22/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O fracasso da estratégia na educação brasileira

Publicado em 03 de junho, 2013

Geralmente quando tiro uns dias a mais de descanso, como foi o caso deste último feriado de Corpus Christi, costumo nesses momentos de ócio acompanhar-me de um livro. Nesta oportunidade, o livro que escolhi foi o “Good Strategy, Bad Strategy: The difference and why it matters”(1), de Richard P. Rumlet.

Um livro muito interessante para quem gosta e interessa-se por casos de sucesso, mas com uma abordagem um tanto que acadêmica de como se formulam as estratégias de uma maneira geral. No entanto, o motivo desta resenha é somente relatar um caso citado no livro que vem a explicar, sob minha análise, o fracasso brasileiro na construção de bases sólidas para o desenvolvimento que nos colocaria entre aqueles países chamados desenvolvidos.

Rumlet descreve a estratégia dos Distritos Escolares Unificados de Los Angeles (EUA), sob a direção de David Brewer, um almirante reformado da marinha americana, com o intuito de melhorar o desempenho dos alunos de suas 34 escolas no exame Academic Performance Index (API) (2), que afere os conhecimentos dos alunos nas 991 escolas públicas do Estado da Califórnia. Acreditava Brewer que, melhorando primeiramente o desempenho das 34 piores escolas, poderia depois ampliar sua estratégia para as demais escolas do sistema.

As sete estratégias propostas consistiam em seu bojo criar, nos distritos e nas escolas, equipes de liderança que compartilhassem crenças, valores e altas expectativas para que professores, pais, estudantes e a comunidade apoiassem um ciclo virtuoso, de melhoria contínua, que assegurasse ensino de alta qualidade em suas escolas. Contudo, Brewer não havia diagnosticado o que resultava a falta de comprometimento de todos e as baixas expectativas das lideranças, que vinham de uma sistema burocrático, engessado e que gastava US$ 25 mil ao ano por aluno e que, ao final, não assegurava que as crianças na oitava série soubessem ler, escrever e fazer contas.

A baixa expectativa e o baixo comprometimento não eram causas, mas consequências. A estratégia de Brewer estava equivocada pelo fato que o baixo desempenho estudantil estava concentrado em alunos de etnia africana e latina, provenientes de famílias desestruturadas, ou envoltas em problemas sociais que colocam a educação dos filhos como não prioritária. O baixo desempenho corroborado pela baixa renda das famílias, ou a falta de tempo dos pais em acompanhar o dia a dia dos filhos na escola, porque tinham que trabalhar, ou mesmo porque não tinha o conhecimento necessário para auxiliar os filhos nas tarefas. Os responsáveis por crianças latinas muitas vezes tinham situação irregular no país e, por isso, tinham medo de fazer registro formal de endereço nas escolas. Assim, não compareciam nas escolas quando solicitados e com todos esses impedimentos como construir comprometimento de todos para construção de bases para melhoria da educação?

No Brasil, as causas podem ser diferentes em alguns aspectos, mas também passam pela desestruturação das famílias, pela falta de comprometimento dos pais na educação dos filhos, pela falta de tempo, ou conhecimento (ou ambos). E o mais triste nisto é que não existe a formulação de nenhuma estratégia que possa mudar este quadro. O único avanço significativo que tivemos para o ensino médio e fundamental foi a criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), em 2007. O API californiano existe desde 1999).

No entanto, pela Lei das Diretrizes Básicas da Educação (LDB), a própria divisão do Ensino Básico, entre o Estado e o Município, favorece a inexistência de uma estratégia comum que possa direcionar um objetivo unificado. O Ensino Fundamental como função prioritária do município e o Ensino Médio como função prioritária do Estado, aliados às disputas políticas pelo poder, colocam “cada um no seu quadrado” e as políticas para educação muitas vezes encerram-se somente na construção da escola de pedra, como se o problema fosse somente quantitativo.

Assim, o que vemos nas propagandas de governos é tão somente a quantidade de escolas construídas, reformadas e o próprio Ideb não é utilizado como parâmetro de boa gestão de governo. Na verdade, o Ideb apenas circula em círculos restritos de informação e a maioria dos pais não sabe sequer o que significa esta sigla. Não obstante, a proposta do economista Gustavo Ioschpe de publicá-lo na porta das escolas brasileira, de forma a popularizá-lo, foi duramente criticada. Políticos e educadores rejeitaram a ideia porque vinham nesta iniciativa um viés discriminatório e vexatório que passariam as crianças estudando em escolas com um péssimo índice exposto para todos verem. Chegaram à conclusão que o Ideb exposto causaria bullying (3). Talvez a medida alternativa seria que as escolas fossem obrigadas a divulgar e discutir com os pais e professores o Ideb ruim.

Ainda não conseguimos avançar nos indicadores, ou mesmo utilizá-los como forma de pressão pela melhoria do ensino nas escolas públicas e, diferentemente do que acontece na Califórnia, não há a formulação de estratégia comum (nem boa ou ruim), entre o Estado e os Municípios, que vise avanços qualitativos da educação. Sem isto, infelizmente, será praticamente impossível preparar uma nação para entrar no seleto grupo de países de Primeiro Mundo.

Notas:

A Editora Elsevier lançou a versão deste livro em português com o título Estratégia Boa, Estratégia Ruim: Descubra suas diferenças e importância.

Em tradução livre: Indicador de Desempenho Acadêmico.

Bullying é o anglicismo que significa atos agressivos (verbais ou físicos) de forma reiterada de um ou mais alunos contra um ou mais colegas.

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Autor
João Lago

* João Lago é professor universitário, mestre em Administração (Estratégica / Marketing), tem 10 ...

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