22/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

A menina que via colorido

Publicado em 28 de janeiro, 2013

Existiu há muito tempo atrás uma aldeia perdida na Amazônia, cujos habitantes haviam alcançado alto grau de desenvolvimento intelectual, desde a observação dos astros, passando pelas técnicas apuradas de agricultura, finalizando nas artes, inclusive com uma escrita própria na qual se expressavam em verso e prosa. No entanto, devido a um defeito congênito no fundo da retina de todos, fez a população da aldeia somente enxergar em preto e branco.

Esta anomalia provocou, sem trocadilhos, uma visão diferenciada do mundo: um mundo repleto de escalas de cinza na matiz entre o branco e o preto. A priori, enxergar dessa maneira singular não foi empecilho para o desenvolvimento da agricultura, matemática, astronomia, pintura, mas limitou bastante o desenvolvimento da poesia, que era feita mais sobre temas concretos, sendo quase impossível a produção de uma literatura simbolista. Não existia para eles a imensidão do azul celeste, ou até mesmo um pôr-do-sol avermelhado-púrpura em um final de tarde sobre o rio Negro.

Um dia, por um acidente do acaso, nasceu uma criança sem o defeito que a todos acometia, portanto, ela podia enxergar colorido. Contudo, apesar de enxergar de forma diferenciada, essa menina foi educada sob uma paradigma monocromático, onde, a princípio, ver em cores era mais um transtorno que um benefício. Isto porque todos percebiam diversos tons de escala de cinza que não era acompanhado pela pequena, por exemplo: Enquanto todos conseguiam nomear os tons de cinza da incidência do sol na atmosfera durante o dia, a menina somente percebia o azul.

No entanto, foi justamente durante um pôr-do-sol que os pais daquela criança percebiam que havia alguma coisa de errado, pois nesses momentos ela ficava extremamente contemplativa. Intrigados com essa característica associada aos finais de tarde, um dia foi-lhe perguntado o que havia de tão interessante nos cinzas do crepúsculo. Logicamente ela teve bastante dificuldade de expressar o que via, porque não havia qualquer substantivo de denominação de cor, principalmente para aquela tonalidade de vermelho que não era compreendida pelos seus pais. Ela dizia: Pai, mãe, eu vejo o sol como urucum cintilante no céu! Eram palavras estranhas e sem qualquer significado, tanto que os pais, preocupados que aquela criança pudesse ser considerada louca, pediram para que ela tratasse dessas visões como um segredo de família. E ela foi crescendo não comentando com os outros o que via, mas anotou em um caderno todas suas analogias que expressavam as cores.

Com o passar do tempo, as anotações ficaram ricas em metáforas que expressavam o sentimento de ver em cores, sendo palavras desconexas sem o mínimo sentido a qualquer habitante daquela aldeia, ao mesmo tempo que Utopia (era essa o nome da menina) interessava-se cada vez mais em observar e tentar descobrir os mistérios do mundo a sua volta, adquirindo especial predileção pelos cristais.

Um dia Utopia, já adolescente, vendo a luz do sol que atravessava uma pequena fenda aberta na parede de seu quarto, coloca entre o feixe de luz um cristal em forma de prisma e faz uma grande descoberta: a luz do sol branca ao passar pelo prisma decompunha-se em sete cores. Imediatamente Utopia descobriu que a origem do arco-íris era proveniente do mesmo princípio, ou seja, a refração da luz branca do sol quando esta passa pelas gotículas de chuva. Esta descoberta Utopia levou aos seus pais, que de tão interessante que era, os fez finalmente começar a acreditar que sua filha tinha algo especial que a fazia diferente dos demais. Logo o seu pai, convencido finalmente que sua filha não era louca, resolveu levá-la ao sábio da aldeia para que ela relatasse tudo aquilo que descobrira.

Infelizmente, o sábio era um homem cético, acreditava somente naquilo que podia perceber pelos seus cinco sentidos e, apesar das evidências de que Utopia estava correta, porque ele não podia ver as cores, desclassificou a descoberta chamando-a de fantasiosa e imprópria, uma ameaça à ordem estabelecida e que deveria cessar. Ameaçou de prisão a menina e os seus pais por estimular ideias contra a lei da natureza monocromática estabelecida, obrigando-os a abjurar por completo a existência das cores.

Existem pessoas que, por se considerarem sábias demais, negam qualquer coisa que não possam comprovar ou, melhor ainda, que não possam entender por sua inteligência, abjurando inclusive a existência de Deus, classificando como fruto da superstição humana. Esses sábios não enxergam colorido, pois vivem em um mundo monocromático e arrogante no qual a fé é simplesmente uma manifestação cultural. No entanto, quanto mais eu leio e me interesso pela física teórica, mesmo sendo um completo amador, entendo que a ciência mais nos aproxima de Deus que o inverso possa parecer.

Isaac Newton, no ano de 1666 (número final da  besta), na época com 23 anos, quando fugia e refugiava-se da peste negra que assolou Londres, explicou como a força que faz uma maçã cair do topo de uma macieira é a mesma força que mantém os astros ao redor do sol, inaugurando o termo “mecânica celeste”. Ainda assim, Isaac Newton não negou a Deus, sendo célebre sua citação: “A maravilhosa disposição e harmonia do universo só pode ter tido origem segundo o plano de um Ser que tudo sabe e tudo pode. Isto fica sendo a minha última e mais elevada descoberta”. Einsten igualmente não negou a existência de Deus, chegando a dizer: “O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica”.

Vivemos em um mundo repleto de cores ainda por nós desconhecidas, cuja descoberta se dá mais por nossa capacidade de abstração do que por nossa atenção aos detalhes das proposições determinísticas, sendo esta minha visão particular de fé, que por meio desta fábula, desejo compartilhar.

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Autor
João Lago

* João Lago é professor universitário, mestre em Administração (Estratégica / Marketing), tem 10 ...

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