24/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O ‘case’ Amazonino e o espírito público

Publicado em 23 de fevereiro, 2011

Ok, Amazonino errou, foi destemperado e tem a obrigação de se retratar. Um popular pode reagir como ele reagiu, num bate-boca privado, mas prefeito não. Tem a liturgia do cargo e a questão da representação – ele fala pelos 2 milhões de manauaras, mesmo os que não votaram nele. Repetiu o que os sociólogos dizem há muito tempo (a imigração explosiva explica as ocupações ilegais e de risco em Manaus) de  forma desastrosa. O que não disse é que a responsabilidade é dos políticos, ele incluído, que não foram capazes de planejar a cidade para ficar à frente de problemas como esse.

O que se seguiu à frase, devidamente retirada do contexto – Amazonino, antes, ofereceu casa alugada, terra e kit de madeira para construção das casas dos moradores sob risco –, é um fenômeno das mídias sociais, onde tudo ganha rapidamente dimensão global. E aí entrou a carnificina característica da falta de espírito público do período pré-eleitoral.

Manaus terá, em 2012, uma das eleições mais disputadas para prefeito. Conta aí: Amazonino, Serafim, Praciano, Vanessa, Rebecca… e outros.

É em momentos assim, quando a manifestação ruidosa e legítima dos paraenses confunde Amazonino com Manaus, que os manauaras e amazonenses em geral precisam sacar do máximo de espírito público.

A cidade vive um momento raro. Há oposição forte na Câmara Municipal. O grupo que votou em Isaac Tayah, retaliado pela administração municipal, reveza-se na tribuna batendo no prefeito. Transformou o que poderia ser uma oposição crítica e capaz de colocar a administração municipal nos trilhos num bate-estacas que acabará por vitimizar o alvo.

De novo indago: onde está o espírito público? Não seria a hora de discutir mais profundamente o planejamento da cidade? Por que não mirar os exemplos que deram certo? Os membros do  Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), por exemplo, têm mandato e respeito dos prefeitos, que nada fazem sem o aval explícito deles. Desde a década de 60.

Mônaco, cidade paradigma dos bon vivant, foi construída nas encostas dos Alpes Marítimos. Mas a obra foi feita com respeito, não há deslizamentos e o metro quadrado vale uma fortuna. Há quem ache um exagero fazer esse tipo de comparação, mas o que faço é mirar num exemplo de administração que respeita o dinheiro público e oferecer um parâmetro à altura dos rios de dinheiro que foram gastos no Amazonas – grande parte dele fruto da renúncia fiscal do resto do País, como bem disse o próprio Amazonino, inclusive dos paraenses.

Manaus não andará enquanto não encarar a questão fundiária. A cidade não comporta mais invasão, que faz nascer da noite para o dia demanda de infraestrutura não contemplada em qualquer orçamento (água, luz, telefone, asfalto, ônibus, escola, delegacia e o que mais você pensar). É impossível planejar qualquer coisa num ambiente assim, ainda mais quando anabolizado por políticos irresponsáveis, demagógicos, aproveitadores, capitães da máxima do “farinha pouca meu pirão (ou meu voto) primeiro”.

Amazonino errou. Mas Manaus inteira erra quando trata das invasões. É hora de pensar com espírito público nessa questão.

Veja o vídeo distribuído pela Semcom com a íntegra da desastrosa ida de Amazonino ao local onde morreram três pessoas, vítimas de desabamento, fim de semana passado. Perceba que ele chega ao local sem ter estudado o problema. Põe a mão na cabeça, se pergunta o que fazer, várias vezes, e começa a improvisar, até o momento do diálogo áspero com a moradora:

http://www.youtube.com/watch?v=n7Yaq08MIZY

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