Quem diria… a que ponto chegamos. Toda a nação, ou pelo menos a grande maioria, irmanada para combater um inimigo comum, que está atazanando a vida de todos. O momento é de aflição na saúde pública. Para se ter uma ideia da proporção gigantesca que o problema representa, até as forças armadas foram convocadas para essa batalha, que alcançou proporções nacionais jamais imaginadas abaixo da linha do Equador.
Tudo isso por causa de um mosquito. “Não, não é apenas um mosquito. É um super mosquito, muito mais forte e capaz de colocar 200 milhões de pessoas em estado de alerta”, defendem os encarregados de vender mais este estado de emergência. Campanha para combater o Aedes Aegypti, mais conhecido como o mosquito da dengue, todos os anos tem e ajudam a gastar vários milhões de reais sem, ao menos, uma resposta positiva, pois, se houvesse, não estaríamos enfileirados para mais uma batalha campal.
O mais interessante deste fatídico momento é que paralelamente a toda essa correria por causa de um minúsculo inseto e, bem diante de nossos olhos, mãos, nariz, ouvidos e cérebro há muitos anos, décadas até, somos acometidos por um mal muito maior, infinitamente mais devastador do que esse mosquito que só sabe comer o dinheiro do Ministério da Saúde, através de campanhas sem efeito algum.
Tão ou quase invisível quão o mosquito da dengue, o vírus da corrupção, da injustiça, da roubalheira desenfreada, dos pixulecos e de outras doenças congêneres já convive com desenvoltura entre as diferentes camadas sociais brasileiras, mas não se vê sequer uma campanha que vise um combate contundente, não se tem notícia de uma medida corajosa, a população está carente de uma ação – no melhor sentido da palavra – que fira mortalmente esta praga que está dizimando gerações inteiras.
Recentemente, só recentemente, o Ministério Público Federal (MPF) lançou Dez Medidas Contra a Corrupção – e deve receber parabenizações por isso – um conjunto de propostas para combater a corrupção na política brasileira. Como todas as medidas que visem produzir um benefício para a sociedade, a proposta do MPF deve ainda passar pela aprovação popular através de assinaturas, para chegar ao Congresso Nacional e, se der tudo certo, o projeto do MPF virar lei.
Há, além da enorme necessidade de combater tanto o mosquito da dengue, quanto a corrupção que grassa, tanto um quanto o outro, em todo território nacional. Enquanto o MPF ataca com dez medidas, o Ministério da Saúde lança campanha com 19 itens que, de acordo com o folheto, são suficientes para combater o mosquito periodicamente. Tanto uma quanto a outra se mostram para o combate, mas se vão revelar eficácia isso é outra história. Os deputados já contra atacam com projetos de lei mais ou menos com o mesmo conteúdo das propostas dos promotores federais.
Ao certo mesmo e, longe de revelar ser um pessimista, o que se vislumbra é a possibilidade desse mosquito, em sua nova versão, assumir como o ralo da vez, por onde se escoa milhões e milhões de reais em campanhas, com medidas inócuas, lembrando o flagelo das secas no Nordeste.
Por detrás – ou melhor, por baixo – de um minúsculo mosquito e, não se pode esquecer, do letal vírus da corrupção, está ganhando força no Planalto Central, nos Estados e até nos mais periféricos municípios (com promessa de receberem uma fatia, pequena que for) se esconde uma fera maior, a CPMF. De quem, o mosquito, é apenas a ponta do iceberg.
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* Auditor fiscal da Sefaz, coordena o Programa de Educação Fiscal no Amazonas.