A festeira Charufe Nasser foi presa, sexta-feira, algemada, pela Polícia Federal, acusada de integrar um grupo responsável pela captura e venda de tartaruga na natureza. Fotos dela, com as mãos algemadas, circularam nas mídias sociais. Feirantes e pescadores, na mesma ação, também foram presos. O fato traz à tona uma realidade do que chamo aqui de caboclo way of life, nessa mania que tenho de achar que todos são iguais e o direito dos norte-americanos de defender seu modo de vida é o mesmo que nos assiste na defesa do jeito como o caboclo sobrevive na diversidade amazônica.
Muitos jovens, adolescentes e um número crescente de adultos, hoje, não admite mais o consumo de tartaruga, tracajá, peixe-boi e outras espécies sob ameaça de extinção. Viram a cara, criticam e apontam o dedo naqueles que participam desse consumo.
Meu pai, Zé Caiá, pescador, sustentou os cinco filhos e parte dos netos com o que trazia dos lagos. A natureza varia a disponibilidade de espécies ao longo do ano. Não é toda hora que tem jaraqui, assim como nem sempre é possível capturar o tambaqui ou a matrinxã. O que caía no prato, então, tinha que ser consumido. Era o animal/ peixe ou nós, na mais direta luta pela sobrevivência.
Privilégio de um tempo em que a natureza era pródiga? Talvez. Mas isso se repete hoje, todos os dias, nas margens mais ermas dos imensos rios da Bacia Amazônica. Esse é o modo de vida do caboclo.
Os Estados Unidos, grande potência econômica mundial, defendem com unhas e dentes o chamada American Way of Life, o modo de vida norte-americano. Em nome dessa defesa, combateram duramente a União Soviética, ao longo da Guerra Fria. Sob Bush Pai e Bush Filho, recentemente, usaram o mesmo princípio para invadir o Iraque, duas vezes, e o Afeganistão.
O que Charufe Nasser faz, ao servir grandes jantares à base de tartaruga, atraindo centenas de amazonenses, de autoridades a plebeus, não é mais que recorrer à memória gustativa de infância dessa gente e oferecer a iguaria que povoou a vida no Estado durante séculos. Gastronomia é cultura.
Apreciar tartaruga e tracajá foi – e é, no interiorzão – realidade, parte da vida.
É irracional, por outro lado, que alguém queira defender a continuidade do consumo, puro e simples, no ritmo em que se dava até antes de os quelônios entrarem em fase de extinção. Quem mora em Manaus não pode alegar que é ou ele/ela ou a tartaruga, claro. Não dá. O mercado consumidor aumentou tanto que a demanda do consumo finalizaria em anos a ameaça que levou séculos para ocorrer.
Não é possível liberar a captura do pirarucu, embora ele esteja saindo da lista de extinção, pela mesma razão. A procura é enorme e todo pescador se voltaria para essa cada vez mais lucrativa atividade.
Para que, porém, tanto investimento em preservação? Para que o animal possa continuar sendo consumido, claro. Para preservar aquela cultura gastronômica típica do Amazonas.
O que temos em termos de controle de estoque da tartaruga? O pirarucu é controlado, nas diversas reservas, do que é exemplo a de Mamirauá. A tartaruga, nos grandes tabuleiros da região do rio Trombetas, no Pará, cresceu e se multiplicou em milhões. O projeto Pé-de-Pincha, com apoio da Petrobras, tem espalhado outro tanto de filhotes pelos rios. O que isso representa?
A escassez, por outro lado, aumentou a procura e encareceu o preço. Uma tartaruga grande, desse grupo que acaba de ser preso, segundo disseram em depoimento à Polícia Federal, era cobrada em torno de R$ 50. Na Morada do Peixe, no Belvedere, onde há um criatório do quelônio, esse é o preço do quilo da tartaruga. Um exemplar, de médio para pequeno, vendido com nota fiscal e todas as garantias, sai por… R$ 900.
Aí dá para ver a diferença entre um comerciante esclarecido e o homem humilde, do beiradão, que encontra uma forma de sobrevivência e, desconhecendo as leis – a maioria é analfabeta – não entende a gravidade do que faz. Ninguém pode alegar desconhecimento das leis para cometer crimes, é princípio jurídico, mas é impossível não ver a diferença desses feirantes e pescadores para quem comete crimes muito mais graves e permanece impune.
Todo consumidor tradicional da tartaruga sabe que o sabor dela, capturada na natureza, é diferente das oriundas de criatórios. Por quê, então, não há o mesmo incentivo e planejamento governamental para um trabalho voltado para elas, na natureza, nos diversos lagos onde ainda existem, como houve para o pirarucu? Por que não há captura legal, assistida, acompanhada, que mantenha o equilíbrio ecológico, faça sua parte na manutenção da vida na terra e, ao mesmo tempo, permita o consumo da iguaria histórica?
A prisão de Charufe Nasser, ao mesmo tempo, desnuda a hipocrisia do sistema legal brasileiro, grande parte oriunda de pressão e modismo internacionais: matar no trânsito é crime afiançável – e o responsável pelas mortes em frente ao Manaus Plaza, na Djalma Batista, saiu em menos de 24 horas da cadeia –, mas servir tartaruga é inafiançável. E Charufe, feirantes e pescadores permanecem atrás das grades.
Isso é um absurdo legal. Um nó que o parlamento precisa desatar.
A história dela, Charufe, é um pouco da história do Amazonas. Nascida rica, filha de barão da borracha, estudou na Europa, viajou pelo mundo, conheceu a alta gastronomia internacional. Empobrecida com toda a família – e os demais barões – arregaçou as mangas e transformou a habilidade adquirida nas mais altas mesas no seu modo de sobrevivência. É uma lutadora admirável, sob esse aspecto.
Sempre vai surgir um comentário dizendo que “se fosse a Maria das Couves, da Zona Leste, ninguém defenderia”. Cada caso é um caso e preconceito é preconceito, envolva pobre ou rico.
A polícia, seja Civil ou Federal, é apenas o braço do Judiciário, que, por sua vez, executa o que os políticos decidem no sistema legal. E ainda que a polícia tenha originado pedidos de prisão, a análise e decisão final é do juiz, do desembargador, do ministro dos tribunais superiores, do Judiciário, enfim. O policial vai a campo cumprir mandados.
Neste Dia dos Pais, Dia de Zé Caiá, meu pai, falecido aos 93 anos, fico lembrando dele, chegando em casa com um quarto de peixe-boi. Havia naquele rosto, sofrido pelo sol de semanas numa canoa muito simples, a remo, nos lagos bem distantes, uma expressão misturada entre o cansaço e a felicidade. Haveria, por poucos dias seguintes, proteína diferente na mesa.
Esse pescador, muito humilde e simples até a medula, foi tão grande que me deu a chance de retribuir, ainda que de forma minúscula, uma parte do imenso amor que sempre nos deu.
Beijos pai. Obrigado pelas tartarugas e tracajás que você nos serviu.
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Marcos Santos é radialista e jornalista. Começou em rádio, narrando futebol, aos 12 anos, na Rádi...