Diz o dicionário Houaiss que virose é “qualquer doença causada por vírus” e para esta última palavra apresenta vários significados dentre os quais o que transcrevo a seguir, apavorante e terrível: “Cada um de um grupo de agentes infecciosos diminutos, desprovidos de metabolismo independente, que se replicam somente no interior de células vivas hospedeiras”.
Acho que desde domingo à noite minhas células vivas ficaram absolutamente sem vagas para a hospedagem de qualquer outra coisa. Peguei uma virose. O nome se tornou familiar já que, nos últimos tempos, quando os médicos não conseguem diagnosticar uma doença, ele é a tábua de salvação. “Os exames não indicaram nada de conclusivo, mas, pelo jeitão das coisas, acho que o senhor está com virose”. Pronto. E fica o dito pelo não dito, já que se não sabemos qual é o vírus, não existem meios de combater o seu ataque.
E que ataque! As dores se estendem do couro cabeludo (no meu caso específico, nem tão cabeludo assim) até as solas dos pés. A cabeça é uma caixa de ressonância de todos os instrumentos de percussão do mundo, batendo em conjunto. O calor amazonense simplesmente deixa de existir. Em plena uma hora da tarde, o infeliz virótico, se veste com roupa apropriada para o inverno siberiano, se enrola com todos os lençóis e edredons de que dispõe, mas não para de tremer, com calafrios intermitentes. Tentar ler ou ver um filme, nem pensar. As pálpebras não obedecem a nenhum comando e se fecham por vontade própria. Os ossos gemem e estalam ao menor movimento, dando a impressão de que o esqueleto está em processo de desmontagem.
Pelo menos foi assim que me senti e se a descrição dos sintomas tiver alguma utilidade para a ciência médica, pode ser utilizada livremente que não cobrarei direitos autorais. Há de valer como uma contribuição decisiva para o combate a essa praga atroz e implacável, que hoje zomba dos recursos da medicina e exige que o tempo seja generoso para vencer a corrida contra a morte que, para o paciente, se apresenta como de ocorrência imediata.
Claro que tive os cuidados da família. Um chá quente de limão com alho, um comprimido de resfenol, engolido com o auxílio de uma vitamina “c” efervescente, tudo isso me foi proporcionado, na esperança de diminuir as agruras que me fizeram ter uma certeza: sob a ótica de qualquer religião, se eu superasse o tormento, estaria absolvido de pecados mortais e veniais eventualmente cometidos, porque nem o inferno de Dante pode ser muito pior do que essa tal virose. Nomezinho maldito e deplorável, que escrevo a contragosto e apenas para me manter dentro da realidade.
Mas de repente tudo sumiu. Não mais chá, nem comprimido, nem vitamina. Nada. Nem ninguém. Entre uma sonolência e outra, me dei conta de que estava absolutamente só, no primeiro caso devidamente comprovado de abandono de idoso. Pensei que delirava. Tinha que ser delírio. Mas não era. Era apenas uma excêntrica manifestação da lei eterna de superação do velho pelo novo. Explico-me: enquanto eu bodejava num colchão, inútil e inerte, sem poder me dar conta do que acontecia à minha volta, Lucinha, minha filha mais nova, teve que ser removida para a maternidade, onde, na terça-feira, pariu Helena Beatriz, que hoje orgulhosamente apresento como minha sexta neta.
Quando pude compreender o que se passara, encontrei, como era de meu dever como advogado de defesa, a plena justificativa para o abandono. O novo surgiu, o velho pode esperar. E o novo surgiu de forma tão resplandecente que fez compensar a espera do velho, já que, os sintomas da execrável virose começaram a desparecer mais rapidamente, fazendo com que eu voltasse a considerar a possibilidade de ainda me encontrar entre os vivos.
O que, tudo, me faz lembrar de uma última recomendação à medicina: diante de uma virose, cabe indagar se a vítima não está esperando a chegada de um neto. Se estiver, podem os doutores assegurar que a transição será mais fácil e menos prolongada. Helena Beatriz operou esse fenômeno em mim. Por isso, mesmo sem ainda tê-la visto com medo de lhe transmitir a moléstia, recebo-a e saúdo-a com a alegria que só pode sentir quem é avô. E também com esperança. Esperança de que ela consiga construir um mundo melhor, mais justo e menos violento, onde ela possa brincar e estudar, sempre observando a solidariedade humana, com a certeza de que somos todos iguais. Beijo-te, Helena Beatriz, e te agradeço pela minha cura, já quase completa.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...