Enquanto Veneza, na Itália, atrai milhões de turistas, Anamã amarga enchentes anuais, doenças e abandono, sobrevivendo com ironia e resiliência.
Na entrada da cidade, uma placa verde saúda o visitante com a frase: “Bem-vindo a Anamã – A Veneza do Amazonas”. A comparação soa como ironia amarga. Veneza, na Itália, é destino mundial, reverenciado por seus canais históricos, que recebem cerca de 30 milhões de turistas ao ano. Em Anamã, os canais são forçados pela cheia anual do rio Solimões, que transforma ruas em lama, comércio em flutuantes improvisados e a rotina em uma sucessão de doenças e dificuldades. No momento, com a vazante, as ruas não estão mais tomadas pelas águas.
Enquanto turistas cruzam Veneza em gôndolas, movidos pela estética e pelo romantismo, em Anamã os moradores são obrigados a atravessar ruas inundadas com água na cintura no período da cheia dos rios. O cenário não é turístico, mas de sobrevivência. O comércio, que em Veneza prospera, em Anamã se adapta em balsas frágeis. A diferença revela mais que contraste geográfico: expõe uma ferida social e política aberta há décadas.

Todos os anos, o mesmo roteiro se repete: a cheia toma a cidade, a população improvisa pontes, enfrenta a correnteza e convive com surtos de hepatite e leptospirose. Trata-se de uma calamidade anunciada, que se naturalizou diante da ausência de políticas públicas eficazes. O poder público local se limita a ações emergenciais, enquanto o Estado brasileiro parece ignorar a realidade de quem vive no coração da Amazônia.
• População: cerca de 14 mil habitantes (IBGE 2022)
• Área: 3.746 km²
• Localização: Médio Solimões, a 165 km de Manaus, acessível somente por via fluvial
• Economia: pesca, agricultura de subsistência e pequeno comércio adaptado à cheia
Se Veneza italiana representa um ícone de riqueza, arte e patrimônio mundial, a “Veneza amazônica” representa exclusão, abandono e resistência. O apelido, carregado de humor caboclo, revela a capacidade de rir diante do sofrimento, mas também denuncia a indiferença histórica do Estado brasileiro com sua gente da floresta.
A placa de boas-vindas é, ao mesmo tempo, ironia e manifesto. Ironia porque contrasta com a tragédia repetida a cada cheia. Manifesto porque lembra que, mesmo submersa, a cidade resiste — e resiste sorrindo. Mas o sorriso não deveria ser confundido com resignação: Anamã precisa ser vista e tratada não como piada turística, mas como um retrato doloroso da desigualdade estrutural da Amazônia.