Todos os dias, perfilados, cantávamos o Hino Nacional Brasileiro. No 5 de setembro e também no 7, marchávamos, e, durante vários dias de agosto, marchávamos pelo círculo (pista de piçarra) semiolímpico do complexo desportivo. Lembro também que, daquela turma, na área musical, saíram vários nomes, hoje famosos, das filarmônicas estaduais brasileiras. Tudo acontecia ali…
Certa feita, passados mais de dez anos de nossa formatura, vários perguntavam a mim: por que eu não estava com vocês?
Na Avenida 7 de Setembro, bem em frente à Escola, havia os jogos “taitoramas”, batidos à revelia pelos jovens que tentavam “burlar” a máquina da bolinha prateada, para que ela não passasse incólume entre os batedores, mas, com isso, invariavelmente acontecia o famoso “tilte” e se perdia o jogo. Lembro do Jhonny, mestre neste ludismo. Por lá mesmo no Lanche do Chinês (chinês mesmo, de Hong Kong), quase na esquina da 7 com a Visconde, devorávamos os famosos pastéis feitos na hora, acompanhados com caldo de cana. A moeda da época era o Cruzeiro.
Estudávamos com afinco, mas nos divertíamos quando podíamos. Eram outros os tempos, sem internet, sem nada, em cima dos livros mesmo, na Biblioteca, nas salas, em casa… No meu caso, trabalhador precoce, também, no trabalho, nas horas de folga. Era o tempo em que lanchar nos altos da Lobras (Lojas Brasileiras) era a glória… Certa vez, com meu amigo Christian mais o Vicente, fomos lá, e também na lanchonete da Americanas, primeira “Self Service” da cidade, onde podíamos nós mesmos tirar a Coca-Cola da máquina… Era a glória…
Chegamos a “matar aula” durante alguns dias (chamava-se gazetear), mas logo tivemos que parar, pois não estávamos “aguentando o banzeiro” e as notas começaram a declinar. Naquele tempo, o sistema de notas da ETFA era o de pesos, então, no primeiro bimestre, o peso era um; no segundo, dois; no terceiro três e no quarto quatro. Com um detalhe: lá no quarto bimestre exigia-se o acúmulo de assuntos do ano inteiro e não só daqueles dois meses finais.
As visitas às empresas aconteciam e lembro-me de uma delas à Siderama, hoje não mais existente. Era uma grande indústria de fabricação de Aço, localizada em Manaus. Os cursos técnicos viriam depois e, como disse antes, somente no primeiro ano, nos dividiram. Concomitantemente fazíamos cursos de pinturas (silkscreen) e música, dentre outros, e a Educação Física era puxada… As medalhas dos Jogos Escolares grassavam, também pela competência dos corpos docentes e discentes.
À época havia os bebedouros gigantes, de várias torneiras, todos fabricados em aço inox, e de uma sonoridade espetacular para quem gostava de batucar. E lá estava eu fazendo zoada cadenciada, no ritmo do samba (longe dos olhos e ouvidos do “seo” Oswaldo Machado, o bedel). Lembro-me, anos depois, já no Básico (1º Ano), do Ubiratan (Bira do Parque 10), com seus discursos inflamados, na “hora da merenda”, subindo nos bancos de concreto armado a discursando as reivindicações estudantis. Naquele ano, lancei entre os colegas um livreto, com o pretenso título: “ A História da Arquitetura”. Na base da xerocópia, distribuí cem exemplares, entre estudantes mais chegados e alguns professores. Para fazer este livro, comprei uma máquina datilográfica, batuquei as letras e pus em várias páginas o que já havia manuscrito anteriormente, em várias semanas. Foi um sucesso! Sem contar que até gravuras tinha, feitas por mim mesmo.
Voltando à Creche, lembro-me da professora Márcia, de História, quando ministrava aulas sobre a Grécia Antiga, em cima do livro da Maria Januária Vilela. Numa das primeiras aulas, levantei um dos braços e falei, timidamente:
– Se a senhora quiser, eu faço o mapa da Grécia antiga aí na lousa.
Pra quê? Márcia, olhou-me inquisidoramente, meio pasma. Pensei: “Tô ferrado!”
Qual nada. Ela, mente arejada, falou:
– Pois venha aqui e faça agora!
Não titubeei. Fui lá e desenhei o mapa na lousa verde, meio que tremendo. No final, aplausos da sala e da própria Márcia, que era uma carioca superinteligente e debatedora.
– Muito bem, “seo” Daniel, que maravilha! Estou muito contente.
A partir dali, fiquei conhecido como historiador e geógrafo, já que gostava muito destas disciplinas.
Lembro da professora Dilma Bittencourt, de Inglês, ela, super elegante, que pedia para o Elias Abensur, o Judeu, sair de sala, toda vez que havia prova. Elias sabia tudo da língua de Shakespeare e só tirava a nota máxima. Na hora da chamada, era o único que dizia: “here”, aqui, em vez do tradicional, “Presente”, que falávamos nós, pobres mortais. À época, pouca gente se metia a estudar pra valer essa língua dominante.
Pois é… Pulávamos o muro que dá para o lado da Rua Duque de Caxias para assistir aula. Sim, quando chegávamos atrasados e o portão fechava… Outros tempos…
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* Daniel Sales é pesquisador cultural.