Os historiadores concordam em que não é raro o fenômeno da superposição de épocas que marcam o desenvolvimento da Humanidade. Algumas comunidades já tinham evoluído do cobre para a fundição do bronze, enquanto outras ainda apresentavam as características do período paleolítico, num mundo em que as comunicações não eram o forte.
Sem tentar penetrar nessa ciência de compreender e explicar o passado, veio-me a ideia de que a rua Leonardo Malcher da minha infância pode ser considerada um caso típico dessa ocorrência. Explico-me. O mundo já estava na era atômica, tanto que se haviam cometido os genocídios de Hiroshima e Nagasaki. Ali naquele canto de Manaus, próximo ao igarapé de São Raimundo, mal sabíamos o que era luz elétrica. O candeeiro ou a vela eram os instrumentos que buscavam aplacar a escuridão noturna e às suas fracas chamas fazíamos as tarefas escolares. Banho se tomava com a água gélida de um camburão, obtida, muitas vezes, das cacimbas que existiam no fundo dos quintais, enquanto os vasos sanitários (onde havia) eram esvaziados com o despejar de baldes.
Na religião era absoluto o predomínio da Igreja Católica e não havia menino que não tivesse orgulho de ostentar a fita amarela da Cruzada Eucarística ou de ajudar à missa celebrada por padre Leão, na igrejinha de N.S. do Perpétuo Socorro.
Num ambiente medieval desses era inevitável que as mais variadas superstições encontrassem campo fértil. Assim é que tínhamos pavor da mulher que, à noite, virava porca. Esse não era um apanágio da minha rua. Muitas outras tinham seus exemplares desses seres capazes de mutação. No nosso caso, a escolhida era dona Benta, uma senhora da raça negra, razoavelmente avançada nos anos e com uma clara tendência para a obesidade. Morava só, em modesta casa de madeira, nos fundos de um terreno, repleto de árvores e animais domésticos. Nunca fez mal a ninguém e, conquanto reclusa a maior parte do tempo, era de agradável convivência. Mas virava porca e tanto bastava para despertar os nossos pavores, como se toda a coorte infernal tivesse vindo ali habitar.
Deu-se que Zezinho, um curumim de dez ou onze anos, foi com os pais ao cemitério de São João Batista, no dia de finados, prestar homenagem aos seus ancestrais. Lá, desabou um temporal desses que só se veem em Manaus. Era perto das seis da tarde e foi tanta água que, na confusão, o menino se perdeu. Depois de algum tempo, desistiu de encontrar os maiores e, como era safo, empreendeu a pé o caminho de volta. Desceu o Boulevard, dobrou à esquerda na João Coelho (hoje apelidada de Constantino Nery) e seguiu até o antigo Olímpico, quando tornou à direita para descer a Leonardo.
O relógio se encaminhava para as oito. Afora os cachorros, a rua estava deserta e a única iluminação eram os frágeis raios de uma lua crescente entre as pesadas nuvens. Eis senão quando, em frente à casa de dona Benta, um suíno avantajado vem saindo. A criança estatelou. Fez o sinal da cruz, lembrou-se de todos os santos de sua devoção, enquanto implorava: “Dona Bentinha de minh’alma, eu nunca mais vou dizer que a senhora vira porca”. O animal não lhe deu a mínima atenção e seguiu modorrento para o que fosse de sua obrigação porcal. O moleque passou sebo nas canelas
Anos depois, rimos da presepada. Mas Zezinho me disse que adotou o hábito judeu de não comer carne de porco. E arrematou: “Sei lá. Às vezes tenho minhas dúvidas”.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...