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Jornalista responsável: Marcos Santos

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Publicado em 15 de janeiro, 2015

Fui aos jornais e à internet à procura de assunto para o texto. Algo novo, que pudesse valer a pena. Nada. Prenderam mais um no escândalo da Petrobrás. Mas isso já está virando rotina, principalmente depois que o juiz federal encarregado resolveu vestir a fantasia de Catão e, inspirado na Operação Mãos Limpas, da Itália, deliberou acabar com a corrupção no Brasil, mesmo que isso implique na quebra desavergonhada de princípios garantistas, consagrados pelo direito. Prendam-se todos e, depois, se sobrar tempo, cogitar-se-á de ouvir o que a defesa tenha a dizer. O importante é prender. É meio seguro de satisfazer a grande mídia e saciar a sede de violência que só faz se expandir num povo cansado de governos paternalistas e incompetentes.

Se assim o digo, logo fico preparado para a réplica inevitável: lugar de bandido é na cadeia. Que o seja. Mas será que dá para considerar a possibilidade de um acusado ser inocente? Ou não? Então não percamos mais nem tempo nem dinheiro alimentando a máquina judiciária. Basta receber o relatório do delegado que efetuou a prisão e pronto. Tudo estará resolvido e a sociedade, esse conceito difuso, se sentirá livre de mais um indesejável, por certo importado de outra galáxia porque aqui mesmo, aqui, no país de Dilma, não existe campo fértil para a gestação de criminosos.

Afinal de contas a educação está em franco progresso, bastando saber que, no último ENEM, alguns alunos conseguiram nota máxima na redação. É, de fato, um fenômeno aos olhos de quem está acostumado a ver as proezas linguísticas, praticadas pelos que se submetem ao exame. “Nós num semo burro; a gente num temo é tempo a perder com essa coisa de aprender gramática”. Para quê, na verdade? Se o Lula já foi presidente da República, não há de ser o correto manejar da língua instrumento indispensável para o sucesso político nem para o comando da nação. Talvez bastem a cegueira e a surdez providenciais, que nunca permitem ver alguma coisa ou, pelo menos, dela saber. E assim estamos no caminho certo para produzir filhos milionários, gênios das finanças, que ascendem de um zoológico para a Wall Street. Quanta fulgurância!

Deixa-me voltar à busca inicial. Deparou-se-me a notícia de que, numa região remota da Rússia, alguém fotografou um Pé Grande, saindo de uma caverna. “Parecia um urso, mas não era um urso”, disse, apavorada, uma das testemunhas. Fiquei a pensar se o Polo Industrial de Manaus não resolveu expandir seus negócios e passou a exportar Mapinguaris. Para quem não sabe, “os caboclos contam que dentro da floresta vive o Mapinguari, um gigante peludo com um olho na testa e a boca no umbigo. Para uns, ele é realmente coberto de pelos, porém usa uma armadura feita do casco da tartaruga. Para outros, a sua pele é igual ao couro de jacaré. Segundo esta lenda, alguns índios, ao atingirem uma idade mais avançada, evoluiriam e se transformariam em Mapinguari, passando a habitar o interior das florestas, vivendo apenas no seu interior e sozinhos. Há também quem diga que seus pés têm o formato de uma mão de pilão”. É muito provável que, cansado do verde, o nosso monstro tenha deliberado conhecer outras plagas, deliciando-se agora com a nívea paisagem das estepes russas. Peludo ele já é, de forma que o frio não lhe há de causar mossa.

Ah, sim! Li também que houve uma revolta em Coari, cuja população, empolgada pelo mais radiante furor cívico, pegou em pedras e paus e se danou a destruir casas e carros, pondo abaixo o patrimônio dos dedicados edis e prefeitos que ali labutam, com reconhecido fervor patriótico. Fora no tempo da ditadura e os milicos já estariam de orelha em pé, vendo em tudo a influência do ouro de Moscou, a patrocinar subversivos de toda casta, sempre decididos a abalar os alicerces do mundo ocidental. Seria a revolução social, brotando altaneira da floresta e dos grandes rios, qual Mapinguari coletivo, a exigir justiça e igualdade. Agora, não sei bem como os setores de inteligência podem encarar a coisa. Talvez se opte por um “choque de ordem”, expressão que tem servido para justificar tudo, fornecendo nada como resultado.

Finalmente, li que vão executar um compatriota nosso. A brutalidade se dará no sábado, lá em terras de Indonésia, e o método será o fuzilamento. Sangra-me o coração. Não é sentimentalismo, compaixão ou solidariedade bairrista. Nada disso. É apenas tristeza de ver que ainda existe no mundo quem ache natural marcar dia e hora para matar alguém. Não discuto culpas nem consequências. Só não consigo ver como isso pode ser enquadrado dentro de normas que pretendam possuir o mínimo de conteúdo civilizatório. Matar nunca foi solução para nada, aí incluída a criminalidade. É suficiente pensar que esta já não existiria se a monstruosidade tivesse efeito educativo ou intimidante. É a violência por si mesma, elevada à categoria de política de Estado. É a ignorância mais reles, travestida em medida de defesa da sociedade. É a própria pobreza de espírito, ungida pelas bênçãos da ignorância. É uma profunda tristeza.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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