Um velho professor

No próximo domingo, dia 5, completar-se-ão cinquenta e oito anos da morte do meu pai, professor Felix Valois Coelho. Quando do cinquentenário desse infausto acontecimento, reunimos a família e, na ocasião, minha prima, doutora Yole Magalhães Diniz, comoveu a todos com um pronunciamento, do qual extraio os trechos a seguir transcritos, como forma de homenagem ao Velho que se foi tão cedo:

“Há exatamente 50 anos, numa quinta-feira como hoje, a Igreja celebra a festa do Corpo de Cristo. Era o 5 de junho de 1958.

Naquele dia, por volta das 14,30 horas, nesta cidade de Manaus, morria um homem.

Sim, todos os dias morrem milhares de homens no mundo todo.

Ocorre, porém, que esse homem ao qual me refiro, não era um homem comum. Eu vos afianço, ele não era um homem comum, era um homem bem diferente! E sabem porquê, amigos? Simplesmente porque aquele homem não possuía os defeitos comuns, era um justo, era um homem de Deus!

Chamava-se Felix Valois Coelho e possuía uma alma verdadeiramente franciscana. Aliás, certa vez ele me disse que o grande sonho de sua vida era ter sido um padre capuchinho. Não pôde realizar o sonho por ser arrimo único de sua irmã e de sua mãe já velhinha.

Eu ainda não tinha completa 4 anos quando o conheci. Por isto, talvez seja eu, dos aqui presentes, quem por mais anos conviveu de perto com ele. Lembro-me bem de quando o vi pela primeira vez: nós, meus avós, minha tia Lucíola e eu recém chegados de nossa terra natal, a querida cidade de Boa Vista, capital do então município de Rio Branco, hoje Estado de Roraima, fomos, convidados por ele, Felix Valois, a uma festa na Assembleia Legislativa.

Não sei lhes dizer o que comemoravam ali, e nem onde era a Assembleia, mas guardo na memória um salão grande, bem iluminado, apinhado de gente e uns homens vestidos de maneira muito estranha para mim, pois nunca tinha visto ninguém vestido daquele jeito: calça preta com listrinhas brancas e um paletó preto, comprido, que parecia embaixo possuir umas abas.

Perguntei ao meu avô quem eram aqueles homens e ele me responde: são os senhores deputados. Mais estranha que a roupa, achei aquela palavra e, durante muito tempo, liguei a palavra deputado àquele trajo.

Fiquei admirada quando vi que o Felix Valois era um daqueles deputados. Desde aquele dia comecei a chamá-lo de tio, pois que era noivo de minha tia Lucíola, com quem algum tempo depois se casou…

Felix Valois possuía as mais raras e belas virtudes preconizadas no célebre Sermão da Montanha, o eixo central da Mensagem da Boa Nova, trazido ao mundo por Cristo. O mais admirável em sua personalidade era que essas virtudes conviviam em sua alma de escol, com a intelectualidade e com o saber.

Felix Valois era um intelectual no mais amplo sentido da palavra. Professor emérito, dominava como ninguém a nossa língua, sabia ainda latim, falava correta e correntemente o francês, sem nunca ter frequentado escolas específicas de ensino linguístico. Era um autodidata, aprendeu sozinho, vasculhando com amor os próprios livros.

Formou-se em direito, praticou a advocacia com brilhantismo, nas áreas civil e criminal, com uma particularidade: não recebia honorários de pessoas com poucas condições financeiras. Para esses advogava de graça.

Felix Valois era maranhense de nascimento. Aqui chegou aos 11 anos de idade, em companhia de sua mãe, para se juntar à irmã, que já se encontrava em Manaus. Antes dos 14 anos já trabalhava para ajudar no sustento da casa…

Em todos os cargos que exerceu na vida, Felix Valois se distinguiu por honestidade, pois o seu grande galardão foi a humildade. E a humildade, sabemos todos, é a virtude geradora das demais virtudes – o humilde é bom, o humilde é honesto, o humilde é misericordioso, o humilde é pacífico e, acima de tudo, é desprendido dos bens e valores materiais, que o fogo consome, a ferrugem dá e a traça destrói…

Sobre a sua humildade, vale ressaltar o quanto lhe custou o convite para ser membro da Academia Amazonense de Letras. A natureza pura e simples de sua alma não lhe permitia pertencer a uma agremiação daquele teor. Sei que só concordou em aceitar o convite em atenção à insistência de seu grande amigo, professor Péricles de Morais, então presidente da Academia.

Que interessante coincidência: dói ocupar a cadeira cujo patrono é Machado de Assis, o maior entre os maiores, o príncipe da intelectualidade brasileira.

Felix Valois era machadiano, purista como ele, também como ele, poeta e escritor. Estou certa de que era a única cadeira digna do tio Felix”.

Quantas saudades nos deixaste, Velho. Tua memória nunca se apagará e o teu exemplo de vida será sempre nosso paradigma.

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Felix Valois

Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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