
Foto: Divulgação
Enquanto boa parte do país já registra a intensificação do período chuvoso, os principais rios do Amazonas continuam apresentando níveis abaixo do esperado para esta época do ano. Em alguns pontos, as cotas ainda se mantêm próximas — ou até inferiores — às registradas durante a seca histórica de 2024, gerando impactos diretos na navegação, na economia regional e na vida das comunidades ribeirinhas.
Dados recentes do Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) indicam que, apesar de uma recuperação gradual após dois anos consecutivos de estiagens severas, diversas estações hidrométricas do estado ainda apontam comportamento fora do padrão climático. A situação é mais evidente em trechos do rio Solimões e no médio Amazonas.
Em Tabatinga, na fronteira com a Colômbia, o rio Solimões segue com níveis abaixo da média histórica para o período de cheia. Em 2024, o rio chegou a registrar cota negativa, fenômeno raro que indica água muito abaixo do nível de referência. Em 2025, embora haja leve recuperação, os dados ainda sinalizam vazante quando o esperado seria elevação ou estabilidade.
O mesmo comportamento é observado em pontos como Itapéua e Manacapuru, onde o Solimões apresenta níveis superiores aos do ano passado, porém ainda incompatíveis com o calendário hidrológico típico desta fase do ano.
No município de Coari e em localidades do médio Amazonas, a baixa profundidade dos canais tem dificultado a atracação de embarcações. Relatos do setor de transporte fluvial apontam atrasos logísticos, necessidade de atracação distante da margem e restrições ao transporte de cargas, situação que afeta diretamente a economia regional fortemente dependente das hidrovias.
Em Manaus, o rio Negro também preocupa. Historicamente, nesta época do ano, o nível do rio costuma subir cerca de 10 centímetros em média. No entanto, o monitoramento atual indica elevação de apenas 1 centímetro, evidenciando um comportamento anormal e reforçando o quadro de lenta recuperação hidrológica na região.
Segundo especialistas do SGB/CPRM, o cenário está relacionado a um descompasso entre o volume de chuvas nas áreas de nascente, especialmente nos Andes peruanos e colombianos, e a resposta hidrológica nos trechos médios e baixos da bacia amazônica. Esse desequilíbrio faz com que regiões como o Alto e Médio Solimões permaneçam em condição de vazante, mesmo com chuvas acima da média em algumas cabeceiras.
O Monitor de Secas da Agência Nacional de Águas (ANA) também aponta que mais de 25% da Região Hidrográfica Amazônica ainda enfrenta algum grau de seca, sobretudo na porção mais baixa da bacia brasileira, o que contribui para esse quadro hidrológico complexo.
A persistência de níveis baixos traz consequências diretas, como aumento no custo do transporte fluvial, dificuldade no escoamento da produção, acesso limitado a serviços básicos e prejuízos à pesca artesanal, principal fonte de renda de muitas comunidades ribeirinhas.
O SGB/CPRM reforça a necessidade de monitoramento contínuo e integrado com órgãos como a ANA e o Censipam, para antecipar riscos, orientar a navegação e subsidiar políticas públicas voltadas à gestão dos recursos hídricos e à adaptação das populações amazônicas às mudanças nos padrões climáticos.
Assuntos relacionados: #RiosDaAmazônia, #Hidrologia, #SecaAmazônica, #NavegaçãoFluvial, #Amazonas