06/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Seis por meia dúzia

Publicado em 08 de setembro, 2016

Conversa mole para boi dormir. É nesse nefasto e contraproducente jogo de palavras, em meio ao novo jeito de dizer a mesma coisa, que estamos estacionando o Brasil e, por conseguinte, estagnando e destruindo tudo o que a sociedade exigiu ao tomar conta das ruas.

O povo ocupou as ruas, mas ainda não detém e muito longe está de deter as rédeas da democracia em nosso País. Jovens, idosos, crianças, trabalhadores, desempregados, intelectuais, populares, estudantes, o povo em geral atendeu ao apelo para dar início, no que poderia ser uma nova fase politico-administrativa, a partir de Brasília. Em todo território nacional grupos menores, médios e grandes, verdadeiras multidões mobilizaram-se para assumirem o papel de protagonista de um novo tempo, que se desenhava a partir da Operação Lava-Jato e seus inúmeros desdobramentos, com dezenas de indiciados e outra quantidade de presos.

Nunca, nunca antes na história do Brasil o povo havia presenciado e desejado uma ação tão robusta, tão invasiva e abrangente, como esta operação iniciada pelo Ministério Público Federal, no estado do Paraná. O ineditismo, o tamanho da ação e a repercussão midiática que alcançou foram proporcionais ao dilaceramento no íntimo das entranhas dos poderes, podres poderes. Assim como surgiu, de uma simples investigação sobre evasão de divisas – daí vem o nome – também está saindo de cena com os holofotes sendo direcionados para o planalto central.

Pois também reside, atualmente, no Palácio do Planalto toda a atenção dos milhões de brasileiros. A Lava-Jato não produziu todos os resultados contundentes como a grande maioria nas ruas desejava. Podemos dizer que algo ficou pelo caminho, teve alguns efeitos relevantes sim, mas empurrou muita sujeira para debaixo do tapete, enquanto muita gente se pergunta se os ex-presidentes Lula e Dilma vão passar incólumes por todo esse mar de lama. Será que os conchavos, os escusos acordos estão imperando em detrimento ao maciço desejo popular?

Depois de nove meses, coincidência ou não, ao tempo de um parto humano, os poderes ineditamente irmanados, Judiciário e Legislativo, chegam a uma conclusão sobre quem deve assumir o Executivo. Um resultado que, de certa forma, ainda mantém de pé uma esperança na “Ordem e Progresso”, mas muito distante do que foi conquistada com a Queda da Bastilha – “Igualdade, Fraternidade e Liberdade”, como metas coletivas.

Como pode um governo, dessa vez oficializado e não mais interino, conquistar o inatingível respeito e confiança popular se, pelo menos 11 de seus 24 ministros têm implicações com a justiça? Como pode um governo ser chamado de sério, capaz de dirigir corretamente o destino da Nação contando com apoio do senador Romero Jucá (PMDB-RR) – só para citar apenas um caso – afastado do Ministério do Planejamento após a divulgação de uma gravação em que defende um acordo em torno do presidente Michel Temer para “estancar a sangria” da Lava-Jato?

Eleito na mesma chapa que Dilma, e tendo uma ampla maioria no Congresso, corremos o risco inicial de vermos aprovadas as reformas trabalhista e previdenciária (que nunca foram anunciadas nas peças da campanha eleitoral da dupla), bem a gosto dos empresários que apoiaram Temer nessa sua “vitória”, que jamais conseguiria atingir se dependesse de votos com ele na cabeça.

Longe de defender o discurso da terra-arrasada, longe de revelar um pessimismo exagerado, mas não se pode encobrir o sol com uma peneira, como é de domínio público. Lá na Ilha Tupinambarana ousaríamos dizer: “Não se faz um fundo novo com lata velha”.

 

*Auditor fiscal da Sefaz.

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Autor
Augusto Bernardo Cecílio

* Auditor fiscal da Sefaz, coordena o Programa de Educação Fiscal no Amazonas.

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