24/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Estou de volta e sobrevivi

Publicado em 12 de fevereiro, 2015

Hoje voltei ao mundo das bikes.

As bicicletas sempre estiveram presentes nas minhas infância e adolescência.

Ao longo da minha vida, três magrelas me marcaram: uma Monark que dobrava ao meio na qual aprendi a andar sem rodinhas.

Era uma tarde ensolarada como muitas outras, mas naquele dia resolvi andar na calçada do Boulevard com meus primos Júnior, Ricardo e Carla. Os dois primeiros eram mais velhos e já sabiam, havia tempo, andar sem auxílio das rodinhas.

Eu e a Carla regulávamos mais ou menos a mesma idade, tínhamos uns cinco ou seis anos. Nenhum de nós dois queria ser o último a aprender.

Foi então que pegamos a chave de rodas e retiramos a rodinha de um dos lados. Júnior e Ricardo diziam: tentem se equilibrar sem o apoio, se sentirem que irão cair joguem o corpo para o lado que tem rodinha.

E fomos até o limite da calçada das Casas do Óleo, bem em frente da Farmácia e então partimos. Lembro de alguém empurrando a bicicleta e dizendo: ” quando pegar embalagem vou soltar e faz o que te disse”.

Consegui me equilibrar sem usar a roda de apoio por uns breves segundos que até hoje me parecem eternos e então ao chegar em frente de casa dobrei à direita e entrei.

Pronto havia me libertado do medo e no dia seguinte já me sentia um gigante andando de bicicleta sem rodinhas.

Depois disso, lá pelos meus dez anos, ganhei uma mini Caloi 10.

Nova fase, tinha buzina daquelas a ar parecida com a que os picoleseiros usavam na época. Andei, andei e andei. Começamos a nos reunir para pedalar, aos domingos íamos à Ponta Negra de carro com o transcaloi e de lá voltávamos pedalando.

Um certo dia resolvi voltar sozinho e na frente dos demais, afinal me achava um craque. Vinha na estrada da Ponta Negra, ao chegar perto da bifurcação onde à direita ruma-se para o bairro da Compensa e à esquerda ao São Jorge, um carro buzinou atrás de mim e me assustei, quando dei por mim estava rolando na pista, acredito ter dado uma três a cinco cambalhotas no asfalto. Senti os meus dentes quebrando até que parei de rolar. Levantei e vi o meu punho inchado, parecia ter a metade de uma bola embutida nele tamanho era o inchaço.

O motorista e e a passageira pararam pra me socorrer mas estavam mais nervosos do que eu. Tudo que eu queria é que eles fossem embora e meus primos me trouxessem pra casa. Havia saído escondido porque minha mãe receava que algo de ruim pudesse me acontecer. Estava certa, além dos dentes quebrei o braço direito e tive sorte porque minha Caloi 10 ficou destruída. Estava com uns 11 anos quando isso aconteceu e minha mãe jogou fora a bicicleta. Fiquei proibido de pedalar.

Depois de dois anos, já com meus treze anos, minha mãe me chamou no fim da tarde e disse: “umbora ali comigo”. Nem queria ir, estava jogando bola com meus amigos do Boulevard e ainda teria que ir tomar banho pra poder sair.

Fomos até a Credilar, penso ser esse o nome da loja. Sei bem onde fica o prédio, é aquele onde depois funcionou a Mesbla na Eduardo Ribeiro e depois a Riachuelo.

Pois então perguntei: o que viemos fazer aqui? Ela me respondeu com outra pergunta: “tá vendo aquelas bicicletas ali?” Vai lá e escolhe uma, mas não escolhe as que têm marcha que eu não quero que tu vás para longe.

E então, atônito, fui em direção às bikes e escolhi uma Barraforte azul, linda, da cor do Naça.

Puxa, como eu andei nessa bicicleta, Boulevard, Ayrão, Beco do Macêdo, Boa Sorte, Matinha. Gostava de ir com ela comprar papagaio no Gaguinho, lá no Beco. Lembro que uma vez, já com 15 anos, fui ao Circulo Militar jogar uma partida de polo aquático posto que já fazia parte da seleção da Etfam.

Depois, comecei a dirigir e fui aos poucos deixando de lado a minha terceira e inesquecível bike.

Confesso que não esperava mais ter uma bicicleta. Mas então veio tema da ciclovia na Banda do Boulevard e fui apresentado ao mundo dos ciclistas. E como são muitos e organizados esses grupos.

Resolvi comprar uma magrela e pedalar com eles. Hoje foi o primeiro dia e constato: os motoristas precisam urgentemente aprender a respeitar os ciclistas e precisamos avançar com as ciclovias.

Enfim, estou de volta e sobrevivi.

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Autor
Luis Cláudio Chaves

* Luis Cláudio Chaves é juiz de direito.

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