“Um país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência; muda sim pela sua cultura”.
Herbert José de Souza (Betinho).
Dados de análise realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, órgão do governo federal, apontam que na última década mais de 30 milhões de brasileiros ascenderam à chamada classe média. Esse crescimento do percentual de famílias que recebem entre 1 mil e 4 mil reais mensais deve-se, em grande medida, a forte política de distribuição de renda aliada a retomada do crescimento econômico do pais e o consequente aumento do poder de consumo dessas famílias.
Entretanto, embora o Brasil tenha logrado êxito em melhorar os níveis de renda, escolaridade e estabilidade política e financeira, por que as classes tidas como mais esclarecidas aceitam determinadas práticas de mercado e de governo que desconsideram esses avanços?
A inércia e a passividade diante das astronômicas taxas de juros praticadas no país são um péssimo exemplo da falta de senso crítico da classe média brasileira. Nos anos oitenta (a década perdida) era aceitável a resignação diante do alto custo do dinheiro, afinal a inflação era um monstro incontrolável, a cena política turbulenta, renda muito baixa e praticamente não havia classe média consistente – isso sem falar no baixo nível de informações da população.
Mas com o atual cenário nacional é inacreditável concordar em adquirir por R$ 67.000,00 um carro que nos Estado Unidos custaria R$ 25.000,00. Se a compra do mesmo bem for financiada a taxas de juros correntes que chegam a 1,8% ao mês em nosso país, o custo efetivo total da aquisição pode equivaler à compra de quatro veículos nos EUA. Isso mesmo, quatro veículos!
Não fosse apenas isso, ainda aceitamos uma carga tributária de trinta e oito por cento sobre o PIB (a soma de todas as riquezas produzidas no país). Ao adquirir um automóvel, o brasileiro desembolsa cerca de 30% do valor do bem só em impostos embutidos no preço, enquanto o francês pagaria 15% e o americano 6%.
Em suma, no Brasil os juros e os impostos sobre o consumo são exorbitantes e retiram do trabalhador boa parcela de seu suor e de sua renda. E o que fazemos ao contrário de pressionar o Governo a tomar decisões e corrigir esse absurdo? Depositamos nosso “poder de compra” no bolso e vamos correndo trocar de carro.
Não custa lembrar que o mesmo raciocínio vale também para a aquisição da casa própria, financiamento da educação superior ou compra de um televisor. Se de fato a nova classe média brasileira almeja viver em um país mais justo (mesmo que seja para seus filhos e netos) precisamos de urgente reeducação financeira e mobilização social e política.
Veja mais notícias em Colunas
* Júnior Brasil é Perito em Contabilidade e Finanças, especialista em administração Pública e Mes...