
Do ateliê aos galpões e à arena, mulheres constroem protagonismo e transformam a história do Boi Caprichoso no Festival de Parintins. (Foto: Michel Amazonas/Divulgação)
Resistência, força e vanguarda marcam a presença feminina na história do Boi-Bumbá Caprichoso. Muito antes de o debate sobre igualdade ganhar espaço nas pautas contemporâneas, mulheres já ocupavam papéis decisivos na construção do boi negro de Parintins, ajudando a erguer uma trajetória marcada por arte, coragem e transformação social.
Nomes como Maria Lúcia, Edinelza Cid, Socorro Lopes, Odinea Andrade, Márcia Baranda e Socorrinha Carvalho representam diferentes gerações de dedicação ao bumbá azul e branco. Suas trajetórias estão entrelaçadas à história do Festival de Parintins e demonstram que a presença feminina sempre esteve associada à resistência e à capacidade de construir caminhos dentro do espetáculo.
Entre essas histórias está a de dona Maria Lúcia, que entrou para a memória do festival como a primeira mulher a ocupar o item Tuxaua, rompendo barreiras em um espaço historicamente dominado por homens. A presença feminina, no entanto, não se limita à arena. Nos bastidores, nos ateliês e nos galpões, mulheres também ajudaram a moldar a estética e a identidade do Caprichoso.
A artesã Edinelza Cid é um dos exemplos dessa contribuição. Com habilidade e sensibilidade, dedicou grande parte da vida à confecção de fantasias que compuseram o espetáculo do boi na arena. Ao lado de Odinea Andrade, transformava a própria casa em ateliê para a produção de indumentárias. O espaço também funcionava como ambiente de acolhimento para pessoas LGBTQIA+ que enfrentavam preconceito familiar e social em Parintins de décadas atrás.
Ao longo da história, o Caprichoso também rompeu paradigmas dentro da arena. O boi já apresentou uma vaqueirada inteiramente formada por mulheres e foi o único bumbá presidido por mulheres, com as gestões de Márcia Baranda e Socorrinha Carvalho. No campo técnico do festival, Socorro Lopes também se destacou ao coordenar equipes de fiscais em um ambiente de decisões intensas e tradicionalmente ocupado por homens do boi contrário.
A presença feminina se espalha por todos os setores do Caprichoso. Mulheres atuam no Conselho de Arte, na Escola de Arte Irmão Miguel de Pascalle, nos galpões de alegorias e figurinos, nas áreas administrativas e nas equipes de criação. A comunicação do boi é liderada pela jornalista Bruna Karla, reforçando o protagonismo feminino também na gestão e na construção narrativa do espetáculo. Se no passado o Caprichoso teve uma tuxaua pioneira, atualmente todas as tuxauas que se apresentam na arena do Festival de Parintins são mulheres.
Para a jornalista Adria Barbosa, mulher negra, pesquisadora, ativista e intérprete da personagem Mãe Catirina, o Boi Caprichoso possui forte potencial educativo e de transformação social. Ela afirma que ocupar esse espaço como mulher negra representa uma mudança significativa em um personagem que historicamente era interpretado por homens travestidos, transmitindo às crianças uma mensagem de orgulho e identidade.
O Caprichoso também tem ampliado o protagonismo de mulheres trans dentro do espetáculo. Um exemplo é Rafaela Prata, integrante do Movimento de Mulheres Trans e participante do Departamento Cênico do boi. Segundo ela, o Caprichoso abre portas e oferece visibilidade, transformando também o próprio espetáculo em símbolo de resistência.
Nos galpões de alegorias, onde são construídas as estruturas monumentais que encantam o público do Festival de Parintins, o talento feminino também se destaca. A artista Karen Batista integra as equipes responsáveis pela construção das alegorias do Caprichoso, coordenando equipes e acompanhando cada etapa do processo até o espetáculo ganhar vida na arena.
Karen afirma que ocupar esse espaço também representa um gesto de empoderamento feminino. Para ela, a união entre mulheres fortalece a coragem, a determinação e a resistência, reafirmando que o lugar da mulher é onde ela quiser estar.
Com trabalho, dedicação e paixão pela cultura popular, as mulheres ajudaram a erguer uma das maiores expressões culturais da Amazônia. No Boi Caprichoso, a luta pelo protagonismo feminino segue presente, reforçando a valorização da diversidade humana e da igualdade de gênero dentro e fora da arena.
SEO tags: #Parintins, #BoiCaprichoso, #FestivalDeParintins, #DiaDaMulher, #CulturaAmazonense, #ProtagonismoFeminino