram das últimas manifestações, e espera pelo pior. Eliseu Padilha e seus sócios no desmatamento tiveram R$ 108 milhões bloqueados pela Justiça de Mato Grosso. Restam outros aprendizes de feiticeiros, que adoram aprovar projetos impopulares em plena madrugada para fugir da população e da imprensa. Rodrigo Maia, um deles, só pensa em permanecer no comando da Câmara, fazendo tudo o que o seu mestre mandar.

Geddel, aposentado aos 51 anos de idade – e que hoje quer que o(a) trabalhador(a) se aposente com 65 anos – sempre gozou de facilidades amealhadas em gabinetes do poder. Por conta da denúncia de Calero, que sofria pressão pela liberação da obra, Geddel ainda tentou abafar, recebendo apoio de um monte de deputados e senadores. Acabou caindo.

O chato é que não sabemos mais em quem confiar. O dito governo da redenção hoje está rodeado de muitas pessoas investigadas. De acordo com o jornalista Elio Gaspari, Geddel é o déficit de verdade de Temer, já que o atual presidente acusava Dilma de praticar uma administração com déficit de verdade, mas deveria olhar para seu próprio governo. Na verdade de Geddel está a afortunada transação de um apartamento no 23º andar de um empreendimento que só tem autorização para subir até o 13º piso, além de receber além do teto constitucional.

É revoltante verificar que num dia muito triste para o Brasil foi traçado o plano para a votação, na calada da noite, das dez medidas de combate à corrupção de forma desfigurada. Isso sem falar na PEC dos gastos públicos, que anda a passos largos no Senado, e na tentativa de anistia ao crime de caixa dois, abortada por pressão da sociedade, tendo como “coadjuvantes” Temer, Renan e Maia, que certamente sabiam de tudo.

No meio desse fogo cruzado, nesse vergonhoso oportunismo, nesse emaranhado jogo de interesses, onde as demandas populares passam à margem, vem de uma escritora e jornalista paranaense, Marilena Wolf de Mello Braga, a melhor avaliação sobre os poucos que têm muito e os muitos que têm pouco, bem pouco: “Se fosse um time famoso não teria precisado economizar com uma empresa de um avião só. O combustível que faltou sobra no bolso dos times ricos. Até no esporte, o futebol que apaixona multidões, ser rico ou ser pobre é uma sentença. Somos o país do talento e do improviso. E das tragédias equivocadas”.

 

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Autor
Augusto Bernardo Cecílio

* Auditor fiscal da Sefaz, coordena o Programa de Educação Fiscal no Amazonas.

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