Ontem (24) fez cinquenta e sete anos que Getúlio Vargas deu um tiro no próprio peito, em pleno Palácio do Catete, aprofundando uma crise que só iria amenizar em 1956 com a posse de Juscelino Kubitschek. Hoje, é aniversário de cinquenta anos da renúncia de Jânio Quadros à Presidência, episódio imediatamente ensejador da “cadeia da legalidade”, movimento liderado por Leonel Brizola para garantir a assunção de João Goulart. Tudo prenúncio do golpe ocorrido menos de três anos depois e que implantou num país uma ditadura militar, responsável por duas décadas de regime de exceção, no qual a pedra de toque foi o desrespeito às mais comezinhas normas de convivência civilizada, destacando-se a generalizada prática da tortura.
Nem a propósito, recebo e-mail do ilustre jornalista Célio Antunes que, tecendo considerações sobre a atual situação brasileira, pondera literalmente o seguinte: “a) Será que o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim de fato expressava seu próprio pensamento, ou apenas retransmitia “recado” dos militares?
b) Ninguém, é claro, fala abertamente, mas a dureza como a mídia, ou parte dela, vem tratando o governo/crise, não parece muito com a tentativa de criar um clima para instalação de golpe?
Tudo lembra um pouco o comportamento de 54 contra Getúlio. Ou não é nada disso?”
A lhaneza e a inteligência do interlocutor tornam sempre agradável um diálogo com Célio Antunes. Mas, francamente, acho que desta vez ele me superestimou, já que, como é óbvio, estou longe de ter capacidade para fazer uma análise com a profundidade da que ele sugere. Afinal de contas, não sou cientista político e sinto as coisas do meu país apenas como cidadão e, na medida do possível, exerço o meu direito de opinião, apesar das operações policiais televisivas e abusivas, hoje comuns num estado que se pretende democrático.
Não sei, portanto, se o doutor Nelson Jobim agiu como porta-voz dos militares. Estes, parece, têm dispensado a intermediação, como demonstra o ato religioso que estão mandando celebrar no Rio de Janeiro, em homenagem a seus colegas “vítimas de ações terroristas”. Salvo engano, não pode haver mensagem mais clara de rebeldia contra a ordem estabelecida, até porque revela canhestra visão de um período de nossa história, cuja prova documental ainda permanece sob sigilo. Parece mentira.
Prepara-se um golpe? Também não sei. Posso apenas dizer que torço pela negativa de maneira aberta, sincera e profunda, até porque, se não o fizesse, estaria jogando no lixo uma história de vida que faço questão de deixar imaculada para meus filhos e netos. O golpista é por definição um dissimulado e, utilizando a simetria da diferença entre terrorista e revolucionário, é indiscutível que na primeira categoria estaria situado o que trama nos bastidores contra as instituições, por puro inconformismo contra o não atendimento de interesses menores dessa ou daquela categoria.
Simploriamente é o que posso dizer. E complemento afirmando com muita convicção: por pior que seja o atual governo, tomara que sejam infundadas as preocupações do jornalista.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...