O trânsito, mais do que simples deslocamento de pessoas e veículos sobre determinados espaços, representa parte da dinâmica da metrópole e da vida de seus moradores. Na verdade, os deslocamentos de veículos e pessoas se relacionam a certas características socioeconômicas (idade, renda, local de moradia, de trabalho, de estudos etc.), e, também, a uma disputa pelo espaço protagonizada por agentes políticos que desempenham papéis transitórios (pedestres, passageiros, motoristas etc.).
Propor um novo modelo de mobilidade urbana representa, antes de tudo, priorizar um transporte público de qualidade integrado ao ecossistema ambiental e comprometido com o desenvolvimento da cidade. Reduzir congestionamentos, aumentar satisfação, minimizar os males gerados pelo modelo são fundamentais para a modernidade que se alardeia.
O desgaste psicológico e emocional, a perda de tempo e os prejuízos financeiros explicam toda a ansiedade e irritação da população e a preocupação dos gestores públicos. O crescimento urbano desordenado e a falta de planejamento estratégico estão na origem desse complexo problema e devem ser considerados para que se atinjam soluções satisfatórias e duradouras.
Novas políticas públicas para o aperfeiçoamento do transporte coletivo público são medidas imprescindíveis para a solução do problema dos grandes congestionamentos. O ordenamento dos espaços urbanos, por meio de políticas públicas eficientes, deve ser acompanhada da atuação das empresas de transporte coletivo para que cumpram sua missão. A governança, deve cumprir o seu papel na seriedade e compromisso no enfrentamento dessa delicada questão.
As soluções contemplam fundamentalmente a oferta de transporte coletivo urbano de qualidade com a adoção de novos projetos, como o de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), metrôs de superfície, melhoria dos serviços de ônibus com novos espaços de circulação e a utilização em maior escala do BRT (os chamados ônibus de trânsito rápido), entre outras soluções.
Um transporte público mais rápido e eficiente é mais atraente à utilização do passageiro e um grande estímulo para que mantenha seu carro em casa. Para a Confederação Nacional dos Transportes, não há como pensar em mobilidade urbana e diminuição do caos no trânsito sem políticas de incentivo ao transporte público coletivo.
Nesse contexto, vale a pena conhecer as Considerações finais da pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa a Economia Aplicada (Ipea) e Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) de maio de 2011 sobre Mobilidade Urbana e as opções de transporte mais interessantes. O estudo mostra a percepção que os usuários de diferentes tipos de transporte (carro, transporte público, bicicleta, a pé) têm sobre a mobilidade urbana. A pesquisa revela as respostas dos entrevistados sobre os meios de transportes mais usados nas regiões metropolitanas e não metropolitanas, nas capitais e não capitais, os motivos principais para a escolha do meio de transporte e as condições apontadas por quem não usa transporte público para utilizá-lo.
“A tentativa de agrupar as percepções por tipo de transporte mais utilizado justifica-se por possibilitar políticas diferenciadas em cada caso. Ainda que muitas vezes a percepção social possa ser usada como apoio na definição da alocação de recursos para planejamento, gestão e infraestrutura, por vezes é necessário atuar de forma a esclarecer a população quanto aos seus serviços. Seja por garantir o direito à informação, seja por possibilitar que a população conheça as formas de acessar o serviço/política, seja por permitir que existam parâmetros de comparação na escolha das formas de deslocamento. Aprofundar essa análise e relacioná-la com as demais dimensões abordadas nas entrevistas faz parte do aprimoramento constante do Sips (Sistema de Indicadores de Percepção Social) .
Percebeu-se uma preocupação geral com a rapidez, o preço e disponibilidade do transporte. Todas elas tendem a justificar investimentos em corredores de ônibus e metrôs aliados a políticas tarifárias que permitam ampliar o número de usuários de Tranporte Publico num cenário em que se reduz o tempo de viagem ao mesmo tempo em que são incluídas mais pessoas no sistema. Na constante evolução do Sips, pretende-se incluir questões quanto ao que levou o entrevistado a trocar de modo de transporte, caso isso tenha ocorrido, e de que forma ele soluciona o obstáculo financeiro de acesso a ele. Se por um lado a rapidez, a disponibilidade e o menor custo foram características recorrentemente citadas de forma explícita pelos entrevistados, com base nas formas de captar a percepção e nos resultados apresentados, foram observados fortes indícios entre as diferenças entre as percepções sociais por usuários de cada tipo de transporte. A diferença de percepção da segurança entre os usuários de automóveis e os de Transporte Público pode revelar também um aspecto importante de atuação pública. Nesse ponto específico, percebeu-se que a sensação de segurança dos passageiros de Transporte Publico apresenta maior rebatimento prático na falta de segurança (viária e pública) do que a percepção dos usuários de carro.
A população precisa ser esclarecida quanto às características de cada modo de transporte em suas respectivas cidades. Além de ter direito a escolha do meio de transporte que quiser utilizar, a população tem que ter acesso à informação para poder realizar esta escolha dentro dos critérios que considerar mais relevante. Quais as vantagens e desvantagens de cada modo? Qual deles é o mais rápido para o trajeto e destino desejado? Qual é o mais barato (incluindo todos os gastos a eles vinculados? Quem paga por estes gastos? Será que o serviço está mesmo indisponível ou não se tem acesso à informação sobre ele? Apesar da sensação de segurança constatada pelo usuário do transporte individual, utilizar o automóvel é de fato mais seguro?
Essas constatações e dúvidas observadas pelo Sips-Mobilidade Urbana devem ser investigadas de forma mais profunda de modo a revelar algo que supere a percepção. Essa pesquisa em conjunto com outras devem apoiar ações públicas ao identificar que, além dos investimentos em infraestrutura e serviços essenciais, o poder público deve entender de que forma a população percebe o desenvolvimento urbano para tornar mais efetivo o seu resultado.” Ipea/Sips 2011. 2ª. Edição.
A mobilidade urbana será tão efetiva quanto efetiva for a mobilidade estratégica de governantes, parceiros, usuários e outros atores desse Sistema.
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Ozeneide Casanova Nogueira é advogada e assistente social, com MBA em Gestão de Pessoas (FGV-ISA...