A História de um povo se escreve com referência obrigatória às figuras humanas que tiveram importância transcendental em seu desenvolvimento e evolução. Qualquer lapso de memória nesse campo implica em imperdoável negligência, com reflexos muito graves, pois vai impedir a exata compreensão do processo como um todo. Fica-se sem perceber a interação inevitável entre as forças naturais e o comportamento do homem, que, ao longo dos tempos, sempre se manifestou no sentido de compreendê-las e modificá-las, na busca pela melhoria da qualidade de vida.
No Amazonas, uma dessas figuras foi sem dúvida o empresário Nathan Xavier de Albuquerque, falecido recentemente no Rio de Janeiro, aos noventa anos de idade. Apesar disso, o infausto acontecimento não teve aqui nenhuma repercussão, salvo uma brevíssima notícia em um canal de televisão. Com o profissionalismo que lhe é inato, o jornalista Marcos Santos buscou compensar o que pode, sem qualquer exagero, ser chamado de ingratidão, registrando o fato em seu blog e ali publicando minibiografia do falecido, com o destaque da importância de sua atividade.
Elogiável o comportamento de Marcos Santos. As novas gerações têm o direito/dever de conhecer nosso conterrâneo desaparecido, quando nada para poder situá-lo corretamente no quadro da historiografia estadual. Por isso, o blog assevera: “Nathan esteve para o período moderno como IB Sabbá, o fundador da Refinaria de Manaus, e JG de Araújo, o homem que dominou da borracha ao comércio, passando pela pecuária, transformando-se em mecenas das artes – o cineasta Silvino Santos veio para cá contratado por ele – para o Amazonas de seu tempo. “Acho que ele foi até maior que os dois porque dominou os segmentos da indústria e do comércio. A Moto Importadora só não vendia armarinho mas chegou a vender aeronaves”, afirma Geraldo Dantas Araújo Filho, 56 anos, cujo pai, Geraldo Dantas, foi sócio de Nathan por 40 anos, até 1982″.
Vale a pena outra transcrição: “Lá pelos anos 1930 ou 1940, Nathan, segundo Geraldinho Dantas, pegou um motor estacionário e colocou eixo e hélice nele, usando-o para movimentar as pequenas canoas dos ribeirinhos. Estava inventado o motor rabeta, hoje amplamente difundido entre os ribeirinhos. “O mesmo motor servia como bomba d’água, gerador e para moer a mandioca, tirando o tucupi, a goma e os outros produtos”, conta Geraldo. Era parte do envolvimento do empresário com o caboclo, que ele conhecia de perto devido à paixão pelas pescarias. O rabeta acelerou a locomoção do ribeirinho, que antes sofria tendo só o remo como alternativa de propulsão, e, além de tudo, é barato, consome pouquíssimo combustível e pode ser usado em qualquer filete d’água, ajudando a enfrentar as secas severas da região. Ainda hoje, passados mais de 70 anos, o modelo permanece o mesmo criado por Nathan”.
Todos os amazonenses da minha idade lembram do grupo Moto Importadora, que foi um gigante na década de 70 do século passado. Dou novamente a palavra a Marcos Santos: “O Grupo Moto Importadora se desenvolveu em todos os segmentos do comércio com as lojas Credilar. Vendia material elétrico, de construção, joias, roupas, material de cozinha, eletroeletrônico, fotográfico e relógios, tendo na vitrine marcas luxuosas, como Audemars Piquet e Patek Philippe, ainda hoje difíceis de encontrar em Manaus. “O grupo vendia até aeronave”, diz Geraldo. Entrou no ramo de automóvel, como dono da Imesa, revendedor da Ford, empresa comprada do (governador) Gilberto Mestrinho, que transformou na maior revendedora de automóveis do Norte do País. As instalações ocupavam o quarteirão que fica em frente ao hospital Eduardo Ribeiro e ao Hemoam, próximo ao estádio Vivaldo Lima.
A Moto Importadora tinha 28 lojas de departamento. A Credilar Teatro, na esquina da Eduardo Ribeiro com José Clemente, foi projetada pelo arquiteto Severiano Porto e recebeu diversos prêmios nacionais de arquitetura. O prédio, gigantesco, todo em madeira de lei, com cada peça identificada, foi descaracterizado pela Caixa Econômica Federal, que tem uma agência no local. Todas as lojas do grupo tinham acima de 3 mil metros quadrados. No auge, a empresa ofereceu 15 mil empregos. Na vertente da construção civil, o Departamento de Engenharia (Denge), contratava mais 5 mil diaristas. Numa época em que não havia tanta insegurança, a Moto Importadora criou sua segurança própria, com mais de 500 homens, comandados por vários coronéis da PM aposentados, conhecidos pelo uniforme de calça azul escuro e camisa azul claro”.
Devo ao Marcos Santos praticamente a autoria deste texto. Ele há de compreender que foi a forma encontrada para dar pelo menos uma pálida ideia da relevância da figura de Nathan Xavier de Albuquerque. Era indispensável frisar a necessidade de que o Amazonas lhe reconheça o grande legado e lhe preste as homenagens a que faz jus. Como bom amazonense, cuido ter cumprido meu dever.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...