No texto da semana passada, escrevi casualmente que “só as amebas sentem saudade da ditadura”. Acho que entrei numa fria. Não sendo muito simpático a essas coisas de redes sociais, nem de uso excessivo da internet, de repente vi minha caixa postal repleta de mensagens, através das quais a singela afirmativa foi alvo de manifestações de todos os tipos. Confesso que o que mais me impressionou foi saber, primeiro, que as amebas possuem uma organização de padrão internacional e, segundo, que esta modesta coluna tinha tanta penetração nos domínios amebianos. Pensando bem, quanto à segunda parte não poderia ser de outra forma por tudo o que este escriba representa para a cultura brasileira.
“Nunca poderia imaginar que você fosse tão reacionário”, é como começa um dos e-mails recebidos. “Para um homem da sua idade, é simplesmente vergonhoso manifestar tamanha amebafobia. E a título de quê? De nada. Acusação leviana e gratuita, que só põe a descoberto que você desconhece por inteiro o papel das amebas na história do mundo e, particularmente do Brasil”, prossegue a missiva (ainda se usa esse termo?), que vem com a assinatura digital de Ameba Bela e a observação de que se trata de pós doutora em História Universal.
“Saiba, meu ignorante advogado, que as amebas temos muito orgulho de feitos da maior relevância que, ou foram promovidos exclusivamente por nós, ou tiveram nossa participação decisiva. Você se lembra quando o Bush mandou invadir o Iraque? Pois bem, para seu governo fomos nós que o convencemos a divulgar um relatório falso de que naquele país havia armas de destruição em massa. Com isso conquistamos a opinião pública americana e demos sequência à política belicista da Casa Branca que, no episódio específico, culminou com o enforcamento do Saddam. Isso foi ironicamente trágico porque Saddam era uma das amebas mais ativas”, conclui a doutora Ameba Bela.
Na sequência de lições que recebi, veio esta, oriunda de um senhor que se diz chamar Ameba Gatela: “As amebas nunca foram e jamais serão a favor da ditadura. Por isso sempre estivemos contra Cuba. Aqui mesmo, no Brasil, fomos às ruas, juntamente com o PC do B, e entoamos nosso grito de guerra, conhecido de todos: amebas/unidas/jamais serão vencidas. E fique sabendo que, no último pleito, foi de nossa autoria o slogan vitorioso da campanha, concebido e urdido por um de nossos maiores marqueteiros. Todos se lembram de que estávamos nas ruas proclamando: um, dois, três, quatro, cinco, mil, queremos um’ameba presidente do Brasil”.
Tenho que reconhecer meu estarrecimento. Jamais poderia imaginar essa grande influência amébica. Vejam que outro leitor (este resolveu ficar anônimo) me assegurou que são as amebas as responsáveis pelas sucessivas eleições dos deputados Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha e do senador Renan Calheiros. Só então me foi dado entender a razão por que encontram tantos obstáculos no Congresso todos os projetos que cuidam da legalização do aborto, da descriminalização do uso de drogas e das uniões homoafetivas. Também compreendi essa psicose parlamentar relativa à agravação das penas como forma de combate à criminalidade.
A senhora Ameba Cana, que se diz doutora em ciências do comportamento, desviou um pouco um foco do assunto, mas não foi menos implacável na sua manifestação: “Você fala como se as amebas fôssemos todas tresloucadas e insensíveis. Nada mais longe da verdade. Vou lhe dar só um exemplo do comportamento politicamente correto e educado de nossas hostes: recentemente houve aqui, na Amebalândia, um concurso de miss. Foi muito disputado porque a mídia insiste em continuar divulgado esse tipo de competição como se fosse algo essencial para a vida em sociedade. Como só uma podia ser a vencedora, recebeu ela coroa e cetro, como manda o ritual. Pois fique sabendo que a segunda colocada se portou de maneira elogiável e nem pensou em agredir a campeã, tirando-lhe a coroa da cabeça”.
Fiquei com a cara no chão e pensei que, depois disso, nada poderia vir de pior. Ledo engano. A leitora Ameba Rata me jogou na rua da amargura, lembrando que, onde ela vive, não existe nada parecido com o Big Brother Brasil. “Nós não nos prestamos para esse tipo de coisa. Pode você imaginar algo mais ridículo do que encarcerar alguns energúmenos e pedir que eles mostrem ao mundo todos os seus vícios e aberrações? E premiar por isso? O mais grave é que fiquei sabendo – prossegue o texto – que quem não consegue entrar na tal carceragem fica pagando os olhos da cara para ver, pela televisão, o que acontece no interior. Se você conseguir encontrar algo mais ridículo e idiota do que isso, peço-lhe que me informe para que eu adote providências severas, ao fito de impedir que, no reino das amebas, alguém tenha a infeliz ideia de implantar algo do tipo.
Fui dormir, cansado que estava de levar tanto ralho. E tudo porque fui mexer em casa de casa, perdão, de ameba, levando-me à conclusão, triste mas verdadeira, de que a sabedoria popular é imbatível quando recomenda: quem tem telhado de vidro, não joga pedra no dos outros. Deixemos as amebas em paz. Elas têm poder e sabem o que fazem.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...