
Conferência na Amazônia reconhece transição pós-combustíveis fósseis, amplia fundos climáticos e destaca florestas, mas metas obrigatórias ficam para depois. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
A COP 30 transformou Belém (PA) no epicentro da agenda climática mundial em 2025. Pela primeira vez na Amazônia, a conferência reuniu chefes de Estado, cientistas, negociadores, lideranças indígenas e representantes de empresas e organizações civis para discutir caminhos para conter o aquecimento global. Após duas semanas de debates intensos, o encontro terminou com avanços políticos relevantes, decisões parciais e impasses que continuam abertos.
O principal resultado foi o chamado “Pacto de Belém”, que reconhece, pela primeira vez em um documento oficial da ONU, a necessidade de eliminar progressivamente os combustíveis fósseis. O texto é considerado um marco simbólico importante, mas não estabeleceu datas vinculantes ou metas obrigatórias, o que gerou críticas de delegações mais ambiciosas e de organizações ambientais. A transição energética, embora reafirmada, permanece dependente das ações voluntárias de cada país.
Outro ponto central foi o reforço financeiro aos mecanismos internacionais. Países desenvolvidos anunciaram cerca de US$ 21 bilhões para o Fundo de Perdas e Danos e para o Fundo Verde do Clima até 2030. O valor supera aportes de conferências anteriores, mas ainda é insuficiente diante das demandas dos países vulneráveis, que estimam a necessidade de cifras muito maiores para adaptação e mitigação.
A regulamentação dos mercados de carbono avançou com regras mais claras para garantir integridade ambiental e evitar dupla contagem de créditos. A medida abre espaço para ampliar negociações bilaterais e fortalecer o mercado voluntário. Entretanto, a governança plena dos mecanismos ficou incompleta, deixando parte do sistema para futuras rodadas de negociação.
Realizada no coração da Amazônia, a COP 30 deu protagonismo inédito à proteção das florestas tropicais. Países amazônicos, africanos e asiáticos formalizaram a Aliança Global de Povos da Floresta, ampliaram compromissos voluntários de desmatamento zero até 2035 e anunciaram novas iniciativas de financiamento para monitoramento e pagamento por serviços ambientais. Lideranças indígenas tiveram participação mais ampla nas plenárias e influenciaram a redação de trechos sobre justiça climática e governança territorial.
Na agenda de adaptação, delegações aprovaram parâmetros globais para monitoramento de vulnerabilidade, reforço à infraestrutura resiliente e priorização de investimentos para países costeiros e populações em situação de risco. Mesmo assim, a ausência de recursos específicos limitou o alcance imediato das medidas.
Politicamente, Belém conseguiu aproximar blocos tradicionais e destravar pautas sensíveis, como reconhecimento das florestas como ativos centrais na mitigação climática. A presença massiva de universidades, estados, municípios e movimentos sociais também marcou a conferência. A logística e a organização do evento foram bem avaliadas pelas delegações, que destacaram o simbolismo de realizar a COP dentro da Amazônia.
Entre os principais impasses, ficaram sem solução metas obrigatórias para eliminação de combustíveis fósseis, compromissos financeiros compatíveis com a urgência climática e avanços mais robustos na agricultura sustentável. Mesmo com progressos técnicos, o mundo permanece distante das metas do Acordo de Paris, e o IPCC reiterou, durante o encontro, que as promessas atuais não garantem limitar o aquecimento a 1,5°C.
Apesar das lacunas, a COP 30 consolidou avanços moderados e posicionou Belém como palco histórico da diplomacia climática. O encontro reforçou a centralidade da Amazônia na agenda global, ampliou o espaço de povos tradicionais e reacendeu discussões sobre justiça climática e bioeconomia. A conferência se encerrou com a sensação de que houve progresso, mas de que as decisões tomadas ainda não são suficientes para enfrentar a crise climática em sua escala real.
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