Já que o mundo não acabou, o jeito é encarar o novo ano. O que termina não foi lá essas coisas, a começar pelo vexame da seleção de futebol nas Olimpíadas. E ficam no ar as manchetes de que “ainda não foi desta vez”. Pelo visto, parece que não vai ser nunca se contarmos com jogadores milionários, mas pouco interessados na própria profissão, e com dirigentes que não conseguiriam manter funcionando um quiosque de interior.
Tivemos também o julgamento do mensalão. A fogueira das vaidades nunca teve tanto combustível no Supremo Tribunal Federal e uma simples decisão sobre a existência ou não de crimes e sobre seus autores se transformou num “casus belli” em que parecia estar em jogo o próprio destino da Nação. É verdade que, em parte, se tratava disso, na medida em que se cuidava de expurgar eventuais ladrões dos quadros diretivos do País. Nada, porém, que justifique a exacerbada paixão com que a mídia tratou o assunto, criando bolão de apostas sobre expectativas e resultados.
Vinculado ao anterior, houve a denúncia do Delúbio contra Lula. Nada de novo no front porque nem a caridade de Madre Tereza de Calcutá seria capaz de admitir a inocência e a ignorância arguidas e alardeadas pelo ex-presidente. Lula ficou de fora do processo por uma dessas coisas que só acontecem em alguns feitos judiciais, quando interesses mais ou menos escusos, acobertados e protegidos por uma gama de fatores imponderáveis, acabam preponderando sobre a verdade.
O que podemos esperar, portanto, do ano que se vai iniciar? Acredito que nenhuma novidade espetacular se fará presente. A Copa das Confederações vai servir de aperitivo para o torneio mundial e a esperança que a seleção nacional consiga superar o esquema burocrático com que vinha atuando. Mas é preciso conter o otimismo porque, lembremo-nos, Parreira voltou ao esquema e é dele a enigmática afirmativa de que o gol, no futebol, é apenas um detalhe. Como diriam nossos irmãos nordestinos, é um detalhe da moléstia.
Lá para os idos de março os jornais vão começar a noticiar que a meteorologia indica a aproximação da maior seca já vista na região. Daquelas em que sapo perde o rumo porque o brejo secou. Na contrapartida, novembro verá o noticiário do próximo advento de uma cheia capaz de apavorar o Noé, desafiando-lhe a capacidade da arca com muito carinho construída e que, no dilúvio original, teria contado com tantos apartamentos quantos eram os bichos na terra.
A prorrogação dos benefícios fiscais da zona franca é ponto de presença obrigatória em algum momento do ano. Afinal de contas é a oportunidade para que os maiorais lutem encarniçadamente pela paternidade de algo que, com mais de quarenta anos, já devia ter perfeito controle de suas atividades, sabendo, quando nada, caminhar por seus próprios meios. Doce ilusão. Enquanto for moeda política de troca, a zona franca vai continuar sendo o terreno mais fértil para a demonstração de habilidades e virtudes mais ou menos duvidosas, dependendo do produto final.
A Ponte Rio Negro, bem mais jovem, vai completar seus dois aninhos de vida e marchar firme para a adolescência sem que se tenha coragem de admitir que, para administrá-la e para que ela bem funcione, é indispensável o estabelecimento do pedágio, como, aliás, é praxe em qualquer país civilizado. Não aqui, onde infelizmente um paternalismo grosseiro não dá lugar a um enfrentamento da realidade econômica, porque, afinal de contas, a ponte não foi feita para transportar cargas ou pessoas. Apenas votos.
A mais nova irmãzinha da ponte, a Arena da Amazônia, vai continuar em seu processo de gestação para vir à luz, radiosa e gloriosa, no ano de 2014, quando os manauenses poderemos assistir a sensacionais jogos de futebol entre as gloriosas equipes do Qatar e de Gana. Depois, recolher-se-á à incubadora a fim de recobrar energias e poder abrigar um dos mais importantes campeonatos futebolísticos do universo, em que a final será disputada minuto a minuto entre Penarol e Princesa do Solimões.
Até que chegam as Festas e Papai Noel retorna com suas renas eternas para nos dizer que o Natal será de paz e felicidade e que o Ano Novo trará muita tranquilidade. De tanto assistir à repetição, estou quase acreditando.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...