Policiais civis do Grupo Fera (Força Especial de Resgate e Assalto) desenvolvem há um ano e meio um projeto social no no bairro Cidade Nova, zona norte de Manaus, por meio do qual ensinam crianças e adolescentes a lutar jiu-jítsu. A iniciativa afasta os jovens das ruas, de situações de risco e prepara verdadeiros atletas. Os primeiros talentos começam a despontar nas competições. É o caso dos campeões Micael Galvão, 8, Brenda Larissa, 13, Yuri Trindade, 16, e Samyr Galvão, 12.
O quarteto amazonense chegou mais uma vez ao pódio no Mundial de Jiu-Jítsu, realizado no final de julho em São Paulo pela Confederação Brasileira de Jiu-Jítsu Esportivo (CBJJE), laureado pela capacidade esportiva e de superação de desafios. O lutador Yuri Trindade conta com modéstia suas conquistas e aposta em um futuro promissor. “Participar de um campeonato já é uma vitória. Eu não esperava ganhar, mas estou agora com minha medalha no peito e pretendo continuar assim, vencendo mais lutas. Por isso, estou treinando muito”, comentou o campeão mundial na categoria Juvenil.
Com um sorriso indisfarçável no rosto por ter conquistado uma medalha, o pequeno Micael Galvão, de 8 anos, parece ter se acostumado com o pódio. O talento é de família. A irmã, Samyr Galvão, seguiu os passos do irmão mais novo e também acumula importantes títulos e no Mundial ficou com a prata na categoria Infanto-Juvenil (pesadíssima).
Micael começou a treinar aos quatro anos de idade e já obteve outras duas importantes vitórias. No Mundial, ele lutou com crianças mais velhas, na faixa dos 12 anos, por não ter ninguém da sua idade na competição. Fez bonito e levou o bronze na modalidade infantil. Pensa no futuro no esporte e sonha em ser lutador de Mixed Martial Arts (MMA), seguindo o mesmo caminho de astros da modalidade, como o amazonense José Aldo e Anderson Silva. “Quero ser lutador de UFC”, disse.
Integração com a comunidade – A trajetória vitoriosa no tatame é um estímulo para os demais jovens que participam do Feras do Jiu-Jítsu. Apostando no esporte, o projeto envolve a comunidade. A academia funciona de forma improvisada na laje da casa de um morador. Nas aulas com os policiais civis do grupo Fera, além de aprenderem a lutar, recebem palestras com especialistas para conhecer os riscos do uso de drogas e outros problemas sociais. Para participar das competições, eles contam com o apoio Governo do Amazonas.
Atualmente, 60 crianças e adolescentes participam todas as noites dos treinos e sonham em ter o nome na galeria dos melhores do esporte. O estudante Alefe Junior, 17, é um deles. O adolescente mora no bairro Nova Cidade, a cerca de meia hora de ônibus do local onde as aulas são oferecidas, e é um dos mais assíduos. O esforço é com um objetivo claro. “Ganhar muito título. Todo dia a gente treina. Volto cansado para casa, tanto que até fico com olheiras, mas vale a pena. Aqui é muito bom. É uma oportunidade de fazer esporte, que é uma paixão”.
Perseverança – No caminho até a vitória, determinação é fundamental. Hoje campeã, Brenda Larissa lembra que quase abandonou a luta antes de conhecer o projeto. Ela treinava em outra academia, mas não tinha mais como pagar para fazer as aulas. “Parei porque não tinha dinheiro para pagar a mensalidade, nem as inscrições para competir. Fiquei muito triste. Foi quando eu conheci o projeto, através de uns amigos, e hoje eu treino todo dia”, contou a campeã mundial infanto juvenil.
Incentivador do projeto, o morador Fernando Araújo cedeu o terraço de sua casa para as aulas. O filho dele participa, mas Araújo diz que sua maior batalha é para que os jovens do conjunto enxerguem que através do esporte é possível conquistar uma vida melhor. “Isso faz com que a pessoa saia do lado negativo, do lado das drogas e outras coisas ruins que estão acontecendo. Ajuda a pessoa a ter o estímulo devido, para estudar acima de tudo, e se sentir um esportista. É uma ação que faz a criança e o adolescente se sentirem revigorados no seu dia a dia”, frisou.
Prevenção – Para o investigador Jonas Santos, do Grupo Fera, com o projeto que é desenvolvido pelos policiais, a Polícia Civil atua na importante esfera da prevenção, oferecendo alternativas aos jovens de bairros cercados pela violência.
“A Polícia tem o dever de mostrar o outro lado. Não só reprimir a contravenção, a criminalidade, mas mostrar aos jovens e crianças um caminho correto de seguir. A maioria dos nossos alunos são crianças carentes. Algumas vêm de longe, fazem um esforço enorme para estar aqui. O olhar delas de agradecimento é algo que não tem preço. É uma renovação que nos deixa convictos da importância desse trabalho”.
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