21/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Jair Mendes, pai, companheiro, artista

Publicado em 20 de junho, 2011

Conheci Jair Mendes, mais profundamente, quando fui apresentador do Caprichoso. Ana Mendes, esposa dele, e todos os filhos, sem exceção, me acolheram quase como membro da família. Ano passado, quando ele sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), fiquei todo orgulhoso porque fui visitá-lo, no Pronto-Socorro João Lúcio. Mesmo com ele sedado, fui o primeiro que reconheceu, após o AVC.

Grande parte da minha vida profissional passei escrevendo sobre boi bumbá, mas acho que é a primeira vez que abordo isso: Jair é a junção da técnica das Artes Plásticas, adquirida em um curso de belas artes, feito no Rio de Janeiro, com a meticulosidade e o cuidado com os detalhes da arte japonesa. O artista era vizinho, amigo e compadre dos Kimura, proprietários do Cine Oriental. Eram tão próximos que seus filhos chamavam a matriarca da família de origem asiática de “vovó”.

Em 1975, o Caprichoso fez uma grande apresentação. Juntou Ana Celeste como Miss do Boi (hoje cunhã-poranga) e Cleó Marques como Rainha da Fazenda. Foram as duas primeiras mulheres a desfilar de maiô no boi-bumbá. Sob a presidência de

Élcio Cruz, o bumbá azul e branco arrebentou. Terminado o Festival Folclórico, que era na quadra da Juventude Alegre Católica (JAC), onde tudo começou, o Garantido foi para casa, preparar a passeata do protesto (tradição dos derrotados) e o Caprichoso ficou na praça da Catedral, em peso, esperando para comemorar a vitória. Deu Garantido.

A lição, porém, foi entendida. O comando do Garantido percebeu que o Caprichoso dera um salto à frente e precisava fazer alguma coisa ou ficaria para trás. Foi então que Jair Mendes, artista que contribuía como podia, do próprio bolso, movido por amor pelo bumbá, foi contratado profissionalmente para tocar alguns projetos, no ano seguinte.

Em 1976, com a magia do gênio de Jair, surgia o “Boi Biônico”, que fazia todo tipo de movimento, comia sal e capim, levando ao delírio a torcida. Foi o primeiro ano em que ele apareceu com a cobra-grande, imensa, com a qual fazia performances, fingindo ser asfixiado por ela. E os capacetes para combater a lendária figura de Zeca Xibelão – que dá nome ao curral do Caprichoso –, até então imbatível nesse quesito.

O Garantido arrebentou. Ganhou e de forma inconteste. Já naquele primeiro ano, Jair estava consagrado.

Em 1987, convidado por Dodozinho Carvalho, fui ser apresentador do Caprichoso. Ganhamos. Foi o último ano do Bumbódromo de madeira e o único em que os jurados sentaram na arena e responderam a todas as perguntas, de jornalistas, brincantes e público, sobre o julgamento.

Em 1988, Jair Mendes, insatisfeito por problemas salariais, vinha para o Caprichoso. Já o conhecia, mas, nesse ano, nos tornamos amigos. Havia coisas da apresentação que só eu e ele sabíamos. Outras que nem eu sabia. O mistério era parte da mística que o envolvia. Foi o ano da inauguração do Bumbódromo de alvenaria e ele fez o boi desaparecer no meio da arena.

Jair é um sentimental. Ama o Garantido, mas foi conquistado pelo Caprichoso, bumbá de sua esposa, Ana, e onde recebeu, bem mais que o salário em dia, carinho e afeto.

Contabiliza Vandir Santos, Juarez Lima e Marquinho Azevedo (tripa), sem contar seus filhos, todos grandes artistas, entre os inúmeros talentos que introduziu no Boi Bumbá.

Jair, querido amigo, receba deste admirador o reconhecimento por tudo o que você representa para nosso Festival Folclórico. Soube que você quer se aposentar no centenário do Caprichoso, em 2013. Defendo desde já que lhe ergam uma estátua no lugar mais alto do Bumbódromo. Você merece. Você é o cara.

 

Veja mais notícias em Opinião

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.