Ser o principal gestor de uma cidade não é uma tarefa fácil, especialmente quando a sociedade ainda não amadureceu o suficiente para compreender o seu papel cidadã, como na realidade brasileira.
O maior desafio, talvez, seja montar a equipe de governo. Essa atividade exige conhecimento e capacidade de liderança de modo a conciliar interesses, mas privilegiar a meritocracia (coisa rara no meio), pois o foco deve ser os melhores resultados.
Definir prioridades é outra demanda tão importante quanto desgastante, mas há de merecer toda atenção, pois é a atividade que caracteriza a essência da gestão. A dificuldade nasce quando os interesses coletivos se chocam com os interesses individuais, conflito comum nas sociedades periféricas, onde a preocupação da grande maioria está no bem estar individual e a do gestor, por obrigação, no coletivo.
Nesse sentido, a educação de qualidade é privilegiada, pois todos a querem. Não gera conflito, pois é consenso nacional, embora as ações muitas vezes sigam caminhos opostos. Trata-se de um bem coletivo, pois, promove o desenvolvimento das dimensões política, cultural, econômica e social, mas, ao mesmo tempo é um bem individual como fator preponderante na mobilidade social de cada cidadão em particular. Cresce a sociedade e cresce o indivíduo, o que faz dela o principal legado que um gestor público pode deixar à sua comunidade.
Mesmo com essas credenciais, a educação brasileira não tem sido a primeira na lista das prioridades. O quadro que os prefeitos eleitos receberão dos seus antecessores, seja de município rico ou pobre, será muito parecido com o de quatro anos atrás. Não houve avanços significativos, confirmando a tese de que a qualidade da educação não é, necessariamente, uma questão financeira.
Veja-se, por exemplo, o caso da cidade de Manaus, que em dois rankings tem posições diametralmente opostas. No ranking do PIB (Produto Interno Bruto) é uma das primeiras do Brasil. Já a medição feita pelo IDEB (Índice do Desenvolvimento da Educação Básica) a classifica como uma das últimas.
Nas melhores escolas particulares, a média para progressão é sete. Por esse critério, nenhuma escola pública do Município de Manaus seria aprovada segundo o IDEB. E mesmo com a média cinco, o desastre ainda é grande, pois apenas 15 (quinze) das cerca de 450 existentes seriam aprovadas. Até mesmo algumas escolas dos pobres municípios de Beruri, Itamarati, Boca do Acre, Careiro, Maués, Eirunepé, Fonte Boa, Novo Airão, entre outros, obtiveram melhor classificação.
É do ensino básico que depende uma formação educacional sólida, que permitirá às crianças evoluírem com segurança e bom desempenho nos ensinos médio e superior garantindo espaços nesse mundo altamente competitivo.
Nossos governantes municipais, Brasil a fora, parecem ignorar essa lógica e preferem desviar o foco dessa fase do ensino para, em busca do sucesso eleitoral, enveredar em programas que privilegiam o nível superior, como, aliás, faz o governo central.
Manaus cabe muito bem nesse exemplo. Como comprova o IDEB, não cumpre bem o seu papel no ensino que, constitucionalmente, é da sua responsabilidade, mas se atreve a patrocinar bolsas de estudo para faculdades, todas elas classificadas no ranking nacional entre as piores do Brasil.
Essa atitude poderia ser tolerada se fosse atrelada a programas de desenvolvimento do município capazes de trazer ganhos coletivos. Mas, são aleatórios e casuísticos e mesmo os ganhos individuais são mínimos, pois os alunos saem desses programas preparados para o nada.
Essa lógica perversa não sofre qualquer reação da sociedade, pois, quem poderia fazê-la por consciência, tem capacidade financeira para mandar os seus filhos para a escola particular, onde imaginam que se darão bem. Os grandes prejudicados são os filhos dos pobres e estes não protestam. Estão absolutamente satisfeitos com o fato dos seus filhos frequentarem uma escola, oportunidade que muitos deles não tiveram.
E assim o horizonte das crianças vai ficando cada vez mais incerto. Todos sabem disto, mas prefere-se o malabarismo para conquistar ou permanecer no poder, onde uma das “máximas” da gestão, segundo a qual “Quem faz o que não deve deixa de fazer o que deve” é de uso máximo.
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* Francisco R. Cruz é empresário e trabalhou muitos anos na área de tecnologia e, entre 2001 e 20...