O texto a seguir, por incrível que pareça, foi escrito há oito anos, logo depois das Olimpíadas de Atenas. Mudaram as personagens, cambiaram as perspectivas, só não houve alteração fundamental na postura de nosso país, que continuou a exibir um imenso ridículo no quadro geral de medalhas nos Jogos de Londres. Resolvi transcrevê-lo porque outra coisa também não mudou: meu sentimento nacionalista e o profundo orgulho que tenho de ser brasileiro. E, consequentemente, permanece intacta minha revolta com o desprezo como somos tratados por sucessivos governos, incapazes de respeitar a própria Nação. Um pouco de seriedade não faria mal a ninguém. Aqui, na nossa casa, teremos obrigação de operar um milagre.
“Admitindo, num cálculo por baixo, que o país tenha oitenta milhões de jovens em idade apropriada para a prática de diversos esportes, o que vimos durante as duas últimas semanas é motivo de vergonha e revolta.
Para um evento do porte dos Jogos Olímpicos, o Brasil vai pirangar medalhas, esperando que elas surjam daqui e dacolá, ao sabor da sorte. Fazemos o papel do pedinte, cuja sobrevivência depende da caridade alheia, capaz de proporcionar a queda, na bacia das almas, de míseros e parcos vinténs.
Onde está a nossa juventude? Será que nesta terra gigantesca ninguém é capaz de aprender a nadar, saltar de trampolins, lançar dardos e martelos, correr, pular, andar de bicicleta, lutar judô e esgrima?
Ou será que a crença na divindade chegou a ponto de esperar que só os ungidos tenham o privilégio de competir por medalhas, na medida em que tais forças sobrenaturais os guiam e protegem?
Ganhar medalha de ouro há de ser, sempre, motivo de orgulho e alegria. Entre nós, porém, esse feito, que se há de inserir dentro de previsível rotina pela própria estrutura e destinação dos jogos, toma dimensões hercúleas, exigindo fanfarras e carros de bombeiros para receber no solo pátrio os que, na roleta em que se envolveram, tiveram o privilégio de serem aquinhoados pela álea.
Nas condições postas, acho até que não é para menos. Há um matiz de indiscutível heroísmo na coragem de representar um país que deixa seus atletas ao léu, numa espécie de cada um por si, de tal maneira que os que disputam e os que torcemos temos todos em comum a sensação do abandono, impondo-nos vislumbrar a medalha, qualquer que ela seja, como um refúgio, ainda que temporário, no mar revolto que nos envolve aos brasileiros.
O sonho de Daiana se esboroou no solo. Na areia quente se desmanchou a esperança de Adriana e Shelda. No duro concreto se desfez o desejo das comandadas da bela Érica. Na grama, qual inseto, perdeu-se a ilusão das companheiras da não tão bela Formiga.
Tudo seria normal, fôssemos nós uma normalidade dentro das Olimpíadas.
Acontece que não somos. Somos quase duzentos milhões de patriotas empedernidos, a torcer por um Brasil que não se prepara e não se cuida.
E queríamos sediar os Jogos! Como e para que? Só se fosse para passarmos vergonha dentro de casa, consolo que nem ele restaria, sabido que a mídia tomaria para si o encargo de mostrar o quanto somos manquitolas em termos de esportes olímpicos.
Vergonha por vergonha, temos mesmo é que tê-la na cara, até compreendermos que sem planejamento, sem dinheiro, sem patrocínio, sem vontade governamental, sem treinamento, sem esforço, sem instalações apropriadas, continuaremos a ser, sem embargo da extensão física, esse anão subdesenvolvido que estende o pavilhão auriverde nas arquibancadas para, depois, recolhê-lo à socapa.
O que sofri (sofremos todos, cuido eu) me impõe e justifica o desabafo. Chega de brincadeira. Pequim vem aí e, antes, temos o Pan-Americano de 2007. Que o Ministério dos Esportes saia da burocracia e caia na realidade. Sofrer faz parte da vida de quem torce. Sofrer demais já é dos domínios da patologia”.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...