Aprendi esta semana que os sete tipos de câncer com maior incidência no país são os seguintes: pele não melanoma, próstata, mama, cólon e reto, pulmão, estômago e colo de útero. Nenhuma curiosidade científica me moveu para aquisição desse conhecimento sinistro. Isso fica a cargo do meu irmão, doutor Raymundo Valois, que tem uma vida dedicada à radioterapia, ali no CECON. Mas tive que aprender para ficar igualmente sabendo a quantas andam as políticas públicas de saúde em setor de tamanha relevância.
E aí a coisa foi um descalabro, que seria risível se não fosse trágico. O governo passou anos seguidos extorquindo o contribuinte com a cobrança daquele monstrengo chamado Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, a malsinada CPMF, que faleceu mas não perde as esperanças de ressurgir para a vida eterna, pelo menos de acordo com as preces e atos dos cretinos de plantão. Pois muito que bem. Apesar da dinheirama arrecadada, um usuário do SUS passa mais de três meses para conseguir se submeter à primeira sessão de radioterapia.
O sistema deve ter informações seguras sobre os limites de paciência de cada câncer. Afinal de contas, noventa dias representam apenas o tempo anual de que dispõem os nossos parlamentares para gozo de merecidas férias. Aguarde aí e não se apresse, porque a pressa é inimiga da perfeição. Há de chegar o dia em que você será atendido. Será que vai chegar mesmo? Nada é tão certo assim. Dos que necessitam de tratamento radioterápico, somente sessenta e cinco por cento são acolhidos e atendidos pela rede pública. E os outros quarenta e cinco por cento? Devem morrer ou encontrar fórmula milagrosa que enseje um processo de cura espontânea, coisa que, por certo, há de estar no cerne das preocupações dos cientistas governamentais.
Otimista por natureza, fui à cata de coisas melhores. Perdi tempo. O panorama se mostrou cada vez mais embaçado, com nuvens e trovoadas à minha espera. Assim é que fiz um pouso por instrumentos no território das cirurgias oncológicas. Era melhor nem ter desembarcado. A recepcionista do SUS, muito solícita, informou que “infelizmente” apenas quarenta e seis por cento das pessoas com esse tipo de necessidade logram a vitória olímpica do atendimento. Mas isso nem é de estranhar. O sistema todo, em junho deste ano, possuía duzentos e sessenta e quatro centros de atendimento, enquanto a sensatez indica que seriam necessários pelo menos trezentos e setenta e cinco.
Não há CPMF que ponha cobro a essa vergonha. Se no aspecto de atendimento e instalações assim caminha a humanidade, no plano de pessoal tudo é a cara do menosprezo e da desfaçatez. Um médico, cuja formação profissional dura no mínimo dez anos, tem, no Sistema Único de Saúde, um piso salarial de dois mil e oitocentos reais! Chico Anísio diria: “É mentira, Terta”. Mas não é não. Com todas as razões do mundo, os médicos foram à greve para sustentar a reivindicação de um piso de nove mil e cento e oitenta e oito reais. O governo fez ouvido de mercador e os profissionais continuam submetidos a um salário indigno e aviltante.
Satisfaço a natural curiosidade: as informações sobre o sistema foram todas obtidas em relatório de auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da União, conforme publicação do jornal O Globo. Se o TCU, que faz parte da grande família administrativa federal, diz isso, imagine as conclusões de um analista independente. Que o câncer passe bem longe de nós. Ao SUS ele já corroeu por completo.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...