Marcos Santos, Manaus – O Garantido pode entrar em 2012 com o controle das dívidas que atormentaram o bumbá nos últimos anos, legadas pelas administrações dos ex-presidentes Antonio Andrade e Vicente Matos. “Pagamos R$ 3 milhões, nos dois últimos anos”, desabafou o presidente do bumbá, Telo Pinto, em entrevista coletiva, antes do Festival. Por conta desses valores altos, o Garantido perdeu um galpão da Cidade Garantido e um patrimônio de valor inestimável, o “curral antigo”, onde Lindolfo Monteverde fundou o bumbá. Ambos já foram recuperados.
O vice-presidente do Garantido, Marco Aurélio Medeiros, conta que a dívida do bumbá, feita ainda na administração Antonio Andrade, de R$ 400 mil, com a fornecedora de materiais para adereços Casa Pinto, do Rio de Janeiro, se avolumou a juros de 10% ao mês, foi paga parcialmente pelo ex-presidente José Walmir (“Com cadeira, camarote e parte em dinheiro”) e só agora o bumbá conseguiu negociá-la.
O curral antigo teve o penhor pago e foram investidos mais R$ 250 mil para recuperá-lo. Além disso, havia dívidas de R$ 150 mil só com a Eletrobras Amazonas Energia, já sanadas. “Ano que vem vamos fazer todos os ensaios técnicos no curralzinho”, garante o vice-presidente.
Galpão recomprado
Outra dívida sanada pelo Garantido diz respeito a um dos principais galpões da Cidade Garantido, segundo Marco Aurélio. “O Vicente Matos (ex-presidente) tinha uma dívida de R$ 94 mil que se tornou, da noite para o dia, nos R$ 325 mil que nós pagamos. Sem qualquer contestação judicial, sem qualquer recurso à Justiça, ele entregou o galpão, de papel passado, para um empresário local. Nós tivemos que recomprá-lo agora ou teríamos dificuldades de colocar o bumbá na Arena. A última parcela vence amanhã (28/06)”, disse.
A atual administração do Garantido ainda faz esforço extra para cumprir Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho. “A Cidade Garantido agora tem sirene de alarme de incêndio, rota de fuga, refrigeração, ventilação e refeitório. Nossos artistas comiam no chão”, conta.
Aurélio, irmão do amo do boi e deputado estadual, Toni Medeiros, assim como do vice-prefeito de Parintins, Messias Cursino, afirma que o Garantido ainda precisa pagar uma parte do pessoal e fornecedores, mas que terminará o ano com R$ 150 mil no caixa. “É quase um milagre, para quem só tinha dívidas, embora ainda tenhamos coisas como direitos autorais e de arena de Chico da Silva e Emerson Maia (compositores), mas tudo está escalonado. Em quatro anos pagaremos tudo e esse negócio de penhorar galpão já acabou”, enfatiza.
Caprichoso
O Caprichoso tem uma dívida pendente da administração do ex-presidente Carmona Oliveira. A presidente Márcia Baranda nega que chegue a R$ 2 milhões, como teria dito numa reunião com o secretário estadual de Cultura, Robério Braga, e representantes do Garantido. “Sei que a dívida existe, mas não sei de quanto é porque se deve a um repasse que não foi feito. Mas não chega a R$ 2 milhões”, disse.
Márcia, primeira mulher a dirigir um bumbá na história parintinense, afirma que nesta terça-feira vai pagar todo o pessoal do azul e branco. “Isso é prioridade nossa. Todos serão pagos”, disse.
A presidente do Caprichoso concorda que o bumbá sai do Festival mais endividado que o Garantido. “Eles reciclaram muita coisa. Não gastaram quase nada com adereços, tribos, tuxauas e ferro. Nós fizemos tudo do zero”, enfatiza.
Outra diferença entre os bumbás é a folha de pagamento. “Estamos trabalhando para levar a folha para 100% do valor do material”, diz Marco Aurélio. Para alfinetar o contrário, ele diz que a folha do Caprichoso chega a 150% do que o bumbá paga na compra da matéria-prima. E Márcia confirma: “É isso mesmo. Nossa mão de obra técnica é bem mais cara que a deles”.
Só o levantador de toadas, David Assayag, recebe em torno de R$ 350 mil a R$ 400 mil por ano, o que representa cerca de R$ 1 mil por dia.
Contrariando a máxima de que o Garantido é o boi pobre e o Caprichoso o boi rico, Márcia se queixa de que vários patrocinadores adiantaram recursos para o Garantido e deixaram o Caprichoso sujeito a empréstimos. “Teve patrocinador que me pagou na última hora, quando estava com a corda no pescoço, mas adiantou antes para o Garantido”, queixa-se.
Os bumbás têm como patrocinadores masters a Coca-Cola, o Governo do Amazonas, Band e Keyser. Cada um paga em torno de R$ 1 milhão para cada bumbá. Os demais patrocinadores são Eletrobras Amazonas Energia, Volvo, Natura e Bradesco, que pagam em torno de R$ 250 mil para cada, e a Trip, que dá sua parte em 150 passagens Parintins-Manaus-Parintins e mais R$ 100 mil em dinheiro.
Camarotes e ingressos
A licitação que deu à Tucunaré Turismo o direito de vender ingressos e camarotes do Festival Folclórico de Parintins, com um faturamento de 40% do total apurado, vale até 2012. “Só vamos poder rever esse negócio em 2013 porque a licitação ainda vai ficar valendo”, afirma Márcia Baranda.
“A Tucunaré tem despesas com confecção de ingressos, que são cartões magnéticos, e catracas eletrônicas, mas eles ganham em cima dos pacotes que vendem. Precisamos rever isso”, afirma Marco Aurélio. O contrato foi assinado quando eram presidentes Vicente Matos e Carmona Oliveira. “Foi uma vantagem porque antes os candidatos a presidentes faziam campanha para a presidência doando ingresso de cadeira e vendendo camarote. A Tucunaré evitou que vendessem camarotes dois ou três anos à frente”, acrescenta. “Nós recebemos mais de R$ 1 milhão, em dinheiro, de um negócio onde ninguém via nada”.
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