Sou agora um septuagenário. E não vejo muita vantagem nisso, no que sigo a linha de raciocínio do meu querido Alfredo Cabral. Diz ele que considerar esta a “melhor idade” é manifestação de humor negro, produto da mente de algum gozador inveterado. Mas a verdade é que a outra opção é intragável: morrer jovem. Para trás. Como já proclamou Gonzaguinha, “a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não importa que eu repita, é bonita, é bonita e é bonita”. Cruel às vezes, é certo, mas é preciso considerar, mesmo em sede de filosofia barata, que, sem seus altos e baixos, seria ela de monotonia insuportável.
Vejo-me ainda criança, com o uniforme do Grupo Escolar “Princesa Isabel”, a cruzar a Praça da Saudade. Na sacola, um pedaço de pão e uma banana, a serem devidamente devorados na hora do recreio, sob a supervisão de dona Olga Rocha, professora que conseguiu nos desemburrar, com paciência, dedicação e uma palmatória, que ninguém é de ferro. A sabatina semanal era inevitável e os que não se tivessem dedicado a ler o “Nosso Brasil”, decorado a tabuada ou estudado no Gaspar de Freitas podiam ficar certos de que a férula agiria sem piedade. Mas ninguém ouvia falar de crianças traumatizadas. E quem não sabia não passava de ano. Simples assim.
O Instituto de Educação do Amazonas foi o berço do meu curso ginasial. Ainda se estudava latim e a língua portuguesa era levada a sério. Se era melhor ou pior do que hoje é algo que não posso ter a pretensão de dizer, até porque não me compete. De uma coisa eu tenho certeza, porém: qualquer criança de catorze anos, desde que não fosse de estupidez cavalar, sabia fazer análise sintática e não perguntava “tu visses o jogo ontem?” Nem pensar. Mesmo na matemática, em que equações e incógnitas sempre foram problemáticas, todo mundo sabia pelo menos distinguir algarismos arábicos de romanos. Não se pronunciava “papa pióxi”.
O curso clássico foi feito no Colégio Estadual do Amazonas, ao mesmo tempo da frequência às aulas do curso comercial na Escola “Sólon de Lucena”. São eternas as lembranças dos mestres. Manoel Otávio encantava com viagens imorredouras pelas passagens da História universal, enquanto Farias de Carvalho, alma e sangue de poeta, deslumbrava com as maravilhas da literatura. Mesmo a Física conseguia minha atenção, tal era a capacidade didática do professor Otávio Mourão. Na “Sólon”, o professor Antônio Gonçalves da Encarnação Filho não transigia com os postulados da língua mãe que ele e o meu saudoso pai ensinavam com virtuosismo inigualável, despertando a ânsia de ler Camões, Machado e quantos outros lograram construir nosso patrimônio cultural.
Veio a Faculdade de Direito. Cinco anos. Enquanto o professor Ernesto Roessing insistia em que conhecêssemos os princípios da ciência jurídica como formulados na velha Roma, o professor Benjamin Brandão nos introduzia nos meandros básicos do ramo, lecionando Introdução à Ciência do Jurídica, ao mesmo tempo em que o professor Aderson de Menezes nos guiava pelo início do direito constitucional, abrindo-nos as portas da Teoria Geral do Estado. Depois, direito penal, com o professor Raymundo Vidal Pessoa, e direito civil, com as lições inigualáveis de João Ricardo de Araújo Lima, Adriano de Queiroz, Lúcio de Rezende e José Lindoso.
Depois a vida mesmo. Já se foram quarenta e sete anos de formatura e, consequentemente, de advocacia, profissão em que botei meu barco para navegar, disposto a enfrentar bonanças e tormentas. E assim tem sido. Se vale a pena ver o sorriso do cliente cujo direito acabou por ser respeitado, é muito triste ver o desespero dos que têm os seus postergados, muita vez por incúria, desídia ou simples preconceito. Isto para não falar da presunção de quantos olham o direito, sobretudo o penal, como simples meio de aplicar castigos, sem nenhuma preocupação com o verdadeiro sentido de distribuição de justiça.
De tudo posto, se tiro a prova dos nove, acho que tenho saldo. Uma companheira de longa data me deu quatro filhos de que me orgulho. E não gratuitamente. Neles encontro o companheirismo que aconchega e a dedicação, que compensa. Deles me vieram os seis netos que definitivamente assumiram as rédeas do poder e, implacáveis, exercem a mais doce das ditaduras do mundo. Não pude compor uma sinfonia aos cinco anos, qual Mozart, nem conquistei o mundo aos trinta, como Alexandre da Macedônia. Mas vivo. Isso me basta.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...