21/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Carnaval e fantasia

Publicado em 08 de fevereiro, 2013

Quando eu era jovem (ponha tempo nisso), o Atlético Rio Negro Clube promovia um baile na segunda-feira gorda, que era o ponto alto da burguesia baré e realizava o sonho de todos os cronistas sociais. O traje exigido era a rigor, significando que os marmanjos tinham que comparecer de smoking ou, no mínimo, de summer, enquanto as madames envergavam seus longos mais brilhantes e resplandecentes. A opção eram as fantasias. De luxo obviamente, de tal maneira que era um tal de desfilar de toureiro, de Cleópatra, de centurião e de quantas outras vestimentas Hollywood povoava o imaginário da brava gente brasileira.

Era um espetáculo. Na frente do clube, ali na avenida Epaminondas, erguia-se uma passarela que ia desde a calçada até a entrada do salão. Ao pé da escada, paravam os automóveis e deles desembarcavam os mais variados espécimes da humana fauna, com uma só característica comum: eram ricos ou, pelo menos, pretendiam ser e, mesmo que não fossem, tinham lugar garantido no ambiente do “society”, com direito a retratos no jornal e presença garantida em todos os aniversários de quinze anos.

Nas laterais da passarela, a patuleia. Eu, inclusive. Era o “sereno”. A massa ali se postava desde cedo da noite, disputando um lugar privilegiado para assistir ao desfile mais pomposo que se realizava na Manaus de pouco mais de cem mil habitantes, ainda dos bondes e dos carros de praça, sem assaltos e sem sequestros. Naquele tempo não era politicamente incorreto chamar um homossexual de “fifi”, nem isso entrava muito na cogitação da intelectualidade. Mas o certo é que um monte deles aproveitava a grande noite para demonstrar sua criatividade. E a plebe chegava quase ao delírio quando despontava do carro uma Salomé estilizada, rebrilhando entre lantejoulas e paetês (nunca consegui saber a diferença entre os dois adereços) e arrastava seus mantos e véus pelo tablado de madeira.

Acho que, lá no fundo, os do “sereno” sentíamos uma pontinha de inveja por nos ser absolutamente impossível chegar ao menos próximo das fronteiras daquele mundo de sofisticação e futilidades. O “salão dos espelhos” era território restrito. Ninguém lá entrava se não tivesse o passaporte carimbado pelo ministério da elite, exigente na conferência da ancestralidade ou, quando nada, do pedigree. Exceção, talvez, para o seu Raimundo, taberneiro de profissão, com bodega na frente da casa dos meus pais, na rua Leonardo Malcher, e que, fazendo bico de garçom no templo do “society”, conseguia nos levar clandestinamente para o baile infantil da terça-feira.

Foram-se os tempos e o carnaval de clubes acabou. Já não existem marchinhas e nas festas da época, pelo que ouço falar, consegue-se tocar essa coisa que alguns insistem em chamar de música, conhecida como axé. Parece que não é raro, igualmente, que uma ou outra toada de boi-bumbá venha a mexer com os ânimos dos foliões, reservando-se um interregno para que uma dupla sertaneja consiga demonstrar o absurdo de que usa, para nos agredir, as mesmas sete notas com que Bach e Mozart compuseram maravilhas indescritíveis.

Paciência. Se assim foi a evolução, então muito que bem. Destino igual foi reservado para as fantasias que, já não tendo onde desfilar, simplesmente desapareceram ou perderam a originalidade e a pompa. Restaram as bandas de rua, com destaque para a Bica que, mesmo sem a presença do português Armando, continua ocupando a Praça de São Sebastião, agora sob o comando da Ana Cláudia.

Nesses blocos, muitos insistem em reviver os velhos carnavais e dão um jeito de engendrar uma fantasia. Nada similar às de antanho, que, afinal de contas, ninguém é mais besta de estar gastando à toa seu rico dinheirinho. Já não tenho nada com isso. Carnaval já não é minha praia. Mas confesso que, tivera eu disposição, gostaria de sair fantasiado de Renan Calheiros. Não seria dispendioso. Bastaria pintar um compêndio de ética na frente da camiseta e exibir uma cueca de onde aparecessem algumas imitações de notas de reais e homenageados estariam o passado e o ambiente do novo presidente do Senado.

Sair de Lula, também seria barato. É só conseguir óculos escuros e um bastão pintado de branco. Não esqueça de colocar nos ouvidos os aparelhos que indiquem sua irreversível surdez. Pronto, está feita a fantasia. Se lhe quiser dar mais autenticidade, meu modesto conselho é que você leve em uma das mãos um vidro de óleo de peroba, enquanto a outra haverá de carregar uma gramática da língua portuguesa. Fica a sugestão. Não cobrarei direitos autorais se alguém a aproveitar.

Bom carnaval.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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