As máquinas foram inventadas para facilitar a vida dos homens. Desde a revolução industrial, iniciada na Inglaterra em meados do século XVIII, os trabalhadores vêm se servindo delas para a redução da intensidade da força física aplicada às tarefas empreendidas, antes atribuídas às ferramentas e às exigências musculares dos trabalhadores. Na teoria, essa seria a função principal das engenhocas criadas para dinamizar a indústria que viria a se desenvolver a partir dessa época.
Séculos depois, inventaram o Distrito Industrial do Amazonas, com o objetivo de dinamizar o desenvolvimento da indústria na região, levando a força de trabalho ociosa, oriunda dos portos de lenha, para as dinâmicas linhas de montagem das reluzentes indústrias vindas do Sul e de fora do País. Em poucas décadas, no entanto, as próprias indústrias conseguiram diluir a teoria da Revolução Industrial e transformar o conceito de eficiência mecânica em ferramenta de risco e de morte para os trabalhadores do Estado. As estatísticas são preocupantes: o Distrito Industrial do Amazonas vem mantendo índices crescentes de acidentes de trabalho, inclusive com alguns deles fatais.
A epopéia da oferta de mão de obra e as inúmeras vagas nas linhas de montagens transformaram o comércio, a cidade, o Estado em pólo de desenvolvimento. Até aí, continuamos aplaudindo e defendendo o modelo Zona Franca de Manaus, mas batemos de frente no que diz respeito à falta de cuidados com a segurança, a saúde e a alimentação do trabalhador. Nesses quesitos, o Sindicato dos Metalúrgicos tem sido sistemático e exigente. Vem acionando o Ministério Público do Trabalho para que faça a revisão periódica das máquinas, vem mostrando a insuficiência de calorias na alimentação servidas nos restaurantes das empresas, tem exigido que as empresas sejam mais transparentes ao apresentarem o novo PPA (Plano Plurianual), e que as engenharias de produção não alterem os resultados.
Os acidentes de trabalho, na maior parte das vezes, acontecem por negligência das empresas, que não cumprem as normas de segurança e não agem preventivamente. Os ambulatórios médicos das indústrias não têm ambulâncias, médicos e enfermeiros suficientes. Tem polícia, mas falta estrutura de saúde e, com isso, obriga o trabalhador a recorrer ao atendimento mais fácil: o Hospital João Lúcio. Ou seja, a responsabilidade das empresas está recaindo sobre o Estado, que já contribui com incentivos e redução de impostos, mas, também não fiscaliza. Por conta disso, os acidentes de trabalho aumentaram mais de 50% de 2010 para 2011.
O recente falecimento do trabalhador Valdemir Correa da Silva, na fábrica FCC, esmagado por uma máquina sem manutenção, suscitou a discussão sobre o tema. Mas, não é só o acidente fatal que reacendeu a nossa indignação, também, as sucessivas denúncias de novos casos de doenças ocupacionais e, o que é pior, a demissão de trabalhadores acometidos por problema de saúde, adquirido nas fábricas onde trabalham. Nós, do Sindicato dos Metalúrgicos, não vamos aceitar o desleixo da fiscalização do trabalho nas empresas do Distrito Industrial. Não temos o poder de punir, mas podemos exigir das autoridades competentes o fiel cumprimento das normas de proteção ao trabalho e acompanhar “in loco” a execução da fiscalização.
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* Valdemir Santana é presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas.