
A praia da Ponta Negra em domingo de verão ficou assim, no auge da seca recorde do ano passado, com a areia toda de fora… Fotos: Marcos Santos

… agora, poucos dias depois da “quebra d’água” (o fim da enchente e início da vazante), o cenário é este, com faixa de areia menor e água convidativa
Manaus tem domingos que parecem obra de arte. O sol bate forte, a brisa do rio Negro refresca, e a cidade se abre como cenário perfeito para um passeio. O calçadão da Ponta Negra, o Largo de São Sebastião, o Teatro Amazonas e as ruas do Centro Histórico mostram que a capital amazonense, entre memórias e novidades, continua sendo um convite para viver intensamente cada estação.
O que antes era celebrado em versos hoje pode ser visto de novas formas. A cidade mudou, reinventou-se, mas segue vibrante — e, talvez por isso, a canção “Domingo de Manaus”, do sambista parintinense Chico da Silva, permanece atual como trilha sonora de quem redescobre a cidade.
É um domingo de verão
Estou pensando em me banhar na Ponta Negra
Se não puder eu posso dar uma chegadinha no famoso Tarumã
Visito o Parque 10 e vou chegando até a Ponte da Bolívia
Menina quando eu entro nessa onda esqueço até do amanhã
Do rio Negro de barquinho vou curtindo
O panorama da cidade
Areia branca e água preta é alvinegra
Dessas cores eu sou fã
Resolvi falar
Pra quem não visitou e conheceu Manaus
Tô dando a dica te resolve logo
Que tua alma vai sair do caos (bis)
A Zona Franca colorida e tentadora
Vai prender o forasteiro
Mas não esqueça de comprar a tua cuia
Pra tomar um tacacá
Convida a morena cor de jambo
Do sorriso mais brejeiro
Cuidado meu amigo, muita calma
Vai com jeito e devagar
Pela estrada colorida,
Pelas flores meu amor vai me levando
No Vivaldão eu vou pegar um futebol
E meu domingo completar
Resolvi falar
Pra quem não visitou e conheceu Manaus
Tô dando a dica te resolve logo
Que tua alma vai sair do caos (bis)
Das paisagens cantadas na letra, restam vivas a praia da Ponta Negra, o tacacá nas cuias fumegantes, as flores tropicais e o rio Negro, sempre majestoso.
Outros símbolos, no entanto, ficaram no passado:
O Vivaldão foi demolido para dar lugar à moderna Arena da Amazônia.
O Parque 10, famoso pelo igarapé de águas frias, hoje é lembrado apenas pelo igarapé do Mindu, um dos mais poluídos da cidade.
A Ponte da Bolívia desapareceu sob o peso da lixeira do km 19 da AM-010, um passivo ambiental que se tornou símbolo de descaso.
A “Zona Franca colorida” do comércio de importados no Centro deixou de existir antes dos anos 2000, quando Manaus era vitrine de novidades eletrônicas no Brasil.
Mesmo assim, a capital nunca perdeu o brilho. Aos domingos, ela se reinventa.
Ponta Negra continua sendo o grande ponto de encontro, com a praia urbana que se tornou cartão-postal. Aos domingos, parte da Avenida Coronel Teixeira se transforma em espaço exclusivo para pedestres e ciclistas.
A avenida Getúlio Vargas, fechada para carros entre Leonardo Malcher e Sete de Setembro, é a novidade: uma “faixa liberada” que virou sucesso de público, devolvendo o Centro às pessoas.
O Centro Histórico, por sua vez, segue irresistível. Caminhar pelas ruas, observar casarões, visitar o Teatro Amazonas e descansar no Largo de São Sebastião é como mergulhar em uma Belle Époque tropical, onde cafés charmosos se multiplicaram e hoje ditam moda na cidade. É neles que você encontra delícias gastronômicas, como o X-Caboquinho e a Tapioca Recheada com tucumã e queijo coalho (ou qualho).

Os cafés vão se tornando obrigatórios, na cidade do x-caboquinho, com cenários charmosos como esse do Angatu (rua Monsenhor Coutinho, Centro)
Manaus também se modernizou e ganhou símbolos que redesenham sua paisagem urbana:
O Mirante Lúcia Almeida, à beira do rio Negro, tornou-se ponto de contemplação e encontro, com vista privilegiada do pôr do sol sobre as águas escuras.
Em breve, será inaugurado o Mirante Encontro das Águas – Rosa Almeida, único monumento do Norte idealizado por Oscar Niemeyer, debruçado sobre a fusão dos rios Negro e Solimões.
O boom dos cafés consolidou-se: das esquinas do Centro aos bairros mais jovens, cafeterias se tornaram espaços de convivência, cultura e sabores que dialogam com a tradição amazônica, seja num expresso encorpado ou em criações com açaí, cupuaçu e castanha-do-pará.
A ponte Jornalista Phelippe Daou, inaugurada em 2011, é outro cartão-postal da cidade. Ao atravessá-la, Manaus se conecta às praias de Iranduba, ao espetáculo cultural das Cirandas de Manacapuru e ao deslumbrante Arquipélago de Anavilhanas, em Novo Airão — um dos maiores conjuntos de ilhas fluviais do mundo e passeio imperdível para quem busca contato direto com a natureza amazônica.

A ponte jornalista Phelippe Daou (foto) abre o acesso às praias de Iranduba, cirandas de Manacapuru e Anavilhanas, em Novo Airão
Se antes Chico da Silva recomendava à sua maneira que se conhecesse a cidade para que “a alma saísse do caos”, hoje o conselho permanece. O domingo em Manaus é feito de rio, sol, música, sabores e encontros. Entre nostalgia e novidade, a capital amazonense se reafirma como cidade única: guardiã da floresta e vitrine da modernidade, um destino que encanta quem nela vive e quem dela se aproxima.
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